BBC Brasil
28/07/2008 - 23h51

Rodada Doha "ainda está por um fio", diz Celso Amorim

MÁRCIA BIZZOTTO
da BBC Brasil, em Genebra

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deixou a sede da OMC (Organização Mundial do Comércio) na madrugada desta terça-feira afirmando que as negociações da Rodada Doha "ainda estão por um fio", depois de passar mais de doze horas reunido com os outros seis principais países no processo (Índia, China, Estados Unidos, União Européia, Japão e Austrália).

"Estamos ainda procurando uma solução. Não encontramos, tenho que ser franco. Algumas idéias foram apresentadas e não foram rejeitadas, mas também não foram aceitas", resumiu Amorim ao final da jornada, às 2h da madrugada (horário de Genebra).

O ponto crucial continua sendo a existência de interesses opostos em relação a um mecanismo de salvaguarda que permitiria aos países em desenvolvimento subir tarifas aduaneiras para se proteger de um surto de importações que possa prejudicar sua segurança alimentar.

Índia, China e outros 80 países com economias consideradas vulneráveis condicionam sua adesão ao acordo a que sejam melhorados os parâmetros para a aplicação dessa medida, rejeitada por Paraguai, Uruguai e outros países cujas economias dependem das exportações de alguns poucos produtos agrícolas.

Tensão

"A situação é muito tensa e um resultado não está, de forma nenhuma, garantido", informou o porta-voz da OMC, Keith Rockwell, à meia-noite, horário de Genebra.

Nesse momento, os ministros do G7 iniciavam uma nova reunião para tentar resolver o impasse junto ao diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, que passou a tarde reunindo-se privadamente com os mais insatisfeitos.

"Durante o dia de hoje houve uma variedade de propostas, sugestões, fórmulas, trazidas por altos funcionários, ministros, embaixadores, todos tentando encontrar uma saída para essa questão", comentou Rockwell.

O Brasil tentou mediar o conflito propondo que os sócios da OMC busquem uma solução "neutra" que permita flexibilizar as posições de seus aliados no G20 sem ter que mudar os pontos já definidos no pacote de Lamy.

Mudanças

Ao sair para uma pausa nas discussões, o ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, acusado de intransigência pelos Estados Unidos, afirmou aos jornalistas que está disposto a aceitar uma nova proposta apresentada pelo diretor-geral da OMC que melhoraria as condições para a aplicação do mecanismo de salvaguarda.

Mas um diplomata envolvido nas negociações afirma que Estados Unidos se opõem à mudança.

Segundo o mesmo diplomata, o novo papel oferece condições flexíveis para que os países decidam quando aplicar as salvaguardas.

A proposta anteriormente rejeitada por Índia, China e outros cerca de 80 países pobres determinava que a medida de proteção só poderia ser acionada quando as importações de alimentos subissem 40%.

Ao deixar a sede da OMC, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, mal-humorado, afirmou que "o show continua".

O G7 volta a se reunir na terça-feira ainda na tentativa conciliar as posições sobre o mecanismo de salvaguarda, mas também com a missão de resolver os outros pontos ainda pendentes, como a questão dos subsídios americanos aos produtores de algodão.

Comentários dos leitores
JT Hiroyuki (9) 20/08/2008 08h46
JT Hiroyuki (9) 20/08/2008 08h46
Infelizmente nosso Ministro de Relações Exteriores deixa a desejar quando o assunto é defender nosso país. 31 opiniões
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Danny Yazbek (180) 19/08/2008 22h02
Danny Yazbek (180) 19/08/2008 22h02
Neste mes, ocorrida a posse do novo Presidente do Paraguai, eleito com discurso populista Anti-Brasil, especificamente voltado ao aumento de tarifas de energia produzida pela Usina Itaipu, será mais uma pedra no sapato do Ministério das Relações Exteriores, e a julgar pelo mau desempenho do Ministro na Rodada Doha, certamente irá abaixar a cabeça mais uma vez, assim como fez com a Bolívia, a Venezuela e etc...
Celso Amorin tá mau hein? Pede pra sair!
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Bernardo Fonseca Mendes (25) 31/07/2008 13h32
Bernardo Fonseca Mendes (25) 31/07/2008 13h32
Lamentável a posição do Brasil nas negociações. O "gigante" da América Latina cede facilmente aos interesses dos EUA e da U.E.
Nisso pelo menos a Argentina, mesmo com mil problemas, está mil anos na nossa frente.
Comparem a história da política externa brasileira com a da Argentina. Eles sempre foram mais resistentes, enquanto nós, ou melhor, nossas elites, sempre mais vendidas.
Vocês já leram "Germinal", de Émile Zola, escrito na efervescência econômica e social francesa?Pois bem, o patrão tentava negociar com os trabalhadores seus salários. Sempre na posição do mais forte, tentava justificar que "sua posição" era benéfica para o mundo dos negócios. Era melhor os trabalhadores aceitarem as propostas ao perder o emprego.
No meio dos trabalhadores havia um líder, esperto e forte. O patrão, assim q percebeu q o líder era uma ameaça passou a cooptá-lo. O líder virou capataz em troca de merrecas e tentava convencer os colegas era melhor ceder do que lutar.
O Brasil faz a mesma coisa. Engana os países vizinhos, pois sabe que ele, por ser o mais forte da região, será o menos prejudicado. Da mesma forma, se vende com facilidade aos interesses dos EUA, na tentativa de ganhar algo com isso. [2]
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