Equilíbrio
20/10/2008 - 12h42

Perdido na cidade, frango-d'água volta ao Ibirapuera em busca do lar

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FLÁVIA GIANINI
da Revista da Folha

O frango-d'água caminha sobre a vegetação do parque Ibirapuera com olhar atento, como se estivesse fazendo o reconhecimento da área. A poucos metros, um time formado por biólogos, veterinários e técnicos torce para que ele se sinta em casa.

Ele foi encontrado perdido na rua por um morador do bairro Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, no dia 7. Na manhã seguinte, foi levado ao zoológico do município da Grande São Paulo e, de lá, encaminhado à Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Biologia da Fauna da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente.

Beatriz Toledo/Folha Imagem
Ave aquática migratória, frango-d'água foi solto no parque Ibirapuera para que reencontre o caminho de volta para casa
Ave aquática migratória, frango-d'água foi solto no parque Ibirapuera para que reencontre o caminho de volta para casa

Ave aquática migratória presente em várias partes do país, o representante da espécie Porphyrio martinica é raro de ser encontrado em ambiente urbano. O animal é jovem, e o mais provável é que tenha se perdido ao se desviar da sua rota habitual.

Depois de ser examinado, recebeu uma anilha (pulseira com código de identificação que contém informações como origem, idade, sexo, reprodução etc.). Assim, o frango-d'água estava preparado para voltar à natureza.

Como a espécie já foi vista no Ibirapuera, ele foi solto após dois dias no próprio parque, na esperança de que reencontre o caminho de casa. É dentro do Ibirapuera que funcionam a divisão e também o hospital especializado em tratar animais silvestres (espécies nativas do Brasil) doentes e machucados. Eles recebem "pacientes" resgatados pela população ou que são encaminhados pelo Corpo de Bombeiros, pela Polícia Ambiental e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

"Muitos são recolhidos em ações policiais de repressão ao contrabando e são trazidos quase mortos", explica a diretora da Divisão de Fauna, Vilma Geraldi. Outros tantos chegam em estado deplorável depois de serem vítimas de linhas de pipa, rede elétrica, animais domésticos e atropelamentos. "Alguns são baleados por caçadores", conta Hilda Franco, veterinária do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas).

De volta para casa

O município de São Paulo tem 430 espécies de animais silvestres catalogadas. A maioria são aves, 70% dos bichos recebidos pela divisão. O restante são mamíferos (20%) ou répteis (10%). "A urbanização desaloja esses animais, que encontram refúgio nos parques", diz a diretora.

A rotina é intensa no centro, que funciona 24 horas por dia, e abriga atualmente 300 animais. Sua capacidade é de até 500.

Os hóspedes têm necessidades bem distintas. Os 30 funcionários se revezam em atividades como dar mamadeira a bebês de macacos, preparar sopa de minhoca para aves e criar grilo, rato e barata para alimentar os bichos.

Reintroduzir com sucesso o animal silvestre na natureza é o objetivo de um trabalho que começa no salvamento e não termina quando ele é levado de volta ao seu habitat. "Eles são monitorados para tentarmos garantir que vão conseguir sobreviver sozinhos", diz Vilma.

Monitorar significa, muitas vezes, dormir semanas no meio da mata e passar noites em claro (no caso de acompanhar animais de hábitos noturnos) para readaptá-los. Nos casos em que o animal se desacostumou à vida selvagem, é preciso ensinar novamente o bicho a voar e até a caçar.

Mesmo com todo o esforço, só 51% dos animais recolhidos voltam para casa. O restante é encaminhado para parques ou criatórios de conservação. A troca também exige adaptação. Afinal, eles vão enfrentar a selva paulistana.

 

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