BBC Brasil
29/04/2008 - 07h44

Análise: A matraca do Barack

LUCAS MENDES
da BBC Brasil, em Nova York

O pastor de Barack Obama, Jeremiah Wright, um crítico implacável dos Estados Unidos, começou uma blitz de relações públicas neste fim de semana e ocupa os noticiários, da manhã à noite.

O pastor não pede desculpas, não se retrata, provoca e ataca seus críticos e quando fala o rebanho ouve. Ele acha que é vítima de uma conspiração da mídia corporativa.

"Não sou divisivo, sou descritivo", é a explicação dele sobre suas controvertidas declarações que complicam a candidatura do senador Barack Obama.

"O senhor disse que os ataques de 11 de setembro foram uma conseqüência da política externa americana", perguntou um jornalista na entrevista coletiva no National Press Club na manhã de segunda-feira, transmitida ao vivo. "Está na Bíblia. Quem aterroriza outros povos pode esperar terror de volta."

"O senhor é amigo de Louis Farrakhan nos Estados Unidos (líder da Nação do Islã e crítico de Israel e dos judeus)?". Wright dispara: "Farrakhan é um dos homens mais importantes do século passado e deste. Não vou negar minha amizade com ele."

"O senhor é patriota?", insistem os jornalistas. "Eu servi seis anos nas forças armadas. Quantos anos Dick Cheney serviu?", provoca o reverendo.

Estes foram alguns trechos da entrevista do pastor, que também teve momentos positivos para Barack Obama. "Não sou guia espiritual nem guru do senador. Sou o pastor da igreja da família Obama e já disse a ele que se ganhar em novembro vou fazer cobrança. Estarei contra ele."

Jeremiah Wright é mais do que o pastor dominical do pré-candidato. Ele foi responsável pela conversão do senador, que na infância e juventude foi a escolas católicas, protestantes e muçulmanas, mas antes de encontrar Wright não tinha nenhuma filiação religiosa.

Jeremiah Wright celebrou o casamento do senador, batizou as duas filhas e ia falar no dia que Obama anunciou sua candidatura à presidência, mas assessores do político neutralizaram a participação do pastor.

Um sermão dele em 1988, "Audácia da Esperança", foi o fator decisivo na conversão do senador e é o título do segundo livro de Obama, embora ele não acredite nas explicações religiosas sobre a origem do mundo nem no nosso destino depois da morte.

Barack Obama gravava os discursos do pastor, que serviam de inspiração nos seus debates em Harvard, mas o estilo do senador é professoral e reflexivo. O do pastor é emocional e bombástico.

Entre controvérsias anteriores estão uma viagem do reverendo a Cuba e outra à Líbia com Louis Farrakhan, quando se encontraram com o coronel Khadafi, que resultou em nada.

Currículo incontestável

O pastor nasceu e cresceu numa vizinhança de classe média na Filadélfia, filho de pai pastor e mãe professora, a primeira negra a chegar a vice-diretora de uma escola na cidade. Sempre foi aluno brilhante, inclusive nas escolas com 90% de brancos.

Jeremiah Wright estava na faculdade quando ouviu o discurso de John Kennedy com a frase "não pergunte o que o país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo país". Largou a faculdade e se alistou no corpo de fuzileiros navais. Três anos depois, pediu transferência para a Marinha, fez um curso de técnico em enfermagem e foi parte da equipe médica da Marinha que cuidava do presidente Johnson.

Saiu da Casa Branca recomendado e condecorado. Não é fácil falar mal do currículo público do pastor. Voltou para a universidade, saiu diplomado como doutor em religião aplicada (Doctor of Ministry) e em 1972 foi dirigir a igreja Trinity de Chicago, onde mais tarde encontraria o universitário e líder comunitário Barack Obama.

O senador há muito tempo não aparece em público com o pastor, criticou várias das suas declarações políticas, mas se recusa a fazer um rompimento formal com Jeremiah Wright, embora os dois já tenham conversado sobre a possibilidade desta separação durante a campanha.

As conexões do senador com o pastor ameaçam o voto branco de classe média baixa que Obama perdeu para a senadora Hillary Clinton em 25 das 28 eleições primárias. Este é um voto indispensável para vencer a eleição de novembro.

O Partido Republicano da Carolina do Norte, onde será a próxima primária no dia 6 de maio e Obama é favorito, lançou uma campanha pela televisão com imagens e frases do pastor para ilustrar os perigos das conexões de Obama, e o senador McCain, que tinha criticado os comerciais, agora engrossa o coro do radicalismo de Obama.

Barack Obama precisa de gênio político para silenciar a matraca do pastor e conquistar o voto do branco pobre sem perder o voto negro.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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