BBC Brasil
21/10/2008 - 08h31

Análise: Che Obama, o socialista (pós-árabe, terrorista, etc.)

LUCAS MENDES
da BBC, em Columbus, Ohio

O socialista Barack Obama estava em gestação. Já tinha aparecido em livros --Obama Nation-- textos e ensaios de conservadores radicais.

As conexões de Obama com o ex-terrorista Bill Ayers foram exploradas sem muito sucesso por McCain num debate e nos comícios do candidato republicano. Não vingou, e ele caiu nas pesquisas, mas nos últimos dias a margem entre os dois diminuiu.

Obama, o socialista, estava incubado na campanha republicana há muito tempo, porque Obama vem prometendo acabar com os cortes dos impostos criados pelo presidente Bush, que beneficiam os ricos. Mas seria estranho, de um dia para outro, acusar o democrata de socialista por uma promessa que vem fazendo há meses.

O Obama "socialista" nasceu em Ohio. Num subúrbio perto da cidade de Toledo, um encanador que se identificou como Joe perguntou a Obama se iria ser vítima dos impostos do candidato se comprasse uma pequena empresa. Obama explicou que só aqueles que ganham mais de US$ 250 mil por ano, de 3% a 4% da população, iriam pagar mais impostos. Nesta resposta ele usou a expressão "spread the wealth", esparramar a riqueza. Eis Obama, o socialista europeu.

O senador McCain se referiu 26 vezes ao encanador Joe no último debate e a expressão "spread the wealth" agora é a frase quente dos comícios. Os partidários repetem em coro. McCain até agora não chamou Obama de socialista, mas a vice, Sarah Palin, não perde uma oportunidade, embora o maior socialista do país neste momento seja o presidente George W. Bush, com sua intervenção nos bancos, instituições financeiras e casas hipotecárias.

Em Columbus, Ohio, entrevistei Tim Burga, diretor-executivo do sindicato AFL-CIO, o maior do Estado. Tem 1,2 milhão de afiliados e, incluindo parentes e aposentados, são mais de 2 milhões de eleitores. O sindicato está a todo vapor pró-Obama.

Perguntei se Obama, o socialista, pode assustar o eleitorado. "Pode", disse Burga. "Qualquer mentira, repetida milhões de vezes, acaba deixando uma marca".

Vai ser decisivo na eleição? "Duvido. Nossa preocupação número um é emprego. Ohio esta em recessão há 28 anos --desde os tempos de Ronald Regan-- e se aprofundou com os acordos comerciais de Clinton e Bush."

"Um empregado de uma fábrica de potes de café da Sunbeam ganhava US$ 21 por hora mais benefícios sociais. De um dia para outro, a fábrica foi para o México, onde os empregados ganhavam US$ 2 por hora. Na China fazem os potes por 47 centavos a hora. Ninguém abre mais fábricas em Ohio. Hoje nossos empregados trabalham para Wall Mart e outros serviços por menos de US$ 10 a hora, com nenhum ou benefícios mínimos."

A máquina do sindicato tem retorno rápido dos afiliados e o socialista ainda não comoveu o eleitorado. A questão racial, num Estado com 12% de negros, é mais complicada. "A maioria dos nossos afiliados nunca votou num negro para nada, mas hoje a questão racial é discutida abertamente nas reuniões do sindicato. Nosso argumento é simples: quando você esta se afogando no rio Ohio, importa a cor de quem manda a corda?"

No cinturão da ferrugem dos Estados do meio oeste, Ohio é um dos mais enferrujados, mas a meia hora da sede da AFL-CIO encontro líderes da associação de pequenas empresas --a NFIB-- e um dos seus principais lobistas, Roger Geiger. Eles tem dois problemas grandes com Obama: impostos e seguro de saúde obrigatório para empresas.

Só em Ohio, há mais de 900 mil pequenas empresas que empregam 98% da população. A maioria, 54%, tem menos de cinco empregados e não fatura mais do que US$ 250 mil por ano, a faixa que vai cair na rede de Obama.

Entre estes empresários, a acusação de "socialista" tem eco. Embora não aprovem os gastos e a corrupção republicana em Washington, eles acham que Obama vai levar o país para caminhos europeus, de governos centrais gastadores, controladores, com planos de saúde mandatários para todas as empresas, inclusive as pequenas. Não é o que Obama promete, mas é o que a NFIB divulga entre seus afiliados.

E o impacto do endosso do general aposentado e ex-secretário de Estado Colin Powell? Como no sindicato, não sabem responder. Ainda não foi medido, mas, saindo da NFIB, encontrei Tereze, loura, na faixa de 50 anos, dirigindo um ônibus. Ela me contou que ela e o marido tem nove deles, sete motoristas em tempo integral, oito free lancers. A empresa não paga seguro de saúde de ninguém, nem o dela. Sai do salário.

Em quem ela vai votar? "Barack Obama."

Ele não vai aumentar seis impostos e obrigar sua empresa a pagar seguro de saúde? "Acho que é mentira de campanha."

E por que você vai votar nele? "O endosso de Colin Powell, um dos homens mais íntegros e competentes deste país", respondeu sem hesitar. "Ele não endossaria um socialista."

A direita conservadora promove a tese racial, ação entre negros. Não aceitam as críticas do republicano ao próprio partido. Em Ohio, onde as pesquisas dão Obama com apenas um ponto na frente, Powell pode arrastar outros independentes como Tereze.

McCain não pode perder Ohio e nenhum republicano chegou à Presidência sem ganhar neste Estado. Obama pode perder em Ohio, mas, inspirado no modelo republicano de 2000 e 2008, montou uma máquina muito mais cara e eficiente que a de McCain. Se ganhar aqui, a Presidência é do "socialista, terrorista e árabe".

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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