BBC Brasil
17/06/2008 - 09h40

Análise: O gigante verde

LUCAS MENDES
da BBC Brasil, em Nova York

O entusiasmo e a fantasia dos brasileiros por esta eleição norte-americana são surpreendentes. A notícia de que Al Gore seria o vice-presidente de Barack Obama veio há muito tempo de amigos, leitores da BBC e assinantes do GNT que assistem o Manhattan Connection.

O Brasil --e o mundo-- gostam de Al Gore, mas quando ele era senador e foi ao Rio para a ECO 92, já era campeão do meio ambiente, mas foi ignorado. Eu o encontrei sozinho na sala de imprensa em busca de um jornalista interessado em entrevistá-lo. Entrevistei e não teve a menor repercussão.

Quem quer o pior emprego do mundo pela segunda vez, depois de oito anos com os Clinton? Al Gore criou a reputação de político competente pela dedicação ao verde e pela integridade durante seus anos no Senado e na Casa Branca.

Não é famoso pela inteligência. Nem pela burrice, e outra vice-Presidência seria uma idiotice, uma marcha a ré na contramão. Se ele não quis disputar a Presidência em 2004, porque tentar ser vice em 2008?

Al Gore está com todo o gás do Nobel, o glamour do Oscar queima o mais puro oxigênio político e pode se dar ao luxo de participar ou não do governo Obama, numa posição formal ou, talvez, ele prefira, como um embaixador extraordinário para missões especiais.

O homem verde tem experiência em várias outras áreas internacionais. Al Gore foi contra a guerra antes de Barack Obama e pode atrair milhões de independentes preocupados com o meio ambiente.

Muito antes do endosso de segunda-feira à noite, em Michigan, um dos Estados cruciais que ele ganhou em 2000, Obama prometia a Al Gore uma cadeira na cabeceira do ministério.

A aproximação de Al Gore com Barack Obama nesta altura da campanha é uma forte indicação que Hillary Clinton está fora da lista dos possíveis vices. Embora a senadora possa trazer mais votos para Barack do que qualquer outro vice, ele e Hillary não se bicam.

Al Gore está lá em cima na lista de candidatos a melhor vice-Presidência da história. Apesar da imensa sombra e das manchas de Bill Clinton, ele nunca foi contaminado e provavelmente perdeu a eleição porque se distanciou do presidente durante a campanha de 2000, mas hoje esta é uma especulação acadêmica.

Vice-presidente dos Estados Unidos já foi chamado de pior emprego do mundo pela impotência do cargo, mas Dick Cheney é serio candidato a pior vice-presidente da história porque foi um dos mais poderosos senão o mais poderoso e é responsabilizado pela maioria dos erros de George W. Bush.

Neste momento, o posto de pior vice é ocupado por Richard M. Johnson, vice de Martin van Buren. Ele era um dono de escravos que se elegeu com uma história falsa de herói que matou um índio, casou --não no papel-- com uma escrava que herdou do pai e quando ela morreu casou com outra escrava que fugiu dele.

Johnson perseguiu a mulher ate prendê-la e vendê-la e casou com a irmã, também escrava. E tentou apresentá-la à sociedade de Washington.

Johnson quis convencer o Congresso a aprovar uma expedição ao Pólo Norte porque acreditava que a terra era oca e lá em cima encontraria a porta para uma civilização muito melhor e feliz, como a do visionário Al Gore.

Teria sido uma expedição inútil, mas menos conseqüente, política e economicamente mais barata do que a expedição de Bush/Cheney ao Iraque. Os absurdos de Johnson foram tão extraordinários que me enveredei pela
história dele e perdi Al Gore.

Não sei quais serão as expedições dele se Obama for presidente, mas o gigante verde não vai buscar um mundo melhor pelo caminho da vice-Presidência.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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