Saiba mais sobre a crise nuclear com o Irã
da BBC BrasilO presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, anunciou que o Irã conseguiu enriquecer urânio pela primeira vez na semana passada.
A quantidade de urânio enriquecido pelo Irã foi de 3,5% do material processado. A quantidade usada em uma bomba nuclear é de 90%.
O enriquecimento de urânio em níveis baixos é capaz de produzir combustível para reatores nucleares, mas em quantidades elevadas, pode ser usado em bombas.
O Conselho de Segurança da ONU havia exigido que o Irã interrompesse atividades de enriquecimento de urânio até o dia 28 de abril deste ano.
Confira abaixo os principais pontos da polêmica que envolve os planos iranianos.
O Irã pode pode utilizar o urânio que enriqueceu para produzir armas nucleares?
Ao menos por enquanto, é uma hipótese improvável, uma vez que a quantidade de urânio enriquecida pelo país foi de 3,5% do material processado, uma cifra mais condizente com a necessária para produzir combustível para reatores nucleares.
Mas autoridades iranianas falaram sobre a intenção de enriquecer urânio em doses industriais, o que, em tese, poderia levar à produção de artefatos nucleares.
A quantidade de urânio enriquecido usada em uma bomba nuclear é de cerca de 90%.
Por que o Irã quer enriquecer urânio?
O urânio enriquecido fornece combustível para uma usina de energia nuclear. O Irã diz que precisa ser capaz de desenvolver esse processo de enriquecimento, sob inspeção, porque não pode confiar em fornecedores estrangeiros. O país diz que esses fornecedores poderiam estar sujeitos à influência americana.
Apesar de suas grandes reservas de gás e petróleo, o Irã diz que quer diversificar suas fontes de energia. O país argumenta que seu programa nuclear original começou no período do xá Reza Pahlevi.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse à ONU que seu país tem o "direito inalienável" de produzir energia nuclear.
Por que o Conselho de Segurança exigiu um prazo para o país parar de enriquecer urânio?
O governo iraniano insiste que quer apenas produzir energia nuclear, e não armas, mas os Estados Unidos e outros países ocidentais desconfiam das intenções do Irã.
Isso fez com que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) levasse o Irã ao Conselho de Segurança porque o país decidiu retomar suas atividades de enriquecimento. O objetivo é utilizar o peso do Conselho de Segurança para pressionar o Irã.
No comunicado emitido pelo Conselho de Segurança da ONU, o Irã não foi ameaçado com sanções.
O texto diz apenas que há "preocupações sérias" quanto ao reinício do processo de enriquecimento.
Por quê não aplicar sanções contra o Irã?
Porque muitos países membros do Conselho de Segurança são contra as sanções.
China e Rússia, dois membros com poder de veto, atualmente são contrários à aplicação de sanções. A China compra muito petróleo e gás do Irã.
Qual é a posição do Irã?
Mesmo antes da decisão da AIEA de levar o Irã ao Conselho de Segurança, o governo iraniano afirmou que estava retomando sua pesquisa. O país insiste que tem o direito de retomar estas pesquisas.
Segundo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), um país tem o direito de enriquecer seu próprio combustível para geração de energia nuclear com fins civis, sob a inspeção da AIEA.
O Irã pode abandonar o TNP?
Sim. O artigo 10º dá aos países-membros o direito de declarar que "eventos extraordinários colocaram em risco os interesses supremos do Estado". Um país pode, a partir disso, dar um aviso de que em três meses abandonará o tratado.
Por que o Ocidente está tão preocupado?
As potências do Ocidente temem que o Irã, sigilosamente, tente desenvolver uma bomba nuclear ou a capacidade de fazer uma bomba, mesmo se não tiver decidido fazer a bomba agora.
Esses países dizem que não é possível confiar no Irã. Recentemente, o Irã admitiu ter recebido um documento no mercado negro sobre a construção de um dispositivo nuclear preparado pelo cientista paquistanês A. Q. Khan. Isso aumentou as preocupações. O Irã diz que recebeu o documento sem ter pedido.
Além disso, as potências ocidentais avaliam que permitir que o Irã continue a enriquecer urânio seria abrir um precedente.
Quais são os antecedentes dessa polêmica?
Em 2003, a AIEA comunicou que o Irã ocultara um programa de enriquecimento de urânio por 18 anos, e a atual disputa é uma decorrência desse fato.
Países do Ocidente que integram a AIEA pediram ao Irã que se comprometesse a acabar com as atividades de enriquecimento de forma permanente, mas o país tem se recusado a fazer isso e agora diz que abandonou uma suspensão temporária.
O Irã diz que está cumprindo as determinações do TNP e que deveria ter permissão de enriquecer urânio, sob inspeção, para fins pacíficos, uma vez que o tratado permite que outros países façam isso.
O Irã diz que tem permissão para enriquecer combustíveis. Então, por que a crise?
O Irã tem permissão para desenvolver um ciclo de combustível para energia nuclear, sob inspeção da AIEA. No entanto, como escondeu o seu programa de enriquecimento antes, há agora uma dúvida sobre o risco de que isso volte a ocorrer. Em tese, o Irã poderia aprender como fazer combustível para energia nuclear, enriquecê-lo ainda mais para uma bomba e deixar o TNP.
Quanto tempo seria necessário para o Irã construir uma bomba?
Muitos anos, segundo especialistas. Primeiro, o Irã teria que dominar o processo de enriquecimento. Isso envolve a montagem de milhares de centrífugas que processam um gás produzido a partir do urânio, uma operação difícil.
Depois, teria que aprender como iniciar uma explosão nuclear e produzir um dispositivo pequeno o suficiente para ser carregado por um avião ou um míssil.
Apesar dos obstáculos, Israel manifestou preocupação com a possibilidade de o Irã aprender a tecnologia de enriquecimento em um ano e isso, segundo o governo israelense, representaria um caminho sem volta.
E os temores de um conflito regional?
Há temores de uma crise maior, possivelmente militar. Os Estados Unidos já disseram publicamente que não vão permitir que o Irã desenvolva armas nucleares. O presidente americano, George W. Bush, disse que quer uma solução diplomática para isso, mas que nada está descartado.
Alguns artigos na imprensa sugerem que Israel, que bombardeou um reator do Iraque em 1981, teria começado a planejar um possível ataque. Mas, como os Estados Unidos, Israel ainda diz que a diplomacia é a prioridade.
Pelo TNP, as atuais potências nucleares não têm a obrigação de se livrar de suas armas?
No artigo 6º os signatários se comprometem a "buscar negociações em boa-fé para medidas efetivas relacionadas ao fim da corrida às armas nucleares e ao desarmamento nuclear".
As potências nucleares argumentam que fizeram isso ao reduzir o número de suas ogivas, mas críticos dizem que esses países não avançaram em termos de desarmamento nuclear.
Os críticos também argumentam que os Estados Unidos e o reino Unido romperam o tratado ao transferir armas nucleares entre si. Americanos e britânicos dizem que esse tema não é abordado pelo TNP.
Israel não tem uma bomba atômica?
Sim. Israel, no entanto, não é membro do TNP e, portanto, não tem obrigação de obedecê-lo. Assim como Índia e Paquistão, que também desenvolveram armas nucleares. A Coréia do Norte deixou o tratado e anunciou que adquiriu a capacidade de produzir armas nucleares.
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