BBC Brasil
05/06/2008 - 08h23

Crise alimentar "não tem vilões nem mocinhos", dizem especialistas

ASSIMINA VLAHOU
da BBC Brasil, em Roma

A produção dos biocombustíveis não pode ser apontada como o 'vilão' da alta mundial nos preços dos alimentos, já que a crise é uma combinação de vários fatores, afirmam especialistas da FAO, agência da ONU para agricultura e alimentação, ouvidos pela BBC Brasil.

"A alta dos preços é conseqüência da combinação de diversos fatores. A FAO pensa que os biocombustiveis contribuem, mas não são a causa principal. Ninguém tem a estimativa certa de quanto incidem sobre os preços, nem mesmo o Banco Mundial", disse à BBC Brasil Jeff Tschirley, responsável pelo grupo de trabalho sobre bioenergia da agência.

A FAO já havia publicado alguns estudos que indicavam alguns dos fatores que desencadearam a crise, sem apontar um responsável principal.

Em um relatório, o Banco Mundial indica que os biocombustiveis teriam 65% de responsabilidade na atual crise alimentar. De acordo com Olivier Dubois, do grupo de estudos de bioenergia e mudança climática da FAO, os números variam muito. Segundo ele, há estudos que indicam que o grau de responsabilidade seria de 5%, enquanto outros apontam 30%.

"A questão ainda precisa ser estudada melhor. A FAO não tem dados médios sobre isso", disse Dubois em entrevista à BBC Brasil.

Na opinião dele, o mundo está enfrentando a maior demanda por produtos agrícolas observada em sete anos (entre 2000 e 2007).

"A demanda por bioetanol triplicou, enquanto a de biodisel aumentou em 11 vezes durante esse período. É claro que isso tem incidência muito grande no aumento da demanda geral, mas não há um vilão ou um bonzão", disse.

Fatores

Entre os fatores que provocaram a crise atual dos alimentos, a FAO aponta a nova demanda por produtos agrícolas como açúcar, milho, sementes oleosas e azeite de dendê, por conta do mercado emergente de biocombustíveis.

Antes usados apenas como alimento ou ração, esses produtos tornaram-se um dos principais motivos do aumento dos preços nos mercados mundiais. Nos Estados Unidos, por exemplo, o alto preço do milho em 2006 levou os agricultores a aumentarem a produção do grão em 2007, plantando menos trigo e soja - razão pelo aumento do preço desses cereais.

Os especialistas da organização destacam ainda outros fatores para o desencadeamento da crise. Entre eles, a agência ressalta o preço do petróleo, que encareceu fertilizantes e transportes; as mudanças climáticas, pois influenciaram produções agrícolas em países atingidos por secas ou inundações e o baixo nível de estoques, que contribuiu para o aumento nos preços no risco de especulações.

"As expectativas têm uma influência grande nos preços do mercado. As poucas reservas estimulam a especulação. E muitos produtores estocam produtos à espera do aumento de preços. Além disso, os grandes investidores apostam em commodities na falta de produtos mais rentáveis, influenciando os preços", disse à BBC Brasil Kostas Stamoulis, especialista em desenvolvimento econômico da FAO.

Na avaliação do economista, uma das características da crise atual é o "nervosismo extremo do mercado", provocado pelas baixas reservas de alimentos.

"Anúncios de bloqueios na exportação de alguns cereais podem interferir drasticamente nos preços de mercado. Por exemplo, quando o Cazaquistão bloqueou a exportaçao de trigo para garantir os estoques internos, o preço do cereal subiu 40% em apenas uma noite", disse Kostas.

Consumo

Outro fator que contribuiu para o aumento dos preços, segundo a FAO, é a mudança estrutural da demanda por alimentos.

"O aumento do consumo é uma mudança de longa duração, que acompanha o desenvolvimento econômico dos países e as transformações das dietas. Já a influência do preço do petróleo e da diminuição das reservas alimentares, acontece em tempos diferentes", afirmou Stamoulis.

Segundo os analistas, a relação entre esses diversos fatores determinou a crise alimentar atual.

Na avaliação de Cristina Amaral, coordenadora do programa de emergência alimentar da FAO, não há estudos científicos que expliquem de maneira certa o impacto de cada fator no preço dos produtos alimentares.

"A contribuição de cada uma das causas varia entre 2% até 40%, dependendo da estimativa", afirmou Amaral.

"O simples fato de existirem opiniões tão diferentes demonstra a dificuldade da situação. O mercado é extremamente complexo e não permite identificar claramente o peso de cada fator", disse a especialista à BBC Brasil.

Comentários dos leitores
Jose Carlos Zuanazzi (6) 07/10/2008 11h28
Jose Carlos Zuanazzi (6) 07/10/2008 11h28
É o preço que países como o Brasil, por ser excencialmente agricola, têm que pagar. Seus produtos são negociados no mercado de "commodites" onde só os fortes interesses conseguem manejá-lo sem opinião
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Leonardo S. (78) 07/10/2008 11h26
Leonardo S. (78) 07/10/2008 11h26
O povo tem que parar de fazer filho. O Brasil está atrasando em 100 anos sua entrada no 1o. mundo pq os pobres fazem 5 filhos por casal enquanto a classe média faz 1. Resultado: A juventude do Brasil não estuda. O pior é que o Estado faz de conta que não acontece nada.
A pobreza é um problema cultural, e é difícil o Estado resolver. É muito difícil mudar a cabeça de uma pessoa. Os pais não estudaram, os filhos não estudam e os netos também não vão estudar. Apenas uma pequeníssima parcela estuda e ascende socialmente.
Solução de longo prazo para o Brasil: Esterilização compulsória quando a mulher dá a luz ao segundo filho na rede pública de saúde e mutirões de vasectomia. Isso vai se refletir daqui 20 anos na segurança pública, nos índices de escolaridade, na diminuição da pressão sobre os serviços públicos (postos de saúde, creches).
Coragem pra dizer e fazer isso? Ninguém tem.
sem opinião
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micael carneiro (1) 25/09/2008 14h07
micael carneiro (1) 25/09/2008 14h07
As verdadeiras causas das mudanças climática são muitas dentre elas destaco : o consumismo que para atende-lo precisamos explorar cada vez mais isto é retirar sempre que a demanda o exigir; o grande crescimento da população que para sobreviver precisa cada vez mais de espaço e alimento e não havendo controle da natalidade acabaremos consumindo tudo como um gafanhoto; o petroléo é nossa pricipal fonte energetica e precisamos depender cada vez menos do petroléo e não adianta sair culpando os carteis do petroléo, pois nos é quem somos dependêntes, quero ver você poder ir trabalhar, viajar se locomover sem seu carro. Temos sim que encontrar outras fontes energeticas pouco poluentes porque não existe fontes de energia não poluentes, pois onde tiver a existência do ser humano haverá poluição. Somos a unica espécie que não esta em equilibrio, pois os animais alimentam-se uns dos outros, quer dizer que um morre para o outro sobreviver e na nossa espécie alimentamos de quase tudo e todos e não temos predadores. A unica forma de viver sem poluir é larga a mordomia da civilização mordena e vivermos como os indios, quem se habilita?
A culpa das mudanças climáticas são de todos e a unica forma de isso acabar é eliminando os seres humanos.
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