Veterinários defendem intervenção em casos de rejeição materna
CÍNTIA MARCUCCI
da Revista da Folha
Foi no início do ano que Flocke fez sua primeira aparição no zoológico de Nuremberg, na Alemanha. Depois de ser rejeitada pela mãe, a ursinha-polar foi cuidada pelos funcionários do zôo, situação que repetiu a polêmica de Knut, o ursinho de Berlim que ganhou até selo comemorativo, com ambientalistas dizendo que não se deve interferir no curso natural da vida animal. A rejeição materna não é coisa de ursinho fofo. Ela pode acometer todos os animais.
Quando ela ocorre dentro de casa com cães e gatos, fica mais difícil ainda não colocar o dedo humano na história. "É um comportamento perturbador para o proprietário quando a fêmea ignora, afasta um filhote e reage à sua morte enterrando-o ou até mesmo ingerindo o bichinho", diz o veterinário Marcelo Faustino, do departamento de ginecologia e obstetrícia do Hospital Veterinário da USP.
| Ralf Schedlbauer/AP |
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| Considerada "o novo Knut", ursa polar Flocke também foi rejeitada pela mãe; animal está no zooólógico de Nuremberg |
Para a professora de educação física Malu Snitram, 28, ver sua gata SRD Julieta deixar de lado um dos filhotes não foi nada fácil. Eram três gatinhos: um nasceu morto, uma ela amamentou por um mês e da outra ela simplesmente não tomou conhecimento. "Eu cuidei de todas as formas que pude. Alimentei a gatinha e a mantive aquecida. Mas ela só sobreviveu por cinco dias."
Malu conta que Pompom, a filhotinha sobrevivente, também não tem a saúde muito forte. Hoje, com um ano, ela está em tratamento contra o câncer. Por conta disso, Malu chegou a cogitar se Julieta sabia que a ninhada era mais fraca. Será?
Segundo Daniel Svevo, adestrador e especialista em comportamento animal, o instinto faz com que as fêmeas não cuidem de um filhote que não deve vingar e que pode atrapalhar a sobrevivência dos outros, ou ainda atrair predadores. As mães reconhecem esse filhote por sua pouca atividade e por sua temperatura corporal diferente da normal, em geral, baixa demais.
Primeira viagem
Outra causa freqüente de rejeição ocorre quando é necessária uma cesariana ou quando é a primeira cria da fêmea, uma literal inexperiência por parte dela.
Em setembro último, a maltês Manu, 3, foi mãe pela primeira vez. Logo após o parto, ela não teve as reações normais de limpar e alimentar os filhotes e comer a placenta. Deixou os pequenos de lado, ignorando-os.
''Sorte que estávamos acordados e vimos que ela estava parindo. Então, eu e meu marido pudemos limpá-los e colocá-los para mamar. O instinto materno dela só foi aparecer depois de uma semana. Mas, felizmente, todos os quatro filhotes sobreviveram e estão bem hoje", comemora a dona da cadela, Adriana Fernandes, 35, professora.
Importantíssimo para que os filhotes sobrevivam é a ingestão de colostro, o primeiro leite a sair das tetas da mãe, nas primeiras 24 horas de vida. Ele contém os anticorpos necessários para o filhote sobreviver. Há no mercado substitutos para o leite materno que podem ser ministrados em caso de rejeição. Não se pode esquecer também que a mãe, em geral, lambe o filhote para que ele urine e defeque. "É preciso simular isso com um algodão úmido caso a fêmea não o faça'', explica o veterinário Rodrigo Lamas Lopes, especializado em reprodução animal.
Os veterinários afirmam que nem sempre o filhote rejeitado sobrevive. É legítimo, porém, que se tente fazer isso com animais já domesticados ou que vivem em cativeiro, como aconteceu nos casos dos ursos alemães. ''Se o bicho fosse reintroduzido na natureza e tivesse de lidar com predadores, o contato humano poderia ter sido prejudicial. Mas, para animais de zoológico e domésticos, não vejo um grande problema", acha Daniel.
Afinal, eles nascem, crescem e vivem cada dia mais com a interferência constante do homem.
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