BBC Brasil
03/07/2009 - 08h32

Sob aparente calma, Honduras vive clima de apreensão após golpe

BRUNO GARCEZ
enviado especial da BBC Brasil a Tegucigalpa

O intenso movimento no Mall Multiplaza, um dos maiores shopping centers da capital hondurenha, leva a crer que tudo segue como antes em Tegucigalpa, pouco menos de uma semana após a deposição do presidente Manuel Zelaya.

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Mas após as 22h, a capital hondurenha, com seus cerca de 770 mil habitantes, mais se parece uma cidade fantasma, sem que se veja um único habitante ou um único veículo circulando pelas suas ruas.

A partir deste horário e até 5h da manhã do dia seguinte, o governo instituiu um toque de recolher, que permite às forças policiais realizar prisões sem acusações formais por mais de 24 horas e que restringe os direitos assegurados pela Constituição de reunião e livre circulação.

Nos últimos dias, as ruas da capital também vêm se alternando em receber manifestações de ativistas a favor do atual governo interino do país ou de defensores do líder deposto.

Retorno

A população da cidade também aguarda com ansiedade os acontecimentos dos próximos dias, o possível retorno ao país de Zelaya, ou Mel, o diminutivo pelo qual ele é conhecido por aqui.

Zelaya foi afastado do poder após um grupo de militares ter invadido o Palácio Presidencial, na manhã do domingo passado (28), obrigando-o a embarcar para a Costa Rica, ainda de pijamas.

Para muitos, Mel é uma figura polêmica, que cometeu erros, mas sua deposição acabou sendo um equívoco ainda maior do que aquele que ela pretendia remediar.

Para outros, o líder deposto deve retornar ao país, mas para responder pelos delitos dos quais ele é acusado --18 ao todo, pelas contas do atual governo interino comandado por Roberto Micheletti, ex-líder do Congresso.

As acusações vão de abuso de poder a traição à pátria, motivadas, em boa parte, pela intenção de Zelaya de realizar uma consulta popular para reformar a Constituição e, assim, abrir caminho para uma possível nova candidatura.

A Constituição hondurenha só admite que o líder máximo do país exerça um único mandato de quatro anos.
Sem tranquilidade

"Neste momento, não há tranquilidade. Alguns dizem que Mel voltará, outros que Micheletti é o presidente. Talvez Mel não tenha razão, dizem que ele violou a Constituição, mas seus direitos constitucionais também foram violados. Eu quero paz, democracia e segurança, vinda de ambos os lados. Poder ir trabalhar e me divertir normalmente. Estamos funcionando a meio vapor", disse à BBC Brasil o vendedor Cris Manzanares.

Yollande Murillo, que trabalha na mesma loja de instrumentos musicais que Manzanares, tem uma visão distinta.

"O país vive um momento de manifestações (políticas), que em nenhum momento foram violentas, exceto pelas promovidas pelos defensores de Mel Zelaya. As manifestações do governo foram feitas em benefício da paz. Quanto a Mel, ele tem que regressar, mas para ser julgado por ter violado a Constituição. O erro do atual governo foi tê-lo deposto sem tê-lo julgado antes."

Deposição e Chávez

Nesta quinta-feira, o principal assessor jurídico do Exército hondurenho, o coronel Herberth Bayardo Inestroza, admitiu que a deposição de Zelaya constituiu um desrespeito às leis do país, mas defendeu a medida alegando que ela foi tomada a fim de evitar "derramamento de sangue".

Em entrevista ao site noticioso salvadorenho El Faro, disse que o Exército acabou não tendo alternativas a não ser a de depor Zelaya, visto que ele os vinha pressionando a descumprir a legislação do país ao pedir que os militares colocassem em prática a consulta popular com vistas à reforma da Constituição.

O coronel acrescentou que para os militares do país é impossível manter relações com um governo de esquerda e considera igualmente impossível que Zelaya volte ao país.

"Se é inteligente, não vai regressar a Honduras. Já Chávez [o líder venezuelano, Hugo Chávez] disse que não viria a Honduras e disse por que, e vocês sabem muito bem --porque tinha medo de ser vítima de um franco atirador."

Chávez foi um dos maiores defensores da recondução de Zelaya à liderança do país e chegou a ameaçar enviar tropas para Honduras para trazer o presidente deposto de volta à presidência.

