Equilíbrio
06/05/2008 - 08h03

Zoólogo explica como ajudar quem tem trauma de ataques de animais

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CÍNTIA MARCUCCI
da Revista da Folha

Sobreviver ao ataque de um animal selvagem, mesmo que seja um bicho treinado, é para poucos. Continuar lidando com eles sem sentir medo é coisa para o zoólogo canadense Dave Salmoni, especialista em felinos de grande porte. Apresentador de uma série de programas sobre a vida selvagem, Dave, 31, resolveu usar sua habilidade em lidar com predadores para ajudar outras pessoas.

Esse é o mote da nova minissérie ''Depois do Ataque", que estréia no Brasil na próxima sexta-feira, às 20h, pelo canal pago Animal Planet. Nela, Dave conhece pessoas atacadas por animais ferozes e procura entender o que se passou, na tentativa de amenizar os traumas. O programa irá reconstituir as situações e mostrará também o lado dos bichos.

Divulgação
O zoólogo canadense Dave Salmoni explica como ajudar pessoas que ficaram traumatizadas depois de sofrer ataques de animais
O zoólogo canadense Dave Salmoni explica como ajudar pessoas que ficaram traumatizadas depois de sofrer ataques de animais

"As pessoas costumam ter a noção do trauma físico que um ataque causa, mas os efeitos mentais são muito piores", diz Dave, em entrevista exclusiva à Revista.

"Eu passei por isso. Fui atacado por um leão de minha confiança e lido com animais todos os dias. Não acho que existam psicólogos que entendam tão na pele o que essa situação extrema significa." Na conversa, Dave também fala sobre o novo programa, sobre comportamento dos animais selvagens e de como se diverte ao ver sua equipe de produção com medo de "singelos bichanos". A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone.

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Por que os animais atacam?

Eles têm tanta curiosidade sobre nós quanto nós temos sobre eles. Ambos estão sem confiança um no outro e amedrontados. A curiosidade é que faz o contato pouco seguro. Os ataques que mais chocam são os de animais que, na natureza, são presas, como cangurus ou alces. Mas, em geral, é questão de defesa mesmo. Prefiro lidar com predadores. Eu me comunico melhor com os grandes felinos do que com animais como zebras e girafas.

Vai me dizer que você não tem medo de ser atacado?

Quanto mais trabalho com isso, menos medo eu sinto. Sinto medo quando paro e penso no que pode acontecer se surgir uma situação perigosa. Mas não enquanto eu faço as coisas. Para minha família, por exemplo, só conto o que fui fazer depois que volto de um projeto. Digo para onde vou, quanto tempo devo ficar, mas não fico especificando os riscos para eles. Senão eles ficariam apreensivos demais. Eles sabem que eu amo meu trabalho. E isso os assusta bastante, então, prefiro agir assim.

Quais os erros que as pessoas cometem quando lidam com animais? Foi um erro que levou o apresentador Steve Irwin a morrer em 4 de setembro de 2006, quando o ferrão de uma arraia atingiu seu peito?

As pessoas se esquecem do quanto os animais são poderosos e perigosos e do quão rápido o caldo entorna. Mas isso não foi o caso do Steve. Ali aconteceu um acidente muito trágico, pois ele sabia o que estava fazendo. Ele era um profissional de verdade.

Você fala bastante sobre se comunicar com os animais que treina. Essa comunicação pode salvar alguém em um ataque?

Ser um treinador de animais faz você conhecer sua linguagem em um nível muito íntimo, saber o que eles estão pensando. Agora, há muitas diferenças entre animais de cativeiro e os que estão soltos no seu habitat. Isso deve ser levado em consideração. Se eu observar e entender o que esses animais querem me dizer, eles nunca vão querer me machucar. É só quando eu não entendo o que eles querem dizer que isso causa uma reação violenta. Essa compreensão faz parte do meu protocolo de segurança.

Como você pretende ajudar as pessoas a superarem traumas gerados por ataques em seu novo programa?

Nós levamos de cinco a dez dias gravando cada história. Isso me torna íntimo daquelas pessoas. Até porque, em geral, elas também têm um receio inicial das câmeras de TV. Por isso, preciso ser o porto seguro delas. Tenho que me tornar a pessoa de confiança na equipe. Fazemos a reconstituição do ataque. Posso ver nos olhos das pessoas o que elas sentiram, revendo memórias horríveis que me tocam. A partir desse reencontro com a situação, eu ofereço a elas a oportunidade de passar por cima daquilo e também de entender os porquês de terem sido atacadas. Se elas compreendem os motivos dos animais, isso as faz sentir menos raiva e medo deles.

Nenhum bicho te assusta? Nem baratas? E o que me diz das cobras?

Já me perguntaram isso há alguns anos (risos). Minha resposta foi tubarões-brancos. Sempre achei que não havia maneira segura de interagir com eles. Aí teve o projeto com os tubarões (''Devoradores de Homens'', exibido pelo canal pago Discovery, em 2007). E o pessoal me forçou a nadar com eles (risos). Não, isso não é verdade. Eu escolhi nadar para ver se eles estavam mesmo a fim de nos caçar. Desde então, perdi o medo do animal. Percebi o quanto ele é interessante. Sobre insetos, no meu trabalho, já fui bastante picado por eles. O que não gosto muito é de cobras. Elas não me deixam nervoso. Mas não quero ter muito contato com elas.

Filmar com animais ferozes não deve ser nada fácil. Como você lida com imprevistos?

É preciso respeitar os bichos. Uma vez, estávamos filmando uma história sobre o ataque de um puma. Nós fizemos um boneco para representar a pessoa. O puma simplesmente pegou a cabeça do boneco e não queria largar. Ficou escondido em um arbusto por três horas. E todo mundo lá, esperando ele terminar de brincar. Agora, o que eu acho mais legal é ver o pessoal da minha equipe de TV trabalhando. Eles ficam bem nervosos no começo, mas depois esquecem dos bichos enquanto estão gravando. O divertido é quando eles caem em si ao verem os dentões dos felinos e se lembram do quanto eles são perigosos (risos). É claro que é engraçado. Mas não para eles.

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perfil

Nome: Dave Salmoni

Idade: 31

Naturalidade: Sarnia, Ontário (Canadá)

Formação: zoólogo pela Laurentian University, em Sudbury, Ontário; treinador de animais, apresentador de TV e produtor. É dono de sua própria produtora, chamada Triosphere, baseada na África

Principais atividades: começou como aprendiz de treinador, em 1998, no Bowmanville Zoological Park, onde sofreu ataque pelo leão Bongo. Em 2000, ajudou a reintroduzir tigres-de-bengala nascidos em cativeiro em seu habitat natural na África, primeiro trabalho documentado pelo Discovery. Desde então, passa ao menos três meses por ano na África. Já produziu e apresentou programas como "Na Cova dos Leões" e a série "Selva de Feras", além de documentários sobre tubarões ("Encantador de Tubarões" e "Devoradores de Homens")

Curiosidade: nomeado recentemente pela revista norte-americana "Cosmopolitan" como um dos "Fun and Fearless Male" (algo como "os homens mais corajosos e bacanas") de 2008

 

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