BBC Brasil
07/05/2008 - 07h58

Análise: Melado democrata

LUCAS MENDES
da BBC, na Carolina do Norte

Os líderes do partido democrata tinham um plano brilhante: concentrar 24 eleições primárias e caucus num dia, a Superterça, e, com apenas um mês de campanha, o partido teria um super candidato a presidente.

Desgaste mínimo, custo baixo e um partido unido seis meses antes da convenção, nove meses antes da eleição. Genial. Com os republicanos na fossa, a vitória democrata seria um massacre.

Diante deste cenário, uma dúzia de candidatos entrou em campanha meses antes da primeira primária. Na virada do ano, a senadora Hillary Clinton parecia imbatível.

A Superterça foi um super bode. Dividiu o partido entre uma mulher super determinada, um negro super inspirado e meia dúzia de gatos pingados inteligentes, mas sem chances.

Mais primárias e mais surpresas: Barack Obama ganhava em Estados com alta percentagem de negros e ganhava também em alguns Estados super brancos, como Iowa, Winsonsin e Maine, mas a senadora ganhava nos grandes Estados e entre os eleitores de classe média baixa, nas zonas rurais, entre as mulheres e entre os velhos.

Apesar das vitórias nos Estados importantes, ela perdia no voto popular e em delegados. A vitória na Pensilvânia ressuscitou a campanha da senadora e injetou dinheiro nos cofres vazios. Com novo impulso e graças, em parte, aos comentários antiamericanos do pastor Jeremiah Wright, guia espiritual do senador Obama, a senadora estava no páreo e o senador no sufoco.

A Carolina do Norte e Indiana, os dois últimos grandes Estados na campanha, poderiam "virar o jogo". A esperança de Hillary Clinton era ganhar nos dois Estados, ou pelo menos em Indiana, e reduzir a vitória do senador à menor margem, se possível, abaixo de 10%, na Carolina do Norte.

Havia duas possibilidades: a senadora ou o senador ganharia ambas ou cada um ganharia uma delas. Se ela ganhasse as duas, de fato viraria o jogo e com vitórias decisivas nas seis primárias restantes poderia até superar o senador no voto popular. Um argumento forte com os super delegados.

Se o senador Obama ganhasse as duas eleições, ela poderia insistir em continuar na expectativa dos votos da Flórida e Michigan, onde ela ganhou, mas o partido puniu os Estados porque mudaram as datas das eleições e os delegados não entram na contabilidade. Mas seria difícil resistir às pressões dos super delegados para sair do páreo e levantar dinheiro para continuar.

O senador superou as pesquisas e ganhou por 14 pontos na Carolina do Norte, uma margem tão alta que será impossível para ela ganhar no voto popular.

O empenho da família Clinton, que palmilhou o Estado nas duas últimas semanas, não foi suficiente para superar o voto negro --quase 40% dos democratas no Estado e 91% votaram em Obama-- e dos liberais urbanos. Às 22h o senador fez mais um discurso inspirado e generoso, como se já fosse o candidato do partido à Presidência.

Na imagem da televisão durante o discurso apareciam 13 pessoas atrás do senador com cartazes. Só havia um homem e uma negra, todas outras eram brancas de meia idade. Marianne, uma negra voluntária, vendedora de pôsteres, bandeiras e camisetas, estava na festa, mas do outro lado, junto com milhares de outros negros.

Mesmo longe das câmeras, estava eufórica. Vendeu tudo e o candidato dela parecia irresistível. Hillary Clinton fez o discurso dela às 23h como vencedora em Indiana, com promessas de lutar pelos votos da Flórida e de Michigan e ganhar a convenção.

E, por favor, pedia ela, mandem dinheiro. Não havia lágrimas nos olhos da filha Chelsea nem dos partidários, mas o entusiasmo era contido. O rosto de Bill Clinton estampava a magra vitória que ainda não estava confirmada.

Este foi o drama da noite, quase 1h, uma das zonas eleitorais mais pró-Obama de Indiana, o município de Lake, na fronteira com Illinois, não tinha mandado os resultados completos e os votos de lá poderiam tomar a vitória dela.

No fim das contas a senadora ganhou por uma miséria de votos, mas o suficiente para continuar na luta e arrastar as primárias até junho.

A solução genial da campanha de um mês pode melar a eleição dos democratas.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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