Chefe da polícia de Londres tentou impedir inquérito, diz 'Guardian'
da BBC BrasilO caso do eletricista Jean Charles de Menezes continua sendo destaque em todos os principais jornais do Reino Unido, que dizem que as últimas revelações aumentam a pressão sobre o chefe da polícia de Londres, Ian Blair.
A principal manchete do jornal "The Guardian" nesta quinta-feira é "chefe da polícia tentou evitar inquérito sobre a morte", afirmando que Blair tentou impedir que a ação policial que culminou com a morte de Jean de Menezes fosse investigada por um órgão independente.
Segundo o jornal, Blair escreveu para o Ministério do Interior no dia da morte do eletricista pedindo que ela fosse investigada internamente, já que as investigações sobre terrorismo teriam precedência sobre as investigações de qualquer morte. Toda vez que alguém é morto pela polícia britânica, um inquérito independente é aberto para apurar o ocorrido.
Ainda segundo o jornal, a polícia impediu que investigadores da comissão independente visitassem a estação de metrô de Stockwell --onde o brasileiro foi morto-- por três dias, quando normalmente eles teriam acesso ao local horas depois do incidente.
"Prenda-o vivo"
O "Daily Mirror" traz reportagem exclusiva, afirmando que a oficial da polícia responsável pela ação teria ordenado aos agentes que prendessem o brasileiro vivo e não o deixassem entrar na estação.
O "Daily Mirror" afirma que uma fonte da polícia disse ao jornal que "não há dúvidas de que a comandante (...) não instruiu ninguém a atirar em Menezes. Os policiais armados estavam no local apenas por precaução".
"Parece que os agentes envolvidos na ação não tiveram tempo de dizer a eles que era apenas para prender o homem, não para matá-lo", teria dito a fonte, mantida anônima pelo "Mirror".
Também segundo o jornal, "altos representantes do governo já deram sinais de que o chefe da polícia, Ian Blair, pode ser demitido".
Incompetência
Com editorial intitulado "incompetência, cinismo e tentativa de enganar", o diário "The Independent" critica duramente a ação policial no dia da morte de Jean Charles de Menezes, e nos dias em que se seguiram, tentando enganar o público.
"Os documentos vazados mostram que esta foi uma desastrosa operação, mal cumprida do começo ao fim: desde os erros da equipe de observação, que não filmou Jean de Menezes quando ele deixou seu apartamento, até o atraso do esquadrão armado, que não conseguiu prendê-lo antes que ele entrasse no trem."
"O que vemos aqui não é apenas um catastrófico exemplo da incompetência da polícia, mas um esforço aparentemente calculado e cínico por parte da polícia para disfarçá-lo", diz o "The Independent".
Na mesma linha, o "Daily Mirror" pergunta se houve uma tentativa da polícia em esconder as circunstâncias, e afirma que a pressão está aumentando sobre o comandante Ian Blair para que deixe o cargo.
Perguntas
Em editorial, o "Daily Telegraph" também comenta a pressão sobre Ian Blair e afirma que "a morte deste inocente eletricista brasileiro levanta duas preocupações distintas: a primeira, sobre a própria operação; a segunda, a resposta de Ian Blair à tragédia".
O jornal afirma que não é justo o pedido da família para que os policiais que mataram Jean de Menezes sejam julgados já que eles não tomaram parte na investigação, apenas chegaram ao metrô onde o "alvo" deles foi apontado.
Mas o "Daily Telegraph" afirma que "os documentos vazados sugerem que a polícia não fez nada para corrigir os relatos chocantemente errados que circularam por longo tempo mesmo depois de terem sido desmentidos pelas imagens das câmeras de segurança".
Também em editorial, o jornal "The Times" afirma que a política de "atirar para matar" da polícia britânica terá que ser muito bem revista depois da morte de Jean de Menezes.
Para o jornal, as bases para que a política seja aplicada têm que incluir salvaguardas, pois a morte de Jean de Menezes mostrou que inocentes podem ser mortos facilmente.
"... é necessária uma revisão transparente da polícia. Ter tantos cidadãos ordinários questionando a confiança da polícia já é, por si só, uma tragédia", diz o "Times".
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