BBC Brasil
24/08/2007 - 11h09

Ataque a crematório causa polêmica entre israelenses

da BBC Brasil

O incêndio do único crematório existente em Israel, na última terça-feira, dividiu a comunidade israelense, causando indignação entre os laicos e regozijo entre ultra-ortodoxos.

De acordo com a polícia, o portão do crematório Alei Shalechet foi arrombado e o local foi incendiado propositalmente.

O incêndio ocorreu no mesmo dia em que o jornal ultra-ortodoxo "Kav Itonut Datit" publicou a localização exata do crematório, que até então tinha sido mantida em sigilo, justamente por temores de um ataque religioso.

Segundo as suspeitas da policia israelense, o crematório Alei Shalechet foi destruído por ativistas ultra-ortodoxos que se opõem à prática da cremação e a consideram um "sacrilégio".

O incidente despertou uma intensa discussão em Israel, a respeito dos direitos do indivíduo de determinar o que será feito com seu corpo após a morte.

Um dos líderes ultra-ortodoxos, Yehuda Meshi Zahav, que divulgou a localização do crematório na imprensa religiosa, disse que o local destinado à cremação "era uma profanação aos mortos e à terra sagrada de Israel".

Segundo as tadições e crenças dos ultra-ortodoxos em Israel, os falecidos devem ser sepultados na terra, envoltos apenas em um pano branco, sem caixão.

O diretor do crematório, Alon Nativ, afirmou que vinha recebendo ameaças por parte de ultra-ortodoxos desde a fundação do local, há dois anos, e que já deu várias queixas à policia.

"Pretendo reconstruir o crematório, existem muitos israelenses que querem ser incinerados e eles (os ultra-ortodoxos) não poderão impor sua visão de mundo ao público israelense".

O ministro das Religiões, Itzhak Cohen, do partido ultra-ortodoxo Shas, declarou que vai preparar um projeto de lei que proíba a cremação em Israel.

"Israel é um estado judeu e deve se comportar de acordo com as normas do judaísmo. Crematórios existiam em Auschwitz e não podem existir aqui. Os fundadores do crematório se inspiraram no Holocausto, lá queimavam judeus", disse o ministro.

Cohen também deu uma sugestão aos cidadãos de Israel que querem ser cremados. "Podem ir para a Índia", disse ele.

O presidente do Museu do Holocausto, Yad Vashem, Tomy Lapid, se indignou com as alusões do ministro ao genocídio cometido pelo regime nazista.

"Esta é uma forma de terrorismo religioso", disse Lapid. "As pessoas têm o direito de decidir como querem viver e como querem morrer... os ultra-ortodoxos querem controlar não só a nossa vida, mas até a nossa morte".

O conhecido escritor Yoram Kaniuk disse à rádio pública de Israel que quer "sair deste mundo em forma de cinzas e não ser sepultado na terra".

"Não quero túmulo nem lápide, e esses idiotas não vão determinar para mim como vou morrer".

O ex-ministro da Justiça e líder do partido social-democrata Meretz, Yossi Beilin, disse que já determinou, em seu testamento, que seu corpo seja cremado.

"A liderança ultra-ortodoxa quer levar Israel ao obscurantismo, no qual o cidadão não poderá nem decidir o que será feito com seu corpo após a morte. Os partidos laicos vão lutar contra o projeto de lei para proibir a existência de crematórios".

 

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