Donos viram alvos de ataques de seus cães
BRUNA BITTENCOURT
da Revista da Folha
Toda vez que a empresária Marilei Lambert, 39, chega em casa é a mesma história. Ela deixa o carro já com a bolsa em punho para se proteger. Adivinhe de quem? Do seu próprio cão: Tigrão, 5, um boxer misturado com outra raça, que ela acredita ser pit bull.
"Quando ele era pequeno, nunca fez isso. Era amável. E até que a gente se dava bem. Hoje, se eu virar de costas, ele me ataca", conta Marilei.
| Beatriz Toledo/Folha Imagem |
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| Boxer misturado com pit bull Tigrão ficou agressivo com a dona |
Há dois anos, foi exatamente o que aconteceu. Tigrão aproveitou que a dona estava distraída e a mordeu. Dois meses atrás, a empresária foi mais uma vez vítima dos ataques do cão. "Ainda bem que não foi grave. Mas só o susto me deixou péssima", conta.
Tigrão nunca escondeu sua preferência pelos dois filhos da empresária, Matheus, 16, e Giovanna, 7. Em relação ao marido de Marilei, o servidor público Renato Maellaro, 41, o cachorro sente, na verdade, medo. "Aos dois anos, ele começou com essa implicância comigo, principalmente quando chego sozinha em casa", diz ela.
Marilei conta que a mudança de comportamento coincide com o nascimento do filhote de Tigrão, Thor, 3. Os dois dividem o quintal com a boxer Mel, 4, mãe do filhote, e a são bernardo Paloma, 2. "Desde que o filhote cresceu, ele briga muito com o filho para ver quem domina o território", conta a empresária. "Sempre encuquei com a mudança de humores do Tigrão."
Marilei tem razão em encucar. Por trás da mudança de comportamento de um cão sempre existe um motivo (ou vários), segundo os especialistas. "Ela depende do próprio histórico do animal, da educação que ele recebeu ou, às vezes, até de alguma doença", explica Mauro Lantzman, professor de psicobiologia da PUC, especialista em comportamento animal. "O envelhecimento, por exemplo, também influencia no comportamento."
Foi justamente na velhice que Olívia, um dachsund de 11 anos, começou a morder a dona, a comerciante Laís Fróes, 38. "Ela costumava ser dócil. Com a velhice, ficou bem mais arisca. Se mexo no pé dela durante a noite, Olívia chega a me morder", conta. A cadela sofre há quatro anos um problema de coluna, conseqüência de desgaste físico, o que Laís acredita que acentua sua mudança de comportamento somada à velhice. "Pegar ela no colo hoje é mais difícil. Olívia resiste e rosna."
O veterinário Mauro Anselmo Alves, 45, explica que, na idade avançada, alguns problemas de saúde, como na coluna ou nas articulações, podem levar o cachorro a sentir dor. E morder é sua defesa. "É previsto que eles se tornem mais agressivos em idade avançada porque não enxergam ou não ouvem bem", explica Hannelore Fuchs, médica veterinária, doutora em psicologia e especialista em comportamento animal.
Rebelde com causa
Para Rúbia Burnier, veterinária, uma parte da agressividade pode estar relacionada ao fator genético. São características herdadas do pai e da mãe que podem ser detectadas a partir da quarta semana de vida do animal. "Quando o cão dá a primeira rosnadinha e o dono acha divertido, o animal é estimulado. Também, se ele reprime com agressividade, o animal vai ficar mais contundente da próxima vez, porque entendeu que o caminho é a agressividade", diz Rúbia.
Ela já tratou animais que foram tranqüilos até seus cinco anos, mas, por causa de uma determinada situação, como a ausência de uma pessoa querida ou até traumas decorrentes de maus-tratos, que traz estresse para o cachorro, o potencial agressivo que estava atenuado aflorou.
"A ociosidade, o isolamento e uma alimentação hipercalórica também podem detonar o comportamento agressivo", diz.
Sua colega Hannelore lembra que a mudança repentina de comportamento não está relacionada a determinadas raças. "O que existem são variações de comportamento de acordo com o estágio de desenvolvimento do animal."
A agressividade juvenil, por exemplo, ligada à puberdade, faz parte do desenvolvimento emocional do cão e é bastante comum. "Como qualquer adolescente, o cão vai testar os limites do adulto", diz Mauro.
Uma alternativa para que o animal volte ao comportamento normal é desestimular a agressividade, canalizando sua energia para uma brincadeira, um esporte ou uma outra situação lúdica mais produtiva. "Sempre que ele rosnar ou avançar, o dono precisa, com a guia, tirar o animal do ambiente por 15 minutos", ensina.
Para Mauro Anselmo, o dono deve determinar, até o final da infância do cão, uma condição hierárquica dentro daquela família ou matilha. "O cão percebe que, quando ele agride, as pessoas têm medo dele, o que pode ser uma forma de dominar o ambiente."
Terapia ou adestramento podem ajudar esses bichos rebeldes a ter novamente tranqüilidade em casa. Para alívio dos donos.
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