Protetores pregam castração de cães e gatos contra abandono
FLÁVIA GIANINI
da Folha de S.Paulo
O cruzamento de Spike, 2, e de Kiara, 1, -um simpático casal de lhasa apso- resultou em quatro filhotinhos, uma fêmea e três machos. O nascimento, há uma semana, foi festejado na casa da fonoaudióloga Cláudia Saltini, 46, e do publicitário Alberto Penteado, 56. "Eles são lindos."
Os filhotes foram divididos irmamente: dois vão ficar com os proprietários do "pai" e a outra metade vai morar com os criadores da "mãe".
| Arquivo Pessoal |
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| O casal de lhasa apso Spike (à esq.) e Kiara são pais de quatro filhotes cuja chegada foi festejada na casa de Cláudia Saltini |
É um final feliz que contempla o desejo de uma família que leva a sério o conceito de posse responsável. Tanto é que decidiram também pela castração de Spike, adquirido antes da regulamentação da lei municipal nº 14.483, em abril de 2008, que prevê que todo animal de estimação seja comercializado devidamente esterilizado. As crias de Spike também serão castradas.
O tema é polêmico, como demonstram as mensagens publicadas na seção Curtas Cartas em resposta à reportagem "Encalhado" (exclusivo para assinantes da Folha e do UOL), em que a colunista da Folha Mônica Bergamo relata as dificuldade do seu schnauzer João, 5, para encontrar uma namorada.
"O problema vivido pela colunista é típico de tantos outros proprietários de animais", explica Marco Ciampi, presidente da ONG Arca Brasil. "Devemos lembrar que o impulso e o instinto do animal é pela reprodução."
A entidade defensora do bem-estar dos animais, no entanto, recomenda a todos os donos que castrem seus pets e que a reprodução da raça fique restrita a criadores profissionais. "As fábricas de filhotes devem ser combatidas a todo o custo", afirma ele.
No centro da questão do controle da reprodução dos animais, está o drama do abandono dos filhotes indesejados. De acordo com dados do Centro de Controle de Zoonoses, existem cerca de 150 mil cães abandonados na capital. Para os militantes da causa, incentivar a procriação do animal de estimação nesse contexto revela descompromisso e descaso. "Quase sempre o proprietário tem interesse em manter um filhote, mas não se preocupa com o que fará com todos os outros que surgirão dessa cruza", afirma Vanice Orlandi, presidente da União Internacional Protetora dos Animais.
Ela defende uma medida radical: qualquer tipo de procriação deve ser suspensa por alguns anos. "Até que o excedente populacional venha a decrescer", diz.
Para os criadores profissionais, acabar com a reprodução de animais não é a solução. "Quem compra um filhote de um bom criador geralmente cuida muito bem dos seus animais", rebate as críticas o veterinário Ailton Blois, supervisor do Kenel Clube São Paulo. "É mais comum ser displicente com aquilo que não se paga."
A crítica dos protetores recai sobre o fato de que, na hora de vender um animal, o criador não quer saber se o comprador tem condições para manter aquele cão ou gato sob a sua guarda. "Já as entidades colhem dados para se certificar de que o interessado em adotar possui condições para ter um animal", argumenta Vanice.
| Arquivo Pessoal |
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| Os quatro filhotes de Kiara e Spike --uma fêmea e três machos-- nasceram há uma semana e foram divididos entre donos dos pais |
Ao dar o pet em adoção, as ONGs observam o poder aquisitivo da família, a disponibilidade de tempo e as condições de alojamento, entre outros critérios que possam dar a mínima garantia de que o bicho será bem tratado e não corre risco de ser novamente abandonado. Abandono é crime, punível com multa e de três meses a um ano de prisão. "Já a procriação domiciliar não é recomendada, mas é um direito dos proprietários desde que se responsabilizem totalmente pelas crias", afirma Marco Ciampi.
Licença para procriar
Em países como os EUA, quem quiser manter um animal sem castrar paga o dobro do valor da licença anual exigida dos proprietários. O valor pode chegar a US$ 100. Algumas cidades vendem licenças para procriação. Os recursos são aplicados em programas de subsídio para a castração e o controle da reprodução dos animais. Com medidas como essas, o país reduziu de 12 milhões para 4,5 milhões o número de cães e gatos sacrificados anualmente.
Desde que a schnauzer Looppy, 6, era um filhotinho, o publicitário Wagner Poggetto, 46, e a enfermeira Simone Del Poggetto, 35, se depararam com a dúvida: castrá-la ou não? Os argumentos a favor da castração são fortes. Mas, por ser uma cirurgia definitiva, a decisão foi sendo adiada.
"Se você tem certeza de que não quer mais cachorros, ótimo. Mas e quando a vontade existe?", questiona Simone. O casal lidava com a questão a cada novo cio, especialmente por saber os benefícios da intervenção.
O tempo passou, e Loopy não teve filhotes. Agora, ela está entrando na "terceira idade", e a castração não é mais indicada. A cadela passa por acompanhamento veterinário regular após cada período fértil. "Ela faz exames para verificar o estado do útero e das mamas e evitar complicações comuns na velhice", explica Simone. Segundo a veterinária Ana Luiza Mazorra, o receio da maioria dos proprietários ao chegar ao seu consultório é em relação à intervenção cirúrgica. "Explico que os riscos são mínimos e as vantagens, muitas", relata. "Mas, se não há chance de cruzamento indesejado, uma parte prefere evitar."
A cirurgia consiste em retirar os testículos do macho e o ovário e o útero da fêmea. A intervenção pode durar até duas horas. O cão chega a receber alta no mesmo dia e deve ficar em repouso leve por uma semana até a retirada dos pontos. Período em que precisa tomar analgésico, anti-inflamatório e antibiótico para evitar complicações.
No hospital veterinário Sena Madureira são realizados, em média, 20 castrações por mês, que custam entre R$ 300 e R$ 400, para o macho, e R$ 400 e R$ 600, para a fêmea. Em clínicas conveniadas à prefeitura, o preço varia de R$ 100 a R$ 200.
É uma saída cirúrgica para a crise de superpopulação animal.
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