BBC Brasil
14/10/2008 - 07h26

Análise: McCainaíma

LUCAS MENDES
da BBC, em Nova York

A três semanas das eleições, o índice McCain vai de 8 a 11 negativos e perde nos seis dos seis Estados mais cruciais: Colorado, Ohio, Flórida, Virgínia, Nevada e Missouri. Em alguns deles, como Flórida e Ohio, os números não são confiáveis, mas o senador joga na ofensiva. Em um comício, ele usou 11 vezes a palavra "luta".

As dúvidas sobre a campanha dele crescem entre os próprios republicanos. Uns querem que McCain vá na jugular de Obama e explore suas conexões com o pastor Wright, o ex-terrorista Ayers e o escroque Tony Resko, mas nas pesquisas com os eleitores independentes que podem decidir a eleição, cada vez que McCain ataca, os números caem.

Quem acompanha os comícios no dia-a-dia vê McCainaíma. O McCain de hoje é diferente do McCain de ontem. Na semana passada o senador, a própria mulher e a governadora Sarah Palin atacavam o caráter de Obama. Os comícios ferveram. Quando seus partidários escalaram os insultos e gritaram "terrorista, Obama Osama, kill him", o republicano percebeu que tinha de conter sua torcida. Tirou o microfone de uma mulher que chamou Obama de árabe e disse que o democrata era um americano decente de quem ele divergia profundamente em questões políticas.

Num dia ele anunciou que ia suspender a campanha --não suspendeu-- para resolver a crise econômica em Washington, mas ontem criticava o pacote de US$ 700 bilhões que ele ajudou a aprovar. Cada dia surge uma mini-proposta para proteger um grupo nesta crise, mas os americanos, ricos e pobres, estão confusos e perdidos diante de tantas idéias. Enquanto os ingleses já emitem cheques para salvar os bancos, nós aqui não sabemos quem vai ver a cor do nosso dinheiro.

A maior das McCainaímas foi Sarah Palin. Se não interessa mudar de cor nem é possível mudar de idade, mude de sexo. No começo funcionou. McPalin liderou nas pesquisas depois da convenção e seus comícios que não atraíam mais do que 2.000, 3.000 pessoas, passaram atrair mais de 15 mil, eufóricos, cheios de energia. Parecia jogada de gênio até Sarah Palin ser "educada" pelos assessores e começar a confundir as respostas com uma linguagem que confundiria Macunaíma. Onde está o verbo?

Não há mágica capaz de durar tempo suficiente para enganar o desempregado, ameaçar o empregado, o casal que perde ou pode perder a casa, os aposentados e quase aposentados que vêem a poupança evaporar em menos de duas semanas. Sarah Palin virou a melhor comédia do país. É uma tragédia.

A investigação de uma comissão independente da câmara estadual do Alasca concluiu que ela não violou a lei quando perseguiu um cunhado e demitiu um assessor, mas concluiu também que a governadora violou a ética.

Revelou-se uma pessoa vingativa, capaz de usar o poder em questões domésticas mesquinhas.

No apodrecimento da economia, McCain ficou cada vez mais parecido com George Bush, mais republicano, mais Washington.

Obama ficou na dele. Distorce números, promete mundos e fundos, mas dá a impressão que faz uma campanha mais limpa e é o verdadeiro anti-establishment. Não tem currículo político, mas seduz pelo potencial. A Presidência já é dele?

Ainda não. Embora a história mostre que é quase impossível reverter números como os atuais a três semanas da eleição, um erro grave, uma visita de Osama ou mesmo uma mudança radical de McCain na campanha podem alterar o cenário. Alguns republicanos de peso, como William Kristol, querem que McCain se livre dos marqueteiros e comece uma nova campanha, sem respostas instantâneas pela televisão e pela internet, sem comerciais, --não estão funcionando-- dê acesso total à imprensa e faça campanha como o guerreiro velho e otimista. Deixem McCain ser McCain. Sarah Palin deveria fazer o mesmo.

Durante as primárias, o velho McCain, quase sozinho e sem dinheiro, mostrou que é possível renascer das cinzas. O McCainaíma veio depois. Qual deles virá ao último debate da campanha nesta quarta-feira?

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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