Chávez promete US$ 365 milhões para combater pobreza
CLÁUDIA JARDIM
da BBC Brasil, em Lima
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prometeu nesta quinta-feira doar um dólar de cada barril de petróleo que seu país venda para a criação de um fundo para o combate a pobreza e pedirá o mesmo a seus colegas da América Latina e União Européia que participam da 5ª Cúpula de Chefes de Estado que se realiza em Lima, Peru.
"Nós estamos dispostos a dirigir 1% desses recursos financeiros (US$ 365 milhões ao ano da renda petroleira) a um fundo que nos permita adquirir, produzir, distribuir alimentos e medicamentos", disse Chávez em entrevista coletiva no Palácio Miraflores em Caracas.
Ao colocar fim ao mistério sobre sua participação na Cúpula da América Latina e UE, o presidente venezuelano disse que proporá aos países da América Latina que "possam contribuir com algo" colaborem e que os países europeus contribuam todos com US$ 1 milhão diários. "Seriam 1.095 bilhões de dólares ao ano", declarou o presidente da Venezuela, quinto maior exportador mundial de petróleo.
Além da bilionária proposta, Chávez disse que levantará outro tema controvertido a seus colegas europeus: o perdão da dívida externa aos países pobres do continente.
"Falta de juízo"
Chávez, que poderá se se encontrar com a chanceler alemã Angela Merkel durante a Cúpula ALC-UE, com quem iniciou uma briga esta semana, voltou a se referir a chanceler e qualificou como falta de juízo as declarações da alemã.
"Eu não me meto com ninguém a menos que se metam comigo. Que a chanceler alemã diga antes de vir a América Latina que os governos deveriam se distanciar da Venezuela e vem a uma Cúpula onde estará a Venezuela, que falta de tudo, que falta de juízo", disse.
No sábado, Merkel disse que Chávez não era a única voz da América Latina e que tampouco representava os interesses de todos os países da região.
"Oxalá ninguém siga o exemplo do Rei da Espanha, desesperado, porque não podem ver a nós os índios, os negros intervindo na Cúpula", disse Chávez, ao recordar o incidente com o Juan Carlos, que disparou um "Porque não te calas?", durante a Cúpula Iberoamericana realizada em novembro do ano passado, quando Chávez tentava interromper o primeiro-ministro espanhol José Luiz Zapatero.
Zapatero e Chávez, que desde este incidente não se encontram, terão de compartilhar o mesmo cenário na Cúpula que será presidida pelo primeiro-ministro espanhol.
Chávez voltou a agradecer ao presidente Lula que saiu em sua defesa ao dizer que "Chávez era o melhor presidente da Venezuela dos últimos cem anos". Apesar da troca de elogios, os dois mandatários não se reunirão separadamente em Lima.
O presidente Lula chega à capital peruana no início desta quinta-feira, com uma pauta marcada para defender o etanol brasileiro em meio à crise gerada pela saída da ministra do Meio Ambiente Marina Silva, considerada por analistas como uma das garantias da preservação do meio-ambiente no Brasil.
Mais do mesmo
O presidente da Comissão Européia José Barroso disse ao se reunir com o presidente do Peru Alan Garcia que a UE faria de tudo para que "a Cúpula não seja uma Cúpula a mais". Mas de acordo com o que foi divulgado até agora a Cúpula mostra que o encontro repetirá metas já discutidas e não cumpridas.
A declaração final da Cúpula já redigida por funcionários do governo deixará uma mensagem política de preocupação com a fome e os riscos de desabastecimento de alimentos, mas sem detalhar políticas claras para solucionar os dois problemas.
Os europeus propuseram um programa conjunto para os dois continentes que será denominado Euroclima. O projeto deverá custar 5 milhões de euros que serão investidos pela Comissão Européia, em uma tentativa de amenizar os efeitos das mudanças climáticas e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente.
A definição do projeto pára por ai assim como todas as menções conhecidas até agora da chamada "Agenda de Lima" que pouco indicam quais serão os mecanismos concretos para combater a pobreza, a desigualdade e frear o aquecimento global, principais eixos da Cúpula.
A primeira versão do documento final não faz menção direta aos biocombustíveis ou ao etanol. Caberá aos chefes de Estado aprovar ou não a declaração.
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