Brasil
24/10/2007 - 09h01

Governo federal pró-álcool roda a gasolina

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LETÍCIA SANDER
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Apesar da pregação de Luiz Inácio Lula da Silva na defesa dos biocombustíveis, assumindo o papel de mascate do álcool em suas viagens pelo mundo, os carros oficiais usados pelo próprio presidente e pela grande maioria de seus ministros são movidos a gasolina.

Levantamento feito pela Folha mostra que só 2 dos 37 ministros têm veículos oficiais com motor flex (funcionam tanto a gasolina quanto a álcool). A alegação de muitos ministérios é a de que à época da compra, não havia modelos flex ou a álcool com as especificações necessárias disponíveis no mercado.

As aquisições foram feitas em períodos diferentes -há desde modelos 1996 a carros do ano passado.

A frota ministerial em muitos casos contraria a lei 9.666, de 1998, que trata da substituição gradual dos veículos oficiais. A lei previa que, a partir de então, qualquer aquisição ou substituição de veículos leves para compor a frota oficial "somente poderá ser realizada por unidades movidas a combustíveis renováveis", uma tentativa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) de estimular os carros a álcool --ainda não havia o mercado de carros flex.

Algumas autoridades estão excluídas da lei, como os titulares dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e de municípios, além de parte da frota das Forças Armadas.

A Casa Civil aponta problemas de mercado pelo fato de o governo não conseguir cumprir a previsão legal. Alega que os carros oficiais, comprados em licitações, precisam atender a requisitos. Um exemplo: O GSI (Gabinete de Segurança Institucional), explica a Casa Civil, exige que os carros do presidente, do vice e de órgãos essenciais da Presidência (alguns ministério, por exemplo) tenham motor com potência superior a 130 cavalos. E que a última compra da Presidência e de algumas pastas, feita em 2004, não encontrou veículos flex ou com motor a álcool que suprissem esta exigência.

Hoje já há no mercado carros flex com motor superior a esta potência --dois ministros do governo, Miguel Jorge (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) os usam.

Em alguns ministérios contatados pela Folha, assessores demonstraram um certo constrangimento sobre a falta de sintonia entre a teoria e a prática, no discurso do governo. "Vamos migrar. É que o carro [um Ômega] é de 1996. Vamos entrar na modernidade", afirmou a assessoria do Ministério da Agricultura. Outros criticaram o levantamento da Folha e afirmaram que se o governo renovasse a frota toda de uma vez, seria ainda mais criticado.

Segundo a Casa Civil, desde que atenda aos requisitos, a orientação é de que os veículos oficiais a serem comprados sejam movidos a combustíveis renováveis. Sem dar números, a Casa Civil afirmou que os carros utilizados por funcionários das pastas geralmente são a álcool ou flex, tanto que os gastos com os dois combustíveis muitas vezes se equivalem e, em alguns meses, os com álcool até são superiores.

A Folha levou em conta, no levantamento, apenas os carros dos ministros e do presidente, e não a frota dos ministérios, nem dos assessores presidenciais. Das 37 pastas com status de ministério, só a Secretaria Especial de Portos não informou o veículo utilizado pelo ministro Pedro Brito.

A maioria dos carros utilizados por ministros é do tipo Vectra --desde 2005 já um modelo flex com potência superior a 130 cavalos, segundo a fabricante. Em segundo lugar, a preferência recai sobre o Ômega, que não é produzido com motor flex. O carro do presidente Lula é um Ômega australiano. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é o único a utilizar um carro a diesel --uma Toyota Hilux.

A frota a gasolina do primeiro escalão do governo contrasta com a preferência da maioria da população. Dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que a participação dos veículos flex no mercado só cresce desde 2003, quando eles foram lançados. Naquele ano, os carros flex representaram apenas 4% das vendas. De janeiro a setembro de 2007, eles já são responsáveis por 85% das vendas. Também de acordo com a Anfavea, há hoje 63 modelos de carros flex no mercado, de nove fabricantes diferentes.

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