BBC Brasil
18/08/2008 - 10h37

Análise: Saída de Musharraf sinaliza mudança na guerra ao terror

PAUL REYNOLDS
da BBC

A renúncia do presidente paquistanês, Pervez Musharraf, é um sinal de como a chamada "guerra contra o terror" está mudando.

Musharraf já foi considerado o pilar da aliança paquistanesa com os Estados Unidos. Agora, estão contados os dias em que apenas um homem é capaz de estabelecer e executar políticas no governo no Paquistão.

O país começa a apostar mais na emergência de instituições democráticas para oferecer uma alternativa ao extremismo.

Arte Folha Online
mapa da região do Paquistão

Logo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o presidente americano, George W. Bush, estabeleceu frentes de batalha, e o presidente Musharraf se posicionou para ocupar a linha de frente.

Mas hoje a Al Qaeda é vista como uma organização enfraquecida --na defensiva no Iraque e incapaz de se reorganizar no Afeganistão-- apesar de manter a ambição e o potencial para causar danos reais.

Em uma situação como essa, há menos necessidade de apelos contra o extremismo e mais necessidade de construir governos representativos, tanto no Iraque como, agora, no Paquistão.

Isto explica, em parte, por que para os Estados Unidos e o Reino Unido a saída do ex-aliado importa menos do que no passado. A época de Musharraf veio e passou.

Mudança de liderança

A "guerra contra o terror" está provando ser um conflito de seu tempo, semelhante talvez à Guerra Fria, que viu o comunismo no poder na Rússia, metade da Europa e na China por 50 anos antes de o regime acabar ou mudar significativamente.

Naquele tempo, as democracias ocidentais adotaram uma abordagem dupla --mantinham um forte poder militar de dissuasão, enquanto desenvolviam governos mais dinâmicos.

As mesmas táticas são observadas agora, à medida que a guerra contra o terror segue adiante.

No lugar de Musharraf entra uma liderança civil, embora em um governo de coalizão instável, cujo futuro é incerto e cuja capacidade de combater o extremismo em áreas tribais ainda não foi testada. Ainda não se sabe quem será o próximo presidente.

Mas a coalizão foi produto de eleições, não de um golpe, e portanto está sendo protegida por Washington e Londres como uma base mais sólida para a ação futura, em detrimento do enfraquecido Musharraf.

Segundo os Estados Unidos e o Reino Unido, é das áreas tribais paquistanesas que os integrantes do Taleban saem para lutar no Afeganistão, onde representam um perigo real às forças da Otan que apóiam o presidente Hamid Karzai.

A ligação representa uma grande razão para que os Estados Unidos e o Reino Unido acompanhem --e tentem influenciar-- os eventos no Paquistão tão de perto.

O papel dos militares

Mas muito dependerá, como sempre no Paquistão, dos militares. O chefe do Exército, general Ashfaq Kayani, se colocou ao lado da liderança civil e, há pouco tempo, demonstrou suas intenções reposicionando comandantes apontados por Musharraf.

O Exército ainda tem uma grande tarefa nas regiões fronteiriças. O Paquistão continua no coração de uma região que preocupa grande parte do mundo.

Entretanto, previsões alarmantes de que o país, que possui armas nucleares, cairia nas mãos de fundamentalistas islâmicos não se materializaram.

 

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