BBC Brasil
10/12/2008 - 11h01

Maioria dos que saíram da Raposa/Serra do Sol vive pior, diz secretário

EDSON PORTO
enviado especial da BBC Brasil a Boa Vista e Raposa/Serra do Sol

O secretário da Agricultura de Roraima, Rodolfo Pereira, usa o exemplo da própria família para falar sobre as conseqüências e as dificuldades dos agricultores que deixaram a reserva Raposa/Serra do Sol desde a sua demarcação, em 1998.

Nascido na reserva e filho de agricultores de lá, ele afirma que seu pai nunca conseguiu reproduzir fora da reserva o sucesso que teve quando trabalhava na Raposa.

"A sorte dele é que ele fez com que os filhos estudassem. A gente pôde ajudá-lo e comprar um sítio", diz. E completa: "Mas a maioria não teve essa alternativa (...) e está vivendo pior."

Para o secretário, o processo de retirada das famílias tem muitos problemas, como indenizações são insuficientes e falta de estrutura para realizar o assentamento. "O que estamos vendo é um pecado."

Estima-se que em torno de 400 famílias viviam na reserva indígena, sendo que a maioria já saiu. O Incra afirma que desse total 192 famílias já entraram com processo formal de assentamento e que 131 delas já estão assentadas.

Cabana queimada

Severina Brasil da Silva é uma das assentadas do Incra e um exemplo de alguém que deu menos sorte do que o pai de Pereira.

Severina também nasceu na reserva, na comunidade de Socó, assim como a maioria dos seus ancestrais. Da família toda, apenas um avô não era índio. Ela diz que decidiu sair há dois anos por causa da pressão dentro da reserva, por ser mestiça, e por causa de roubos na sua propriedade. Lá, produzia 300 sacas de milho por ano e se sustentava sozinha --seu marido morreu há cinco anos. Os filhos que ainda estavam na região --ela tem oito-- acompanharam a mãe e decidiram se mudar para Boa Vista.

"Eu fui para o assentamento PA Nova Amazônia [a cerca de 70 km de Boa Vista]. Mas lá a terra era muito ruim e não dava nada." Como assentada pelo Incra ela entrou em uma lista do que órgão chama de "cliente da reforma agrária" e ganhou o direito de receber financiamento para construir uma casa. Essa fila, porém, é longa e nela gente como Severina compete com cerca de outros 20 mil assentados que nada tem a ver com a reserva indígena.

A agricultora de 55 anos acabou construindo por conta própria um barraco muito simples e pretendia continuar insistindo na plantação até que no ano passado seu barraco foi incendiado enquanto ela estava fora. Não sobrou praticamente nada. Revoltada com a situação da mãe, Katia Araújo mostra fotos do barraco após ter sido construído e depois de ter sido queimado. "Dá para ver ainda o sistema de irrigação que ela ia usar", aponta Katia para o que parece ser um grupo de canos de plástico retorcido. "Imagine se ela estivesse lá."

A solução foi mudar para a casa alugada dos filhos em Boa Vista. Agora, Severina está sendo sustentada pela filha, que está estudando pedagogia e sonha em poder voltar a trabalhar com a terra novamente.

Desestruturação

Na sede do Incra em Boa Vista, o superintendente do órgão no Estado, Titonho Beserra, aponta para a falta de estrutura e de terras para justificar a demora no processo de construção das casas nos assentamentos e a qualidade ruim do solo.

"[Os agricultores da Raposa] queriam ser transferidos para áreas de lavrado [cerrado] semelhantes as que eles tinham. Porém a área de lavrado em que eles estavam era em pé de serra, uma terra uma pouco mais rica em nutriente. Nossa terra aqui [nos assentamentos] é uma pouco mais pobre. Achar um solo como o que eles estavam não é possível no Estado."

Para o secretário Rodolfo Pereira parte do problema está no processo de indenização das famílias que deixaram a reserva. A grande maioria das pessoas que vivia na Raposa não tinha título de propriedade da terra e, em tese, não poderia estar vivendo em uma área indígena. Depois que a área foi demarcada, em 1998, a Funai e o Incra iniciaram um trabalho de avaliação do que eles chamam de benfeitorias realizadas pelos agricultores e sua produção para poder calcular as indenizações.

"As avaliações acabaram sendo muito baixas (...) as pessoas não conseguiram pagar por nada parecido com o que tinham", afirma ele. Outro problema, segundo Pereira, é que em geral as pessoas de uma mesma família moravam perto e formavam uma rede de apoio. Com a saída da região, essas famílias se desestruturaram.

Ele afirma que por conta desses problemas muita gente que saiu gostaria de voltar e alguns já estão tentando resgatar sua ancestralidade para se tornarem índios.

Comentários dos leitores
Jonas Bastos (1) 26/11/2009 19h38
Jonas Bastos (1) 26/11/2009 19h38
É bom que Peru e Brasil tomem mais rapido possivel medidas duras para combater o narcotrafico,contrabando de armas, grupos de exterminios e etc,nas suas froteiras como é o caso da regiao do Alto Rio Solimoes esquecida pelo proprio estado brasileiro... sem opinião
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antonio lucio (1) 18/11/2009 13h13
antonio lucio (1) 18/11/2009 13h13
Será que os retardados mentais que defendem esta miliicia indigina, por tras disto esta as FARC e por tas delas o Chaves, o louco, o debiloide. Pelo amor de Deus. vc querem o que uma querrilha camponesa, entre os sem terra, seringueiros, agricultores, pequenos pecuaristas e os indiginas. Será um massacre atras do outro. O estado é quem que deve estar presente nestes conflitos, esta ai a PF, o Exercito. Agora temos um governo incompetente, irresponsável e incapaz de evitar as invações de terras indiginas ai é outra coisa. Daqui a pouco, vamos ter as milicias, dos seringueiros, dos sem terras (este já existe), dos pequenos pecuaristas e dos agricultores. Teriasmos ai um estado sem lei. Mais ano que vem temos oportunidade de mudar isto. Se Deus quiser vamos mudar e expulsar estes petistas do poder. e olhe quando eles sairem veremos o mar de lama sair das bocas dos bueros e acha lama e podridão. 1 opinião
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tereza rocha (3) 17/11/2009 20h28
tereza rocha (3) 17/11/2009 20h28
sem proteção os indios ficam a mercê de todos os perigos existentes na Amazonia.Agora as Farc tambem querem se aproveitar da fraqueza indigena. 2 opiniões
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