BBC Brasil
02/10/2007 - 10h22

Sem ajuda de fora, monges vão desistir, diz estudante

da BBC Brasil

Sem ajuda internacional, os monges de Mianmar vão acabar desistindo do seu protesto contra o regime do pequeno país asiático, disse à BBC um estudante da religião budista que acompanhou os recentes protestos em Mianmar (antiga Birmânia) de dentro de um mosteiro.

"Quando eles vêem que o apoio aos protestos está diminuindo e o tempo está passando sem a ajuda de ninguém, eles perdem a esperança. Eles estão se desiludindo e, eventualmente, vão desistir", disse o estudante.

Ele pediu que o seu nome fosse omitido para que o mosteiro onde estava não pudesse ser identificado porque teme que isso possa colocar a segurança dos monges em risco.

A seguir, leia o relato na íntegra:

"Em Mianmar, o assunto política está sempre na mente das pessoas. Mas há até pouco tempo seria impossível prever os eventos que estavam prestes a acontecer.

É comum a noção de que o governo mantém espiões nos mosteiros budistas. Há sempre um clima de suspeita e todos tomam cuidado com o que dizem. Conversas informais já causaram problemas no passado.

Os birmaneses protestaram contra o aumento do preço dos combustíveis em agosto passado. A primeira reação dos monges foi em resposta à situação econômica. Os mosteiros dependem do apoio material do público.

O aumento dos preços pesou nos bolsos da população que, por sua vez, não dispunha mais de tanto dinheiro para doar aos mosteiros. Os monges estavam preocupados com sua sobrevivência, acreditando que, em breve, não teriam o que comer.

Para aqueles que passaram sua vida em um mosteiro, sair de lá e fazer outra coisa não é uma opção. Alguns monges expressaram sua insatisfação para membros do governo.

O incidente em Pakokku, onde monges foram espancados, foi como um chute na cara deles. O episódio chamou a atenção dos monges e foi aí que eles se deram conta de que o problema também diz respeito a eles.

Houve revolta geral, mas ainda assim, nenhuma ação.

Notícias

Depois disso, eles ouviram pelo rádio que havia grupos de monges protestando em Yangum (a principal cidade do país). Foi aí que eles se deram conta de que havia alguma coisa acontecendo. Todo mundo ficava de orelha grudada no rádio, esperando pelas últimas notícias da BBC ou da Voz da América.

As notícias tiveram impacto maior nas decisões e eventos do que qualquer líder poderia ter tido. Aqueles que participaram eram de uma geração mais nova de monges, que não presenciaram os eventos de 1988 e acreditavam que não podiam ser atacados.

Os monges mais velhos estavam com muito medo e hesitantes. Aqueles que tinham posição de responsabilidade no mosteiro eram particularmente contra a participação de qualquer um nos protestos.

Eles ordenaram aos monges que não participassem. Eles diziam "não façam nada, se sair, você será desligado".

Os monges do médio escalão estavam 'sanduichados' entre os dois grupos. Muitos entravam e saíam do mosteiro sem ser notados.

Mortes

Depois de terem escapado dos espancamentos, eles voltavam e comemoravam o fato de ter saído e ter feito o que fizeram. Alguns ficaram feridos, mas ninguém foi morto.

Então escutamos as notícias de que monges estavam sendo mortos. Houve revolta, decepção e desesperança.

Eles queriam mandar uma mensagem para a comunidade internacional. Eles ouviram falar da China, de sanções, ONU, negociações, coisas que eles não entendiam. Mas isso deu a eles esperança de que a comunidade internacional estava acompanhando de perto os eventos em Mianmar.

Tudo começou como um movimento religioso. Não foi organizado como um movimento democrático e não havia qualquer intenção de que se tornasse um. Os monges foram bem claros sobre isso.

Eles sabem que não adianta pedir liberdade aos generais. Eles sabem que não têm armas e não podem vencer o Exército. Tudo o que eles queriam era mostrar ao mundo o que estavam passando e que estavam preparados para morrer.

Eles tinham muitas esperanças em relação ao enviado da ONU (Ibrahim Gambari) vindo para Mianmar. Mas eles ficaram bastante surpresos quando ele se encontrou com a líder da oposição Aung San Suu Kyi.

Eles amam e respeitam Aung, mas acreditam que desta vez a questão é sobre eles e o enviado da ONU deveria estar falando com eles. Para os monges, isso tira a atenção deles, no momento em que eles levam tiros e precisam de proteção.

Esta foi uma oportunidade para que eles se expressassem depois de 20 anos. Os olhos deles estão voltados para a comunidade internacional, sua única esperança é de que o mundo veja sua saga e os ajude.

Mas quando eles vêem que o apoio aos protestos está diminuindo e o tempo está passando sem a ajuda de ninguém, eles perdem a esperança. Eles estão se desiludindo e, eventualmente, vão desistir."

 

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