BBC Brasil
23/08/2007 - 08h19

Após briga, Constituinte da Bolívia é suspensa por tempo indeterminado

MÁRCIA CARMO
da BBC Brasil, em Buenos Aires

As sessões da Constituinte da Bolívia foram suspensas "por tempo indeterminado" na quarta-feira, como anunciou a presidente da Assembléia Constituinte, Silvia Lazarte.

Segundo a Agência Boliviana de Informação (ABI), Lazarte alegou falta de "garantia" para preservar a "integridade física" dos constituintes diante da "crescente escalada de vandalismo". De acordo com esta agência oficial, o futuro da assembléia constituinte "corre risco".

Os debates para a redação da nova carta magna são realizados em Sucre (capital constitucional da Bolívia e sede da Suprema Corte de Justiça), onde moradores protestam há mais de dez dias contra o fim das discussões para que o departamento seja a capital do país.

A imprensa boliviana estima que, atualmente, cerca de trezentas pessoas realizam greve de fome em Sucre para que o debate sobre a capital seja reaberto.

Ao mesmo tempo, na quarta-feira, manifestantes correram atrás de constituintes nas ruas da cidade para agredi-los. O quadro levou Lazarte a adiar os debates.

"Se não existe segurança suficiente e se não existe clima para que os trabalhos da constituinte funcionem, a sessão fica suspensa até novo aviso e sem data e nem hora específica", disse Lazarte.

A proposta de transferir a capital de La Paz (sede da Presidência e do Congresso Nacional) para Sucre tinha gerado sérios protestos em La Paz e comemorações em Sucre.

Os conflitos levaram a base governista do presidente Evo Morales a desistir da idéia de mudanças. 'Essa discussão estava provocando um grande desgaste para o governo em La Paz, onde estão reunidos mais de 30% dos eleitores', disse à BBC Brasil o analista Jose Luis Galvez, gerente geral do instituto Equipos Mori.

Desde então, as discussões estão paradas na assembléia, onde nenhum artigo foi aprovado em cerca de treze meses de debates.

Recentemente, o prazo para a conclusão dos trabalhos foi adiado de seis de agosto para dezembro, mas situação e oposição admitem que esta prorrogação também pode ser insuficiente.

A nova carta magna boliviana é considerada fundamental por Morales, que disse, mais uma vez, pretender 'refundar' o país a partir de sua aprovação.

Sopapos

O novo impasse na Assembléia Constituinte ocorreu pouco depois que deputados trocaram socos e pontapés, no plenário da Câmara dos Deputados, em La Paz, diante das câmeras de televisão.

A briga ocorreu numa sessão convocada para votar a abertura de processo contra quatro ministros do Tribunal Constitucional.

A discussão entre os parlamentares para processar os ministros Elizabeth Íñiquez, Martha Rojas, Wálter Raña y Artemio Arias acabou com agressões físicas entre integrantes da situação e da oposição que também contou com a participação de mulheres, do Partido opositor Podemos, aos gritos, do alto das cadeiras da casa.

Para evitar novos enfrentamentos, as discussões foram transferidas para a sede da vice-presidência da República, onde a maioria da base governista aprovou a saída dos magistrados, acusados de irregularidades. A decisão ainda precisa ser ratificada.

O vice-presidente Álvaro García Linera criticou a violência nos debates políticos e disse que o governo não desistirá das reformas que pretende implementar, através da via democrática.

"Nos últimos dias, a democracia boliviana foi assediada por pequenos grupos conservadores e violentos que trocaram as idéias por pontapés, ameaças, chantagens e insultos racistas, mas é óbvio que a democracia continua vigorosa na Bolívia", disse.

 

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