BBC Brasil
15/05/2008 - 08h26

Polêmica sobre biocombustíveis deve dominar Cúpula América Latina-UE

CLAUDIA JARDIM
da BBC Brasil, em Lima

A polêmica sobre a produção de biocombustíveis e sua incidência sobre o aumento dos preços agrícolas deverá ser um dos principais pontos de divergência da 5ª Cúpula de Chefes de Estado da América Latina, Caribe e União Européia (UE), que começa nesta quinta-feira em Lima.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à capital peruana nesta tarde para tentar convencer seus colegas da região que o álcool à base de cana-de-açúcar não é o responsável pela recente crise que provocou protestos em diferentes partes do mundo.

Mas de acordo com analistas a tarefa do presidente brasileiro não será tão simples.

"O que entrará em debate não é somente a origem do álcool brasileiro e sim o modelo de produção de biocombustíveis como um todo e sua real ameaça à produção de alimentos", afirmou à BBC Brasil o analista político Ernesto Velit, da Universidade Ricardo Palma, em Lima.

"Não sei o que fará Lula para convencer seus colegas, mas certamente enfrentará muita oposição", acrescentou.

Do lado latino-americano, as críticas à produção de biocombustíveis têm origem inclusive em governos com modelos opostos de desenvolvimento.

Os presidentes do Peru, Alan Garcia, e da Bolívia, Evo Morales, que divergem sobre um tratado comercial com a União Européia, concordam que a produção dos biocombustíveis ameaça as áreas destinadas à produção de alimentos.

Para o analista político peruano Alejandro Deustua, os chefes de Estado devem reorientar suas críticas. A seu ver, ao atribuir a responsabilidade da inflação dos preços dos alimentos à produção de álcool se ignora dois aspectos que ele considera fundamentais para ponderar a polêmica.

"É preciso considerar a especulação no mercado de alimentos, que foram convertidos em commodities, e não se pode descartar que há interesses políticos em gerar uma crise em torno do biocombustível", afirmou Deustua à BBC Brasil.

"Antes de condenar, é preciso estudar e avaliar".

O presidente da comissão organizadora da Cúpula, Ricardo Vega Llona, admitiu nesta quarta-feira que o tema alimentar "demandará mais esforços para se ajustar a declaração final", da Cúpula.

Desafios

A agenda oficial da Cúpula abarca temas como o combate a pobreza, a exclusão social e mecanismos para frear o aquecimento global.

"Crescer sem pobreza e fazê-lo respeitando o meio ambiente são os grandes objetivos deste diálogo que estamos seguros que terá resultados claros", disse o presidente peruano, Alan Garcia.

Mas, na prática, não haverá surpresas, de acordo com analistas. O acordo de associação entre o Mercosul e a União Européia, uma das expectativas da Cúpula, tende a ser adiado uma vez mais, já que as negociações sobre os subsídios agrícolas, de grande interesse para os latino-americanos, continuam estancadas da Rodada de Doha.

Os europeus, por sua vez, não abrem mão de obter maior acesso ao mercado sul-americano. O impasse deve continuar. "Essa será uma reunião mais política do que econômica. Não serão assinados nenhum tratado ou convênio importante", acredita Ernesto Velit.

Para Velit, o principal desafio dos governantes que participarão do evento será o de aplicar mecanismos para dar seguimento às políticas acordadas nas Cúpulas presidenciais para combater a pobreza, que até agora, a seu ver, são pouco efetivas.

Itaipu

Na América Latina quase um terço da população ou cerca de 220 milhões de pessoas são pobres.

O documento final do encontro já começou a ser redigido por altos funcionários de governos e será ajustado nesta quinta-feira pelos chanceleres. Na sexta-feira, ele deve ser assinado pelos 45 chefes de Estado que devem comparecem ao encontro.

Na sexta-feira, Lula deverá se reunir com o presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, e com o presidente eleito Fernando Lugo, que pretende discutir com o mandatário brasileiro a revisão dos tratados da hidrelétrica binacional de Itaipu.

Tratado como um de seus principais temas de campanha, Lugo defende uma revisão dos valores do acordo para que o Paraguai receba "um preço justo" pela energia que vende ao Brasil.

Comentários dos leitores
Sebastião Vicentim (45) 16/11/2009 16h18
Sebastião Vicentim (45) 16/11/2009 16h18
Muito alarido, pelo diretor da FAO. ele está fazendo o seu papel. Agora... previsão para 2050 (daqui 40 anos). Será que esse diretor ou os especialistas se lembram do que seria necessário fazer, em 1968 em relação à fome no mundo? Em 40 anos, quais países ainda serão emergentes? É realmente problema de vontade política e de se ensinar e dar condições de "pescar" e não de dar o peixe já frito a esse segmento faminto da sociedade. Soluções estão à mostra a todo momento e para todo mundo. Uma delas é a transferência de tecnologia. Com tanta boa vontade que notamos em nossos líderes mundiais, não seria difícil um consórcio onde se ensinaria e proveria de boa infra-estrutura, de forma eficiente e eficaz, o cultivo, a produção, consumo de alimentos, erradicando a fome no mundo. Medidas nesses moldes não são para 2040, 2050 e sim pra já. A FAO deveria atuar em idéias semelhantes, em reunir nações realmente empenhadas em ajudar o povo faminto desse planeta e não em fazer considerações do que esse ou aquele País deve fazer. sem opinião
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O Pacificador (135) 16/11/2009 13h40
O Pacificador (135) 16/11/2009 13h40
"Países emergentes precisam dobrar produção de alimentos até 2050..."
Aqui no Brasil, podem esquecer.
Sem chance...
Ao menos se continuarem os atos de organizações tipo MST, que invadem, destroem e queimam lavouras, com nossas autoridades assistindo á tudo, imersas no mais profundo e nojento silêncio constrangedor, não vai ter produção suficiente não.
Estamos deixando de ser uma nação do agronegócio, e nos tornando uma republiqueta especializada no "agroterror"...
4 opiniões
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Cleverson Castilho Menon (5) 16/11/2009 12h16
Cleverson Castilho Menon (5) 16/11/2009 12h16
Os paises ricos são uma piada mesmo. Enquanto eles destroem a Terra, querem que os paises emergentes alimentem aqueles que os ricos destroem. Devem os emergentes ajudar os pobres sim... mas os ricos deveriam e vão morrer de fome um dia. sem opinião
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