Diretor da PF diz que houve "equívoco" em afastamento do nº 2 da instituição
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
Pela primeira vez depois da determinação da Justiça para afastar o segundo homem da hierarquia da Polícia Federal, o diretor-geral da instituição, Paulo Lacerda, lamentou hoje a saída de Zulmar Pimentel, com quem disse ter uma amizade de mais de 30 anos. Esquivando-se de criticar a decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça), ele disse que o afastamento foi um 'equívoco'.
"É possível que tenha havido algum equívoco no afastamento dele [Pimentel]. Confiamos plenamente na decisão da ministra [Eliana Calmon], a qual reputamos como uma pessoa competente e justa", afirmou Lacerda.
Em seguida, Lacerda acrescentou: "posso afiançar que ele [Pimentel] tem o perfil de homem íntegro. Nunca deu motivos para se duvidar da sua idoneidade. Ao contrário, sempre se caracterizou pelo rigor nas suas ações".
Denunciado de ter vazado informações sigilosas para colegas investigados pela Operação Navalha, o delegado Zulmar Pimentel foi afastado das funções de diretor-executivo da PF pela ministra Eliana Calmon, do STJ, responsável pelo relatório do inquérito da Operação Navalha.
Além de Zulmar, a ministra determinou o afastamento dos delegados Antônio César Nunes, superintendente da PF na Bahia, e Paulo Bezerra, atual secretário de Segurança Pública do Estado --mas em relação a este último a PF disse que nada poderia fazer pois ele cumpria funções no Estado.
Zulmar foi afastado por 60 dias porque, conforme investigações preliminares, teria avisado ao colega e superintendente regional da PF no Ceará, João Batista Paiva Santana, que estava sob suspeita de envolvimento com a máfia.
Segundo Lacerda, Zulmar foi ao Ceará cumprindo uma determinação sua para avisar a Santana que ele seria afastado do cargo e que o ato de exoneração seria publicado no "Diário Oficial" do dia seguinte. "Não queríamos que ele [Santana] soubesse da determinação pelo 'Diário Oficial'", disse o diretor-geral.
Renan
Lacerda explicou que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não está sendo investigado pela PF. Segundo a revista "Veja", Calheiros recebia dinheiro do lobista Cláudio Gontijo, ligado à construtora Mendes Júnior, para pagar despesas pessoais.
Segundo o diretor-geral da PF, o senador tem foro privilegiado no STF (Supremo Tribunal Federal), que deve determinar se a polícia deve ou não ser acionada.
"Ele [Renan] é uma autoridade que goza de foro especial no STF a quem compete dizer se há motivos para a PF ser acionada ou não. Nesse instante, não há nenhum papel da PF a ser desempenhado', afirmou o diretor-geral.
Abusos
De forma indireta, o diretor-geral respondeu hoje às críticas de que a PF esteja cometendo abusos nas suas ações. Mas admitiu que é preciso "atualizar os códigos" da polícia, embora não tenha revelado os ajustes que precisam ser feitos.
"A PF age como as polícias do mundo baseada em princípios de legalidade e está sob o controle do Ministério Público", disse ele.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e parlamentares, as ações da polícia têm sido alvo de várias críticas principalmente sobre supostos excessos. "Nesses quatro anos e meio [que está à frente da PF] nunca houve monotonia", disse Lacerda.
Ao contrário do que afirmava até a saída do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, Lacerda, desta vez, não comentou quando pretende deixar o comando da PF. Segundo ele, o ministro Tarso Genro (Justiça) pediu que ele permanecesse no cargo. "Não depende de mim, mas do ministro da Justiça."
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