Relator do caso Renan desiste de entregar o cargo após telefonema da mulher
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
O senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA), relator do processo por suposta quebra de decoro parlamentar contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), desistiu de entregar o cargo. Ele ameaçou deixar a relatoria caso o Conselho de Ética adiasse a votação para terça-feira --como acabou sendo decidido hoje.
Cafeteira disse que voltou atrás na disposição de entregar o cargo depois de receber um telefonema de sua mulher, a quem rendeu elogios ao longo da sessão do conselho, para acatar a proposta alternativa. "Atendendo a um pedido da minha mulher e do senador Renan, eu aceito prorrogar", disse o relator.
O curioso é que Cafeteira admitiu que foi o próprio Renan que ligou para sua mulher pedindo que ela intercedesse junto ao marido para adiar a votação. "Eu devo a vida a esta mulher. Não podia negar um pedido dela", justificou o senador.
Antes dessa ligação, Cafeteira insistia em entregar o cargo e queria que a votação acontecesse hoje. "Se querem a mudar a data, entrego à senadora Ideli [Salvatti, do PT-SC] o cargo para me substituir. Não vou ficar desmoralizado. Não encontrei nenhum documento contra o presidente do Senado", disse antes.
Cafeteira já sugeriu o arquivamento do processo contra Renan por falta de provas. Ele dizia que se a votação fosse adiada, o relatório "perderia a razão de ser" porque incluía apenas as denúncias sobre o suposto uso da Mendes Júnior, por parte de Renan, para pagar despesas pessoais.
Mas Renan e seus aliados manobraram para adiar a votação após as denúncias do "Jornal Nacional", da Globo, de que o peemedebista apresentou notas falsas de venda de gado para justificar sua renda.
Renan é acusado de usar o lobista Cláudio Gontijo, da Mendes Júnior, para pagar o aluguel e pensão da jornalista Mônica Veloso --com quem tem uma filha.
O argumento dos aliados é que precisa periciar os documentos apresentados por Renan e contestados pela reportagem sobre os ganhos obtidos com a venda de gado.
A oposição também queria mais tempo para aprofundar as investigações. O DEM, PSDB e PDT querem ouvir o advogado de Mônica e Gontijo.
Reviravolta
Renan preferiu não se manifestar sobre a decisão do Conselho de Ética de adiar para a semana que vem a votação do relatório que o absolve no processo por quebra de decoro parlamentar. Ele deixou o Senado sem falar com os jornalistas.
Segundo assessores, o senador foi para sua residência oficial e não retorna mais nesta sexta-feira ao seu gabinete.
Foi o próprio Renan que pediu o adiamento após reviravolta no possível placar de votação. Ele esperava contar com os votos dos senadores Renato Casagrande (PSB-ES) e Eduardo Suplicy (PT-SP) --que defenderam investigar as novas denúncias.
A Folha Online apurou que Renan contava informalmente com votos de oito dos 14 integrantes do conselho, uma vez que o presidente do órgão, Sibá Machado (PT-AC), só vota em caso de empate.
Se Casagrande e Suplicy defendessem formalmente a continuidade das investigações, a votação terminaria empatada. Nesse caso, o presidente da Casa preferiu o adiamento a arriscar uma mudança de posição de mais um senador no caso.
Segundo a Folha Online apurou, alguns senadores ficaram constrangidos de defender hoje a absolvição de Renan depois das novas denúncias reveladas pela TV Globo.
Leia mais
- Após novas denúncias, Conselho adia votação de caso Renan para terça
- Renan evita comentar adiamento da votação de processo no Conselho de Ética
- Renan nega tentativa de influenciar votação e diz querer mostrar "verdade"
- Renúncia agora não evitaria cassação de Renan Calheiros
- Reportagem coloca em dúvida lucro de Renan com venda de gado
Especial

