Doha: Disputa entre emergentes "não afeta Brasil no longo prazo"
da BBC Brasil
A disputa entre os países do G20 em relação à proposta apresentada pelo diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) na Rodada Doha não deverá afetar o Brasil no longo prazo, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.
A proposta, apresentada na última sexta-feira por Pascal Lamy, foi aceita pelo Brasil, enquanto recebeu críticas de países como Argentina e Índia.
"Não se pode falar em ruptura definitiva (no G20)", diz Rabih Nasser, professor de direito internacional do GV Law, da Fundação Getúlio Vargas.
Segundo Nasser, esses países do G20 "se beneficiam da liderança que o Brasil teve" e não devem abandonar o grupo.
"Todo mundo tem consciência de que o G20 traz benefícios para todos", diz Nasser.
Em relação ao Mercosul, Nasser também afirma que as divergências em torno da Rodada Doha não terão efeitos de longo prazo.
"É improvável. São poucos os países se sentindo contrariados. Argentina e talvez Venezuela", afirma.
"Há interesses maiores em jogo. Não é de interesse de nenhum país do Mercosul causar esfacelamento", diz Nasser.
"Todos dependem do Brasil, a começar pela Argentina."
A imprensa argentina chegou a dizer que os países do Mercosul entenderam como "traição" o apoio brasileiro à proposta.
A Índia critica especialmente os parâmetros estabelecidos para a aplicação do mecanismo de salvaguarda especial para a agricultura.
Proposta
Segundo os analistas ouvidos pela BBC Brasil, a proposta aceita pelo Brasil era a possível dentro do contexto das negociações.
"Todo mundo queria mais, mas nesse contexto isso é o que foi obtido", afirma Ricardo Caldas, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).
"Divergências sempre vão existir. O objetivo é obter um consenso mínimo. Para isso, todos têm que ceder", diz Caldas.
Ele afirma que o objetivo do Brasil "não é ter a liderança do G20, e sim ter resultado nas negociações comerciais".
Segundo Caldas, "o G20 é uma estratégia para obter esses resultados".
O diretor-geral do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais), André Nassar, afirma que a ruptura ocorre do lado argentino e indiano, não por parte do Brasil.
"O Brasil está fazendo o que tinha que fazer", diz Nassar.
O professor Rabih Nasser, do GV Law, afirma que "os outros países é que estão com posições um pouco extremadas".
"O Brasil viu que seus interesses estavam atendidos dentro do nível de ambição que se pode esperar a essa altura", afirma Nasser.
"Não impede que se tente acomodar as necessidades dos outros países", diz.
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