Após ser flagrado, Lewandowski procura colegas para se explicar
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
Flagrado falando ao telefone pela Folha, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), procurou hoje cada um dos nove colegas para se explicar. No telefonema, ele disse que os ministros julgaram as denúncias dos 40 acusados no mensalão com a "faca no pescoço" e pressionados pela mídia. Na conversa com os colegas, ele negou as insinuações.
| Alan Marques/Folha Imagem |
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| O ministro do STF Ricardo Lewandowski disse que o Supremo votou "com a faca no pescoço" |
Ao ministro Marco Aurélio Mello, Lewandowski disse que "os fatos não são aqueles estampados". Ao ser questionado sobre a possibilidade de ser real o que o ministro conversou ao telefone, Marco Aurélio reagiu. "Se realmente o que está no jornal for verdade, for de absoluta procedência nos termos, é um pecadilho lamentável", disse.
Marco Aurélio contou que Lewandowski estava constrangido e aborrecido com a divulgação de sua conversa telefônica. Segundo o ministro, Lewandowski disse que "ele teria conversado, mas não teria dito que todos atuaram com a faca no pescoço".
De acordo com Marco Aurélio Mello, se Lewandowski analisou que todos atuaram sob pressão, tirou pelo próprio exemplo. "Não estou asseverando que é procedente o que está na Folha. Se procedente, ele [Lewandowski] se referiu a todos, e se inclui. Agora que ele não tenha nos julgado por ele próprio", disse ele.
Foi a segunda vez que Lewandowski teve comentários particulares divulgados pela imprensa. Durante o julgamento das denúncias do mensalão, Lewandowski e a ministra Cármen Lúcia tiveram correspondências eletrônicas registradas e divulgadas pelo jornal "O Globo".
Conversa
Reportagem exclusiva de Vera Magalhães, do Painel da Folha, publicada na edição desta quinta-feira, informa que Lewandowski disse que a "imprensa acuou o Supremo" no julgamento que decidiu pela abertura de ação penal contra os 40 acusados de envolvimento no mensalão.
"Todo mundo votou com a faca no pescoço", afirmou Lewandowski, segundo a reportagem da Folha. "A tendência era amaciar para o Dirceu."
O telefonema durou cerca de dez minutos e foi testemunhado pela Folha. Lewandowski jantava acompanhado no recém-inaugurado Expand Wine Store by Piantella, na Asa Sul, em Brasília.
Sem mencionar nomes, a presidente do STF, ministra Ellen Gracie, divulgou nota contestando as críticas, entre elas a do ex-ministro José Dirceu, um dos réus no mensalão, que disse que o julgamento está sob suspeição.
Os ministros Carlos Ayres Britto e Gilmar Mendes também rebateram as insinuações. Ambos negaram ter votado com a "faca no pescoço". Também disseram que não houve pressão para forçá-los a aceitar as denúncias de envolvimento no mensalão.
Autofagia
Para Marco Aurélio Mello, a possibilidade de o ministro Eros Grau, do STF, processar Lewandowski --que nas conversas eletrônicas levantou suspeita sobre o voto dele no julgamento dos denunciados no mensalão-- traria prejuízos à Suprema Corte. "[Seria uma] autofagia, autodestruição das células pelas próprias enzimas". Algo que apenas desgasta o perfil do Supremo. Não creio que haja essa iniciativa por parte do ministro Eros Grau", disse ele.
Procurado pela Folha Online, Eros Grau evitou comentar o assunto. Também não comentou se já decidiu sobre a possibilidade de ingressar com uma interpelação judicial contra Lewandowski. A ação tramitaria no próprio STF, onde ambos são ministros.
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