BBC Brasil
15/10/2008 - 07h23

Análise: Cor firme e o defeito Bradley

LUCAS MENDES
da BBC, em Nova York

Barack Obama, com oito pontos na frente de John McCain (pela pesquisa do "Times"/CBS de terça-feira a margem é de 14 pontos) agora enfrenta o efeito Bradley: eleitores mentem nas pesquisas e na hora H não votam em candidatos negros.

O nome vem de uma eleição em 1982 para governador da Califórnia. O prefeito negro, Tom Bradley, de Los Angeles, era favorito nas pesquisas mais ou menos com a mesma margem que Obama tem hoje. E perdeu.

O mesmo efeito foi usado para explicar derrotas de Harold Washington na campanha para prefeito de Chicago em 83, do prefeito David Dinkins em Nova York em 89, e Douglas Wilder na disputa para governador da Virgínia no mesmo ano.

Alex Brandon/Carlos Barria /AP/Reuters
O senador democrata Barack Obama aparece com vantagem sobre o colega republicano John McCain na corrida à Presidência dos EUA
O senador democrata Barack Obama aparece com vantagem sobre o colega republicano John McCain na corrida à Presidência dos EUA

Preste atenção nos discursos desta campanha, de democratas e republicanos, e não vai encontrar nenhum vestígio de racismo. As referências à raça aparecem entre poucos eleitores que dizem que não votarão num candidato negro.

Apesar da falta de referência à raça nesta campanha, alguns estudos colocam o efeito Bradley em 6% --um número suficiente para neutralizar a margem de vantagem de Obama em algumas pesquisas.

Outros estudos reduzem o efeito Bradley a zero e outros vêem até um voto branco pró-negro por causa da cor porque a Presidência de Obama poderia contribuir para extinção do racismo no país.

Os estudos têm explicações minuciosas. Uma delas, talvez a mais interessante, é que os eleitores não dizem a verdade sobre raça nas pesquisas. Se o entrevistador é negro, a tendência do entrevistado é responder a favor do candidato negro.

Quando o entrevistador é branco, eleitores negros e brancos tendem a favorecer o branco. Há os relutantes que, em geral, são mais conservadores, menos educados e favorecem o candidato branco. Os jovens, mais abertos e mais educados, nesta eleição, independente da cor do entrevistador, favorecem Obama.

Um grande número de pesquisas hoje é conduzido por telefone. Algumas delas confirmam a tese, outras desmentem. Estamos na estaca zero, mas o efeito Bradley hoje pode ser chamado de defeito Bradley, conseqüência de pesquisas mal feitas.

Há alguns números inegáveis. Quase 100% dos negros vão votar em Obama. Entre os brancos, as pesquisas mostram de 47% a 48%. Com este números, Obama está eleito.

Ou não está? Há o crescente efeito ACORN --Association of Community Organizations for Reform Now--, um organização criada para registrar eleitores.

Quando era líder comunitário em Chicago, Barack Obama trabalhou com a ACORN para dar títulos a 150 mil eleitores. Esta mobilização explica a vitória da candidata Carol Mosley Braun, a primeira negra eleita para o senado americano.

A diretora da organização confirmou que neste ano já registraram 1,3 milhão de eleitores. Os republicanos não chegaram nem perto, mas acusam a campanha de fraude e a ACORN está sendo investigada em 13 Estados. Um deles é Ohio, onde um eleitor admite que recebeu dinheiro e se registrou mais de 70 vezes com diferentes nomes e documentos.

Nos Estados investigados, se as vitórias democratas forem apertadas, os processos irão de município a município e poderão arrastar os resultados ninguém sabe até quando.

A ACORN é um dos alvos favoritos dos conservadores e a organização é declaradamente pró-Obama. Uma de suas afiliadas, Citizens Services Inc. recebeu US$ 832 mil da campanha do democrata.

Há outros fatos que contrariam o efeito Bradley e o voto racista. Em 2001, só 16% de políticos negros representavam municípios com maioria branca. Hoje, dos 622 deputados estaduais negros, 30% representam municípios com maiorias brancas.

Não sei qual a percentagem de deputados negros nas assembléias estaduais brasileiras, mas desconfio que a percentagem seja bem mais baixa.

Tenho uma história de Minas que não envolve político, mas é boa. Na década de 60, um membro de uma família conservadora se mudou para o Rio e ficou muito rico.

Velho, arranjou uma enfermeira negra e se casou com ela. Parentes aflitos procuram o decano da família, irmão do ricaço, para informar sobre o casamento com uma enfermeira. O decano não se comoveu.

"E ela é preta", reforçaram. "Bom", respondeu o decano. "Cor firme". A história mineira, verdadeira, não tem nada a ver com a eleição nos Estados Unidos de 2008, mas se Obama perder, pode ter certeza, não vai ser pela cor.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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