BBC Brasil
05/11/2008 - 07h28

Para ex-ministro, Obama pode aproximar Brasil e Estados Unidos

FABRÍCIA PEIXOTO
da BBC Brasil, em Brasília

A eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos pode significar uma aproximação ainda maior entre Estados Unidos e Brasil.

Essa é a avaliação do ex-ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, que exerceu a função entre 1995 e 2001.

Apesar da política atual do Itamaraty em dar prioridade à relação com outros países, em detrimento dos Estados Unidos, "o que importa mesmo é o presidente Lula, que é mais sensato do que o Itamaraty", diz Lampreia, em entrevista à BBC Brasil.

Segundo ele, os dois presidentes têm pensamentos semelhantes e história de vida comparáveis, o que pode resultar em uma relação "ainda melhor do que de Lula com Bush".

Qual a importância efetiva que um novo presidente nos Estados Unidos pode ter para os americanos e para o mundo? Até que ponto essa pessoa tem realmente um poder de mudança?

Luiz Felipe Lampreia - O George W. Bush é a prova final de que essa pessoa pode acrescentar uma diferença fundamental. Basta ver o clima na eleição no ano 2000 e o clima hoje. Os EUA naquela época eram um país líder e respeitado. Hoje, o país está em crise de autoconfiança. Perdeu espaço por causa de guerras inapropriadas, por causa da situação econômica e, em geral, por erros graves do governo. Bush é a prova final de que um mau presidente pode fazer toda a diferença.

Com Obama eleito, existe expectativa de mudança na relação com o Itamaraty?

Lampreia - Com o Itamaraty, acredito que não. É bom lembrar que os dois países têm uma boa relação, inclusive os dois presidentes (Lula e Bush) se entendem. Agora com o Obama, que se mostra mais aberto para ampliar o diálogo, é possível que haja um espaço maior para a participação do Brasil nos novos diretórios do poder mundial.

Mas a atual política do Itamaraty está menos voltada aos Estados Unidos...

Lampreia - Sim, mas isso não é importante. O que importa é o presidente (Lula), que é um homem mais sensato do que o Itamaraty. Lula tem ido a Washington e tem mantido uma boa relação, inclusive com o Bush.

A relação entre Obama e Lula será mais intensa?

Lampreia - É possível, sim. A história de vida do Obama é de um mestiço, como o Brasil. Isso só pode ser positivo. Por isso Obama inspira tanta simpatia no Brasil.

O senhor não acha que existe perigo de uma frustração com relação a Obama? Não se espera demais dele?

Lampreia - Existe, sem dúvida. Ele vem com uma carga de expectativa imensa e pode ser que haja uma decepção, não só no Brasil, mas nos EUA, inclusive. Mas a possibilidade de mudança existe.

Os pontos de conflito na relação comercial podem ser um obstáculo?

Lampreia - Minha avaliação é de que essas desavenças comerciais devem ser entendidas como um custo fixo. Não é um presidente que vai mudar isso. Mesmo porque quem faz a política comercial é o Congresso.

Sempre haverá litígios na área comercial, isso é normal na relação entre países. Não é necessariamente termômetro de um mal-estar político.

O senhor concorda com a tese de que o próximo governo será mais protecionista?

Lampreia - Tradicionalmente, existe uma divisão entre democratas e republicanos no que diz respeito ao comércio. Mas na minha opinião, isso hoje está superado pelos acontecimentos. Em função da crise, a situação atual mostra que os republicanos estão tão ou mais protecionistas do que os democratas. Para mim, essa diferença entre os dois partidos ficou um pouco teórica.

Temos o exemplo do Clinton, que começou sua gestão com uma postura favorável ao Nafta e aos acordos na OMC e terminou voltado para o lado dos protecionistas. É uma questão de conjuntura e de combinação política. No momento, temos um quadro pouco favorável ao livre comércio.

A vitória de Obama pode mexer na distribuição de poder na América Latina?

Lampreia - O Brasil de Lula e a Venezuela de Chávez são duas opções completamente diferentes, eu diria até rivais. Chávez dificilmente vai mudar sua postura. Ele é um profissional do antiamericanismo. Talvez ele reduza um pouco o grau das críticas aos Estados Unidos, já que o Bush era um saco de pancada muito conveniente, para todo mundo.

Comentários dos leitores
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
Luciano Edler Suzart (34) 09/10/2009 10h20
A situação é periclitante, se antigamente se concedia o Nobel da Paz a quem de algum modo, plantava a paz no mundo, hoje (dada a escassez de boa fé geral) se concede o prémio a quem não faz a guerra... Como diria o sábio Maluf: "Antes de entrar queria fazer o bem, depois que entei, o máximo que conseguí foi evitar o mal"
Só assim pra se justificar esse Nobel a Obama, ou podemos ver como um estímulo preventivo a que não use da força bélica que lhe está disponível contra novos "Afeganistões" do mundo.
sem opinião
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honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
honório Tonial (2) 16/05/2009 21h47
Considero ecelente vosso noticiario. Obrigado, aos 83 anos de mnha vida, 5 opiniões
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Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Marcello Sokal (73) 07/02/2009 12h01
Óbvio que não poderiam aceitar,pois não teriam respostas claras para as legítimas questões do presidente iraniano,esse sim um verdadeiro estadista que sabe da verdade dos fatos e não tem receio de buscar responsabilizar os culpados. A política imperialista norte-americana é velha conhecida mas pessoas convenientemente "esquecem" disso - não respeitam a soberania das nações e se arvoram em ser os "defensores da liberdade" - é o país que mais se envolveu em guerras,revoluções,invasões e intervenções da história da humanidade.A única nação que já bombardeou outro país (na verdade cidades,repletas de civis inocentes) utilizando armas nucleares. O apoio norte-americano a Israel é uma vergonha, apoiando todo tipo de atrocidade possível,dando carta branca e fornecendo armas de alta tecnologia.
Em resumo: o grande vilão nisso tudo não é o Irã....mas tem tolo que prefere não ver influenciado pelo mentiroso american-way-of-life,lamentável.
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