Indagado se os supostos temores de Chávez de ser vítima de um franco atirador hondurenho são fundamentados, o militar afirmou: "Ele tem por que ter medo, claro. Porque faltou com respeito a todos nós. Nos chamou de gorilas e coisas assim. Não entendo como um golpista pode ter moral para insultar alguém".

Comentários dos leitores
samuel haddad carvalho (108) 01/12/2009 17h44
samuel haddad carvalho (108) 01/12/2009 17h44
Cá entre nós! Se Obama quisesse mesmo a restituição de Zelaya ao governo de Honduras, isso já não teria acontecido? O peso econômico americano no mundo é um fato. E quem tem o dinheiro tem o poder. Somente na reunião dos países ditos "ibéricos" é que houve uma quase unanimidade quanto à restauração do governo democraticamente eleito em Honduras. É que lá os EUA não participam. Nada contra quem tem saudade de ditaduras de direita! Porém, não gostaria disso por aqui! Faz bem sim em condenar uma eleição que foi tão livre quanto as do Iraque e Afeganistão. Será se novas estratégias estão sendo adotadas? Antigamente eles colocavam militares nos governos sul americanos. Será se agora estão "fingindo" eleições para perpetuar no poder a elite que defende somente interesses próprios e americanos? Tenho dúvida se Obama participa dessa estratégia. Um exemplo é que, embora Obama critique as atitudes de Israel, Hillary sempre abençoa as atitudes daquele governo agressor. Parece que estão agindo sem o consentimento de Obama. A estratégia bolivariana de Hugo chaves de "avançar" para a América Central foi barrada em Honduras. Acredito que se de um lado isso foi bom, de outro, abriu um precedente que pode autorizar a volta dos fascistódes de direita ao poder com o apoio das armas e, pior ainda, com a volta do respaldo do país mais forte do planeta. Acho que não é só a situação em Honduras que temos que avaliar com cuidado... sem opinião
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ÁRIAS, prêmio Nobel da paz de 1985, presidente da Costa Rica, faz uma observação, com a autoridade e credibilidade que tem para isso, sobre o dúbio posicionamento de Lula. Por um lado, Lula reconhece uma eleição iraniana, repleta de corrupção, autoritarismo e violência, sem observadores internacionais, e por outro, propala por aí que não reconhecerá as eleições em Honduras, onde tudo ocorreu democráticamente, inclusive com observadores internacionais. Para nós brasileiros, que o conhecemos, desde os seus tempos de sindicalista truculento, acompanhamos isso com uma certa tristeza, porque, infelizmente, dado ao cargo que ocupa, fala pelo Brasil. E, lá fora, tudo isso tem repercutido muito mal, numa demonstração daquilo que sempre temíamos:"quem muito fala, dá bom dia ao cavalo", ditado popular, largamente conhecido o seu significado. Cá pra nós, o que essa gente implicante que rodeia o Lula, tem a ver com situações dessa natureza. Amam um ditador sanguinário, adoram os trogloditas bolivarianos, saúdam o maluco do Irãn, elogia o devasso e falso bispo paraguaio, e por aí vai as cavalgaduras. Tenham paciência é muita idiotice conjunta! 4 opiniões
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celio maia (109) 01/12/2009 10h51
celio maia (109) 01/12/2009 10h51
"Se o Brasil considerar que tem que mudar de posição, mudará de posição", disse Garcia...
Engraçado, ainda ontem essa conversa era outra, bem mais radical. De repente dá uma guinada de 180°. Será que foi por causa da acusação de "dupla moral" (leia-se "falsa moral") apontada pelo presidente da minúscula Costa Rica? É de se duvidar. É mais fácil perceber que querem simplesmente resolver a situação lamuriosa de Zelaia. Tudo em troca de um salvo-conduto para o companheiro. Relações diplomáticas é conversa pra boi dormir. É que sem o reconhecimento da legitimidade do governo hondurenho, Zelaia ficaria preso indefinidamente na arapuca brasileira que armou...
No fundo, no fundo, todo esse cavalo de batalha criado pela deposição de Zelaia tem o caráter de tentar evitar que, no futuro, outras marionetes hugobolivarianas sejam sumariamente defenestradas da mesma forma. Apenas isso. É o que parece...
Nessa terrinha de muro baixo não se consegue esconder muita coisa...
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