Equilíbrio
18/08/2008 - 11h19

Manter aquário ou lago particular tem efeito terapêutico

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RICARDO BONALUME NETO
da Revista da Folha

É difícil imaginar peixes como animais domésticos queridos e paparicados. Ao contrário de cães e gatos, eles nem pedem nem oferecem carinho. O francês Francis Cabrel usou-os como símbolo dessa falta de amor: "se você chora por um rapaz / você não será a última / muitas vezes os peixes são bem mais afetuosos", diz a letra de uma de suas músicas.

Claro, é comum ver mulheres que adoram canalhas com a sensibilidade de um tubarão-branco, em vez de ficarem com o cara fofo e bonzinho. Piranhas também não costumam ser afetuosas com seres humanos --embora seja mais fácil criá-las em aquários domésticos do que a tubarões ou a arraias. Infelizmente não existe como acariciar a cabeça do seu peixe predileto, seja uma piranha, seja um ser menos agressivo. Peixes não gostam de ser tocados.

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Beleza das plantas e movimento dos peixes têm papel terapêutico; criação pode ser feita em aquários, tanques ou laguinhos
Beleza das plantas e movimento dos peixes têm papel terapêutico; criação pode ser feita em aquários, tanques ou laguinhos

Ter aquários e tanques está mais para hobby ou decoração e paisagismo, do que para o prazer de ter um bicho em casa. Só que mesmo peixes têm suas "personalidades": uns são rapidinhos, outros andam em bando, outros são invocados e brigam com os colegas.

Um aquário não é apenas uma peça de decoração viva. Em escolas, os aquários têm um importante papel didático, especialmente nesta época em que o ambientalismo triunfa --pois um tanque com peixes e plantas não deixa de ser um pequeno ecossistema. A beleza das plantas de várias formas e o movimento de peixes de várias cores também têm um papel razoavelmente terapêutico. Já se mostrou medicamente que contemplar um aquário tem um efeito "ansiolítico" -ajuda a diminuir a ansiedade e a tensão. Isso explica a sua presença em consultórios de médicos e dentistas.

Você pode criar seus peixes em aquários, tanques ou laguinhos e --na falta de palavra melhor-- em um "tanquário", híbrido dos dois.

Bactérias aeróbicas

Começando pelo nome, "aquarium", foram os romanos que inventaram a moda no Ocidente. Egípcios e, claro, chineses foram pioneiros da piscicultura, a criação artificial de peixes (ornamental ou para alimentação).

A popularização moderna do aquarismo só viria no Ocidente no século 19, quando se tornou mais fácil criar peixes em aquários de vidro. No século 20, a eletricidade permitiu iluminar os aquários e criar bombas de ar para oxigená-los. Algo hoje tão comum como comprar um peixinho e trazê-lo para casa em um saco de plástico transparente começou de fato na década de 1950, com a invenção dos tais saquinhos.

Os aquários também evoluíram e, principalmente, os equipamentos para manter os peixes vivos, entre os quais o mais importante, o sistema de filtragem da água. Para ter um aquário, basta ir a uma loja ou pedir ajuda a um adolescente "nerd" interessado na coisa. Não é só abrir a torneira, encher de água um tanque e jogar uns peixes dentro --eles morreriam em horas, já que não suportam água clorada.

Na década de 1970 --quando este repórter era um adolescente "nerd"--, os filtros mais comuns eram meramente mecânicos. Um pequeno compressor de ar forçava a passagem da água por um recipiente de plástico onde havia carvão ativado (para remover substâncias tóxicas) e lã de vidro (onde os resíduos ficavam presos).

Para evitar estressar os peixes toda vez em que era preciso limpar o filtro, surgiram versões penduradas externamente ao aquário. E, por fim, vieram os filtros biológicos: a água passava por placas debaixo do substrato do fundo, areia ou cascalho, estimulando a criação de colônias de bactérias aeróbicas (elas não são maníacas por exercícios; são micróbios que precisam de oxigênio e cuja função no aquário é transformar os dejetos em compostos não-nocivos).

Compostos de nitrogênio --nitratos, nitritos- não chegam a ser um problema em aquários de água doce, mas têm de ser vigiados, assim como a amônia, nos de água salgada. Junte-se a isso a necessidade de manter uma salinidade correta; a maior fragilidade e o preço exorbitante dos peixes de mar; a necessidade de equipamento extra, como um "coador" de proteínas; e é fácil concluir o porquê de ser bem mais prático e barato optar por um aquário de água doce.

O filtro mais moderno serve para água doce ou salgada. O "dry/wet" ("seco/molhado") é na prática um segundo aquário alojado debaixo do primeiro. Bombas subaquáticas jogam a água para o aquário em cima e voltam por um encanamento para o filtro, que tem uma primeira parte para a limpeza mecânica e depois um compartimento onde a água goteja sobre "bioballs" --bolas de plástico e cerâmica na qual se alojam as bactérias do bem. Um sistema semelhante é usado para pequenos tanques ao ar livre.

Que peixes escolher

Os aquários mais comuns são os "comunitários". Não é conveniente misturar peixes grandes com pequenos, que podem virar petiscos dos maiores. Mas não se deve pôr peixes acostumados com água ácida --como os da Amazônia-- com aqueles vindos de lagos africanos --que preferem água alcalina. Peixes que vivem em cardumes gostam da companhia de outros da mesma espécie.

Nos tanques externos, o ideal é colocar os de água fria, como carpas japonesas nishikigoi (Cyprinus carpio) ou peixes-dourados (Carassius auratus), que agüentam frio de até 4ºC; ou outros que não se incomodem tanto com quedas de temperatura menores. Na casa deste velho repórter, há uma fonte e um tanque no quintal com espadas (Xiphophorus hellerii). A família biológica à qual eles pertencem --Poeciliidae-- é comum na América Latina e tem uma função prática: são peixes que adoram larvas de mosquito. Dengue no próprio quintal, nem pensar!

Já o "tanquário" recebeu peixes maiores, quatro carpas nishikigoi. Trata-se de um tanque com uma parede de vidro colocado estrategicamente no corredor em frente ao escritório, voltado para o computador. A sua contemplação, portanto, tende a atrasar textos como este.

Há ainda um terceiro criadouro na casa, um aquário com cerca de 400 l na sala, bem em frente à poltrona de leitura e feito sob medida para ocupar em comprimento a parede. E também atrasar a leitura de livros. A escolha foi de peixes tropicais, principalmente amazônicos, como o pequeno e colorido tetra-cardeal ou tetra-neon (Paracheirodon axelrodi) --uma amiga chamou de "peixe fashion". Não poderia faltar o "rei" amazônico, o acará-disco (gênero Symphysodon, espécies: S. aequifasciatus, S. haraldi e S. discus). Como diz o nome, é achatado e redondo como um CD. É um peixe que resume bem os problemas de desenvolvimento da Amazônia. É coletado e exportado. Mas um ribeirinho recebe apenas R$ 1 por um disco selvagem de bom tamanho; o peixe termina vendido por R$ 60.

Criadores na Ásia conseguiram produzir variedades mais vistosas do acará-disco, nas cores vermelho, laranja e turquesa, algumas vendidas a mais de R$ 1.000 (entre os de água salgada, há vários mais caros).

Ironicamente, essas variedades do disco costumam ser importadas --colocando o Brasil na exótica situação de comprar no exterior um peixe "amazônico". Não parece ser uma maneira sensata de explorar a tão propagandeada "biodiversidade" da região...

 

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