BBC Brasil
13/12/2008 - 16h01

AI-5 influenciou regimes militares na América do Sul, dizem analistas

MARCIA CARMO
da BBC Brasil, em Buenos Aires

O Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que deu poderes ilimitados ao governo militar do presidente Artur da Costa e Silva e que completa 40 anos neste sábado, acabou servindo de "exemplo" para os golpes militares em outros países da América do Sul, segundo analistas.

"Com o AI-5, começou um novo modelo de ditadura militar na região que serviu de exemplo para o golpe militar no Uruguai e no Chile, em 1973, e na Argentina, em 1976", disse à BBC Brasil o professor de ciências políticas da Universidade Autônoma do Chile, Ricardo Israel.

Segundo ele, aquele "novo modelo de ditadura" não queria somente "derrubar" os comunistas, naqueles tempos de Guerra Fria, mas também implementar um novo sistema político e econômico.

"Os militares tinham uma visão totalitária que incluía o controle da sociedade, dos meios de comunicação, dos poderes Legislativo e Judiciário. E tudo isso foi copiado e instalado, depois, pelos outros países da região", destacou Israel.

Guillermo Holzmann, diretor do Departamento de Ciências Políticas e Públicas da Universidade do Chile, concorda. "A base ideológica (dos militares) era a doutrina de segurança nacional, que o Brasil reavaliou (a partir do AI-5) como um processo de maior autonomia, com uma proposta que ia além de neutralizar a ameaça comunista".

O cientista político Ricardo Israel diz ainda que o Brasil também foi exemplo na hora de "eliminar os insurgentes", com apoio dos Estados Unidos.

"No Brasil, adotaram-se praticas militares para eliminar os opositores. O mesmo modelo foi adotado nos outros países da região", disse. A diferença, ressalvou, é que aquelas perseguições foram ainda mais intensas e ferozes nos países que "copiaram" o Brasil, como Argentina e Chile. "A aplicação das práticas militares para eliminar os opositores teve mais força nestes países porque neles a oposição era muito maior", disse.

"Dívida"

Israel recordou que dos cinco países que atuaram juntos na chamada "Operação Condor", somente Argentina e Chile fizeram "revisão" daquele período. Na sua opinião, o Brasil tem uma "dívida pendente" com a História. "O Chile teve uma transição parecida com a do Brasil, que incluiu a anistia. Mas o Chile levou aquele passado para os tribunais. Brasil e Uruguai não".

No Chile, a herança do ex-presidente Augusto Pinochet, líder do golpe contra o socialista Salvador Allende, em 1973, incluiu cadeiras cativas no Supremo Tribunal de Justiça e no Congresso Nacional. Aquelas chamadas "amarras" foram eliminadas no governo do ex-presidente socialista Ricardo Lagos, abrindo caminho para os processos dos acusados de crimes durante a ditadura (1973-1989).

"No Chile, esses processos são possíveis hoje porque é aplicada a lei de direitos humanos internacional, segundo a qual os crimes de lesa humanidade não prescrevem nunca e são perseguidos sempre".

Por sua vez, Holzmann afirmou que os governos militares da região atuaram de forma sintonizada, como na "Operação Condor", porque muitos de seus integrantes, que estavam nas áreas de segurança e inteligência, tinham se conhecido durante cursos no Panamá e nos Estados Unidos. "Com isso, as medidas coordenadas que adotaram, mais tarde, ocorreram porque eles tinham os mesmos interesses e confiança mútua".

Para ele, os regimes militares de Brasil e Chile deixaram algumas marcas daquelas gestões (industrial e econômica, por exemplo), mas em outros, como na Argentina, aquele sistema acabou em "tremendo fracasso".

Hoje, segundo Holzmann, Brasil, Argentina, Uruguai e Chile não têm o mesmo modelo democrático. "São democracias com diferentes níveis de desenvolvimento. Nem todos os países da região têm hoje instituições sólidas e eficientes, e equilíbrios macroeconômicos. Com isso, a pobreza, a desigualdade ou a exclusão variam de um país para o outro".

Comentários dos leitores
Alcides Emanuelli (1136) 11/05/2009 23h05
Alcides Emanuelli (1136) 11/05/2009 23h05
Será que tudo isso não poderia fazer parte da nossa história tão controvertida.
Os problemas agora são outros e bem piores se não houve revolução armada na época do golpe militar, em 1964, hoje existe uma revolução social no seio da sociedade brasileira que mata por ano mais de 46.000 mil pessoas de homicidios.
Se foi errado o golpe no estado pelos militares, tabme erros do outro lado do Rio algumas arruaças armadas que ceifaram vidas de inocentes, os dois lados queriam o Poder para do Poder tirarem todo o lucro possivel para seus grupos.
Os erros dos militares continua até hoje e ninguem faz nada com as aposentadoias vitalicias para as filhas de militares e de alguns malandros.
E os outros estão no Poder e no Poder cedido para eles pelos militares sempre através de conchavos com lucros astronomicos para os dois lados, eles tem o Poder e todo o lucro possivel que conseguem com o Poder.
Mas continuando ontem havia uma ditadura militar, hoje temos uma ditadura dos militares em conjunto com a turma do outro lado do Rio, dos Intelectuais, dos Artistas, dos sindicalistas do Professores que não sabem ensinar e sim inchar o sistema com seu empreguismo.
Esse é o novo modelo de Brasil Patria Amada, onde um Presidente NeoCaudilhesco se denomina Rei dos miseraveis, sendo ele um pertencente de castas nobres com muito dinheiro no bolso para gastar.
Agora saber porque sempre se busca fatos passados e através da burocracia, tirar muito dinheiro do povo, procurando e julgando o passado.
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João Carlos Gagliardi (1239) 11/05/2009 22h12
João Carlos Gagliardi (1239) 11/05/2009 22h12
Governo anuncia abertura de parte dos arquivos sigilosos da ditadura...
Interessante como insistem com o errôneo termo "ditadura".
O que havia no Brasil na época, era uma guerra não declarada.
Os mesmos que criaram uma "Cortina de Ferro"no leste europeu, tentavam agora com a ajuda dos guerrilheiros tupiniquins, inspirados pelo assassino da ilha do Caribe, fazer a mesma coisa no Brasil.
Se o "outro lado", tivesse ganho a luta, hoje contabilizaríamos muitos milhares de mortos, que sempre foi a marca registrada da implantação de regimes comunistas totalitários.
Aquela "ditadura" não foi nada, se comparada ao que nos reservaria a outra opção.
Se hoje reclamam do que aconteceu naqueles dias, foi graças a patriotas que deram suas vidas para garantir a democracia que persiste, a despeito de novas gerações de parasitas, que tentam recriar aquela época.
Não percam tempo em tentar aquilo de novo, seriam derrotados novamente.
Aqui não é a Venezuela...
2 opiniões
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Rui Ruz Caputi Caputi (1245) 11/05/2009 21h48
Rui Ruz Caputi Caputi (1245) 11/05/2009 21h48
Tenho 51 anos, vivi em parte o periodo do regime militar. Agora começo a ter grandes dúvidas sobre o que seria menos pior para o povo. Pergunto cá com os meus botões. Quem se lixaria menos para o povo? Os generais de outrora ou nossos atuais políticos? Lembro-me claramente do Gal. Figueiredo, desafiando os terroristas soltadores de bombas a jogarem as bombas nele e não no povo. Será que nossos politicos atuais teriam o mesmo destermor do Figueiredo?
São fatos historicos incontestáveis, todos cinquentões se recordam com certeza.
sem opinião
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