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02/01/2007 - 11h49

Análise: Execução caótica de Saddam é corda no pescoço americano

CAIO BLINDER
da BBC Brasil, em Nova York

Com elasticidade histórica, George W. Bush nunca escondeu ter Winston Churchill como modelo de inspiração.

Mas, no ajuste de contas com tiranos derrotados na guerra, o presidente americano foi diferente do estadista britânico.

Churchill queria que os líderes nazistas fossem executados sem julgamento.

Bush teve seus pruridos legais. Saddam Hussein foi julgado, sentenciado e enforcado em um drama controvertido e caótico.

Agora, de certa maneira, os americanos se sentem com a corda no pescoço.

Existem as acusações previsíveis sobre a validade do julgamento e o preço do seu desfecho.

Vingança

Mais do que justiça, foi um espetáculo de vingança dos vitoriosos (embora a idéia de vitória americana na guerra seja duvidosa).

E aqui Bush não está sozinho no banco dos réus. Nos pruridos legais e para mostrar que uma nova ordem se implantava no Iraque, o julgamento de Saddam Hussein ficou a cargo das autoridades locais.

No processo e no resultado, o governo liderado pelo primeiro-ministro xiita Nouri al-Maliki teve muita culpa no cartório.

Existe uma visão apressada de que o presidente Bush teria pressionado o governo iraquiano para executar Saddam Hussein o mais cedo possível depois que a apelação se esgotara.

Por este raciocínio, Bush gostaria de fechar um capítulo antes de apresentar sua "nova estratégia" iraquiana agora em janeiro.

Os sinais, porém, apontam, na direção contrária.

Desconforto

Na sua edição de segunda-feira, o jornal "The New York Times" tem como principal reportagem uma narrativa sobre o desconforto americano em relação à confusão legal e o caráter meio anárquico da execução em si de Saddam Hussein.

A impressão de que o enforcamento foi conduzido por "vigilantes" xiitas contrasta com a declaração oficial da Casa Branca de que a execução representara um "importante marco" na trajetória iraquiana rumo à democracia e à reconciliação nacional.

Na narrativa montada pelo "New York Times", com base em relatos de fontes americanas e de autoridades iraquianas que participaram de reuniões cruciais nos dias que antecederam a execução de sábado, emerge um cenário marcado pela cautela do governo Bush e advertências sobre como os iraquianos deveriam proceder com o enforcamento.

Dois pontos essenciais preocupavam os americanos: que os trâmites fossem seguidos ao pé da letra, ou seja, aprovação dos três integrantes do Conselho Presidencial do Iraque para a execução e que ela não ocorresse, conforme estipula uma tradicional lei iraquiana, durante os quatro dias do feriado religioso muçulmano do Eid-al-Adha, que marca o fim da peregrinação anual para Meca e Medina.

Mecanismos legais

Nas horas que antecederam a execução, o governo Maliki trabalhou freneticamente nestes mecanismos legais.

Arrancou uma carta do presidente Jalal Talabani (conhecido por suas reservas à pena de morte), ressaltando que, mesmo sem assinar o decreto, ele não tinha objeções à execução.

O obstáculo religioso foi superado com o sinal verde para o "enforcamento até a morte" durante o feriado muçulmano dado pelo conselho supremo dos aiatolás xiitas iraquianos.

O desconforto americano com todos estes eventos turbulentos em Bagdá confirma os temores de uma incontrolável espiral de violência sectária no Iraque.

A execução de Saddam Hussein se mostrou mais um lance da inclinação da maioria xiita para tornar a vida da minoria sunita, privilegiada na antigo regime, um pesadelo macabro.

O governo Bush se contorce com a corda no pescoço pois, como observa o "New York Times", está frustrado com o comportamento destrutivo de Maliki, mas não pode confrontá-lo vigorosamente para não agravar ainda mais a precária situação.

A execução de Saddam Hussein foi vista como um "side-show" ao espetáculo principal da desintegração institucional do Iraque, mas emblemática de como um país caminha para o cadafalso.

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