BBC Brasil
10/08/2008 - 19h23

Cessar-fogo da Geórgia não detém ataques russos

da BBC Brasil

A Rússia continuou a realizar ataques aéreos contra a Geórgia, acusando o governo georgiano de ainda manter operações militares na Ossétia do Sul e rejeitando um anúncio de cessar-fogo proposto neste domingo.

A aviação russa bombardeou alvos próximos da capital do país, Tbilisi, incluindo o aeroporto, horas antes da chegada dos chanceleres francês e finlandês, Bernard Kouchner e Alexander Stubb, respectivamente, em missão de paz.

Enquanto isso, russos e americanos medem forças no Conselho de Segurança da ONU pelo quarto dia seguido, sem que o grupo de países tenha chegado a uma declaração sobre o conflito.

Arte/Folha Online

Neste domingo, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, declarou cessar-fogo e propôs o início das negociações com a Rússia para pôr fim à violência na Ossétia do Sul, que quer independência da nação georgiana e tem o apoio de Moscou.

Entretanto, a Rússia rejeitou o cessar-fogo, afirmando que tropas da Geórgia continuavam na província separatista.

Moscou acusa o governo georgiano de praticar violência contra seu próprio povo e contra cidadãos russos na luta contra o separatismo --uma polêmica que levou à intervenção armada na sexta-feira.

No domingo à noite, ao menos três explosões foram escutadas nos arredores da capital georgiana, Tbilisi. O governo georgiano diz que a aviação russa bombardeou pela segunda vez no mesmo dia uma fábrica de aviões e uma base militar próximos à capital.

Um navio georgiano também foi afundado no mar Negro --segundo a Rússia, porque teria ignorado tiros de alerta quando navegava em direção à Marinha russa com outras quatro embarcações.

O Exército georgiano diz também que a aviação russa bombardeou a cidade de Zugdidi e um território dentro da Abkházia, outra região separatista da Geórgia, informou a correspondente da BBC Natalia Antelava.

A Geórgia acusa a Rússia de enviar 4 mil soldados para a Abkházia através do mar Negro. Já os separatistas da Província rebelde dizem que a Geórgia enviou número igual de soldados para a divisa.

Imagem "confusa"

Segundo o repórter da BBC Gabriel Gatehouse, as informações que circularam no domingo dão apenas uma "imagem confusa" do dia. Em uma estreita faixa de território entre a capital da Ossétia do Sul, Tskinvali, e a fronteira com a Rússia, pequenos grupos de soldados georgianos combateram soldados russos, disse.

Mas há relatos de que os confrontos dentro da Ossétia do Sul estão menos intensos, desde que tropas da Geórgia iniciaram a retirada e o controle virou para as tropas russas. Moradores que deixavam a capital da região separatista, Tskhinvali, disseram à BBC que a cidade está relativamente quieta.

Musa Sadulayev/AP
Coluna de tanques russos segue em direção a Dzhava, na Ossétia do Sul; EUA acusam Rússia de querer derrubar governo da Geórgia
Coluna de tanques russos segue em direção a Dzhava, na Ossétia do Sul; EUA acusam Rússia de querer derrubar governo da Geórgia

O repórter da BBC Richard Galpin descreveu, entretanto, um sentimento de pânico na cidade georgiana de Gori, próxima à divisa com a Ossétia do Sul, em meio a temores de que tropas russas marchem em direção ao vilarejo. O repórter havia sido aconselhado pelo Ministério do Interior a deixar Gori --mas encontrou a estrada para Tbilisi repleta de carros cheios de civis que fogem da zona de conflito. Ainda não há estatísticas confiáveis de quantos morreram.

A Acnur, agência de refugiados da ONU, estima que entre 10 mil e 20 mil pessoas já foram deslocadas dentro da Geórgia, incluindo a Ossétia do Sul, enquanto a Rússia diz que outras 30 mil pessoas já cruzaram a fronteira para a Ossétia do Norte, no lado russo.

A Acnur e agências humanitárias pedem que as partes em conflito criem um corredor para a passagem de civis que querem deixar a zona em conflito.

Um porta-voz da Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) em Tbisili afirmou por telefone à BBC que dois corredores devem ser criados entre a capital da Ossétia do Sul e o sul do país, como parte de um plano de cessar-fogo que será discutido pelos ministros francês e finlandês. "Agora, o problema é que não há presença internacional naquelas áreas, de forma que os russos vão administrar a evacuação de civis. Precisamos ver quão eficiente será isto", afirmou.

Diplomacia

Enquanto isso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se encontra pelo quarto dia neste domingo para discutir o tema. Até agora, o grupo de nações --que inclui a Rússia como membro permanente com poder de veto-- fracassou em chegar a um acordo sobre como pedir um cessar-fogo.

O embaixador americano na ONU, Zalmay Khalilzad, disse ao Conselho de Segurança que a Rússia está deliberadamente tentando evitar um cessar-fogo para forçar uma "mudança de regime" na Geórgia.

"A Rússia afirma que essas operações militares tinham como fim proteger seus soldados em missão de paz e a população civil da Ossétia do Sul. Entretanto, a reação vai muito além de qualquer medida razoável necessária. A escalada do conflito é a causa imediata da elevação das perdas de vidas inocentes", afirmou.

O embaixador americano relatou ainda uma suposta conversa com o ministro do Exterior russo, Vitaly Churkin, que teria dito que o presidente georgiano Saakashvili "deveria sair". O embaixador americano teria então perguntado a Churkin se o objetivo da Rússia é "mudar a liderança da Geórgia". Sem responder diretamente à pergunta, o representante de Moscou teria afirmado que havia líderes que haviam "se tornado um obstáculo".

Os Estados Unidos estão preparando uma declaração condenando a Rússia, que deve ser vetada por Moscou.

 

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