Emocionado, Roriz apresenta defesa e coloca seus sigilos à disposição da Justiça
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
O senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) negou nesta quinta-feira, em discurso no Senado, ter cometido atos ilícitos e colocou seus sigilos fiscal, bancário e telefônico à disposição da Justiça.
Roriz mostrou dois papéis em branco, assinados por ele, permitindo que a Polícia Federal escreva o "texto que achar conveniente, para pesquisar em qualquer lugar do mundo, se tem alguma conta bancária que não seja a do Senado". O outro, segundo ele, é para ser encaminhado à Justiça autorizando a quebra de seus sigilos fiscal, bancário e telefônico e os de sua família também.
Afirmando estar envergonhado, o senador disse que pensou em se licenciar e até renunciar ao cargo. Mas depois preferiu se colocar à disposição dos colegas de plenário, da Justiça e de quem mais se interessar. "Se encontrarem algo que me denigre eu farei o que o Senado determinar", disse ele para um plenário quase vazio.
"Mesmo não cometendo nenhum ilícito, me sinto envergonhado. Em toda minha carreira política, jamais confundi a questão publica da questão privada. Sempre mantive um comportamento ético no trato do interesse público. Aprendi esta lição há muito tempo e nunca me desviei deste caminho, afirmou.
O senador é alvo de denúncias investigadas pela Operação Aquarela, que desmontou um esquema de desvios de recursos no BRB (Banco de Brasília). Ele teria negociado R$ 2,2 milhões de origem não conhecida.
Conversas gravadas em 13 de março, com autorização judicial, registraram o senador supostamente combinando partilha de dinheiro com Tarcísio Franklin de Moura, ex-presidente do BRB.
Ao tentar explicar trechos da escuta telefônica gravada pela polícia nas investigações, Roriz disse que "nem sempre a conversa telefônica tem correspondência com os fatos", disse.
Em seu discurso, o senador fez questão de ressaltar que o dinheiro é fruto de um empréstimo solicitado a um amigo de mais de 20 anos: o empresário Constantino de Oliveira, conhecido como Nenê, presidente do Conselho de Administração da Gol.
Segundo Roriz, o empréstimo foi feito para que pudesse pagar um animal que adquiriu em um leilão. Sem dar detalhes sobre valores, nem as negociações, o senador disse que enviou cópia dos documentos para os gabinetes dos senadores.
Constrangido
Em um discurso emocionado, o senador disse se sentir "profundamente constrangido". "Sinto-me profundamente constrangido, triste de falar de questões pessoais, mas tenho humildade necessária para isso. Será que um senador não pode pedir emprestado [dinheiro] a um amigo de longa data? Existe algum artigo no Código Penal e no regimento do Senado que pedir dinheiro emprestado é crime, é ilegal?", questionou.
Roriz também fez um alerta sobre as denúncias: "Hoje sou eu. Amanhã, poderá ser vossa excelência [Tião Viana, PT-AC], que presidia a sessão no Senado".
Governo
Roriz disse ser fiel a seu partido e fez questão de ressaltar que sempre votou com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora contrariando seu desejo particular. "Nunca deixei de votar as mensagens do Lula. Sou coerente com meu partido", afirmou.
O senador também reclamou ainda do que chamou de "massacre da imprensa" contra ele e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), investigado pelo Conselho de Ética da Casa por quebra de decoro parlamentar.
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