BBC Brasil
17/09/2008 - 12h04

Muçulmanos criticam "comercialização excessiva" do Ramadã

RODRIGO DURÃO COELHO
da BBC, no Cairo

A maioria dos muçulmanos em quatro países árabes diz acreditar que o mês sagrado do Ramadã está se tornando um feriado "muito comercial", de acordo com uma nova pesquisa realizada pela empresa Maktoob Research.

Dos 6.128 entrevistados no Egito, no Marrocos, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, 67% disseram perceber uma comercialização em excesso do Ramadã.

"À medida que restaurantes e hotéis da região anunciam suas promoções especiais de iftar (a primeira refeição, após um dia inteiro de jejum), uma grande maioria sente que o Ramadã se tornou muito comercial", afirma o estudo.

Durante os 28 dias do nono mês do calendário lunar, os muçulmanos têm que praticar a abstinência absoluta de líqüidos, comida, fumaça e sexo, do nascer até o pôr-do-sol (mais ou menos das 5h30 às 18h nesta época do ano).

Calor

O estudo indica que a grande maioria das populações nos países pesquisados respeita os preceitos do Ramadã: 96% afirmaram estar observando o jejum e 89% disseram acreditar que o Ramadã é um exercício anual de autocontrole e disciplina.

As demandas do Ramadã, especialmente a proibição de beber água, estão particularmente difíceis neste ano em que o mês sagrado começou no início de setembro (com poucos dias de diferença entre alguns países), época em que as temperaturas permanecem altas, freqüentemente beirando os 40ºC.

Muitos optam por dormir durante o dia, mas - para quem não tem essa opção - cumprir as obrigações normais como trabalhar fica mais difícil.

"A última refeição antes do jejum, o suhour, é feita pouco antes das quatro da manhã", diz a faxineira egípcia Sihen, de 28 anos de idade, que afirma jejuar desde os oito anos. "Geralmente, não consigo dormir depois de comer e fico acordada direto."

Festa

A maioria dos entrevistados (71%) disse que, durante o Ramadã, sente que existe um sentimento maior de solidariedade e comunidade.

De acordo com a pesquisa, 83% afirmaram estar mais propensos a oferecer dinheiro para familiares e amigos como gesto de boa vontade.

São comuns também os banquetes depois do pôr-do-sol, sejam particulares ou públicos. Estes últimos são realizados nas ruas, patrocinados por lojistas e abertos a todos.

"É uma época boa, de disciplina e festa", afirma a estudante egípcia Muna, de 25 anos. "O Ramadã está mais moderno, com mais produtos, mas não creio que tenha mudado em sua essência desde que eu era criança."

A pesquisa confirma o alto grau de religiosidade dos países árabes, com 74% dos entrevistados dizendo que, durante o Ramadã, passam seu tempo livre lendo o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Segundo a tradição islâmica, o Ramadã marca o início da revelação do Alcorão para o profeta Maomé, no ano 610, pelo anjo Gabriel.

A religião considera os cerca de 28 dias do Ramadã um período abençoado em que "as portas do Paraíso estão escancaradas, e a entrada do inferno, fechada; os demônios estão todos fora de ação, e os anjos de Deus descem à Terra; e qualquer boa ação tem o peso multiplicado na contabilidade celeste do fiel".

 

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