Leia a íntegra da entrevista concedida por Jilmar Tatto à Folha
da Folha de S.Paulo
Folha - A escolha do próximo presidente do PT estará ligada à definição de diretrizes da legenda para 2008 e também 2010. O sr. é de um grupo político identificado com a ministra e ex-prefeita Marta Suplicy. Sua eleição abriria portas para ela numa disputa presidencial?
Jilmar Tatto - Acho que é indiferente. O que temos que fazer é unificar o PT e fazer com que ele volte a organizar o movimento social e, ao mesmo tempo, comece a discutir um programa que dê continuidade às políticas que o governo Lula está fazendo e que aprofunde um programa com reformas estruturais, que ao meu ver tem três eixos: reforma política, reforma tributária e debate na sociedade sobre a democratização dos meios de comunicação. Defendo que a ministra seja candidata do PT à prefeitura de SP. Pelo que ela fez e por sua aceitação na cidade, é a melhor candidata. A questão de nomes à presidência, o PT tem vários nomes e vamos debater isso com tranqüilidade até 2009. E apresentar esses nomes à base aliada. Tem a Marta, Dilma, Patrus, Jaques. Nosso problema não são nomes, mas consolidar uma política e convencer a nossa base social que o melhor nome é do PT, convencer os partidos aliados e convencer o governo e o próprio presidente. É importante, para dar continuidade a esse projeto, ser um nome do PT pelo fato de o PT ser o maior partido do Brasil, da frente, da coligação. Nada mais justo que indicar o candidato a presidente da República.
Folha - O atual presidente do PT, Ricardo Berzoini, é criticado por algumas correntes do PT pelo alinhamento automático ao Palácio do Planalto. O presidente Lula já fez um apelo para que os aliados se unam em 2010 em torno de um nome comum e há o nome forte de Ciro Gomes (PSB-CE). A reeleição de Berzoini prejudicaria a postulação do PT?
Tatto - Está correto o presidente da República defender a unidade dos partidos que apóiam o seu governo. Ele tem que manter a governabilidade para manter a unidade. Agora, também é correto a direção e o presidente do PT defenderem o seu partido. O que queremos e pedimos é que a direção seja firme no sentido de defender os interesses partidários no processo de debate, disputa e convencimento dos aliados. Pelo histórico do ex-Campo Majoritário, às vezes servindo de correia de transmissão do governo, o partido não se posicionou de forma adequada na composição do governo. A relação se dá com pessoas de correntes [do PT] com o governo. E não pode ser assim. As pessoas que estão no governo representando o PT têm de representar o partido como um todo, e não esta ou aquela corrente. Então, em função disso, há uma desconfiança de que no debate sobre a sucessão de 2010 alguns companheiros possam, de pronto, aceitar a idéia de que é normal e natural que um candidato à Presidência seja da base aliada. Nada contra, eles têm direito de apresentar seus nomes, mas nós temos que nos posicionar. Ganha quem tem viabilidade eleitoral, quem consiga melhor expressar as conquistas de oito anos do governo Lula e quem conseguir apresentar um programa que aprofunde as reformas do país. Acho que um candidato (a) do PT é o que melhor representaria esse projeto. Sem arrogância, sem mandonismo.
Folha - O sr. acha que os petistas que estão hoje no governo, em volta de Lula, representam apenas uma corrente do PT, o ex-Campo?
Tatto - Não necessariamente o ex-Campo Majoritário, mas são de correntes. Eu preferia que fossem representantes do PT. Ou são de correntes ou estão lá por uma relação pessoal com o presidente Lula, cota pessoal, da relação de amizade. Mas não como representação partidária. Que mal tem isso? Primeiro, não é educativo. Segundo, você acaba fazendo o enfraquecimento dos partidos políticos. Terceiro, eventualmente há filiados do PT que não estão lá para defender os interesses partidários, o programa do partido. O governo Lula é um governo em disputa. Um governo de centro-esquerda. O presidente manda, define a linha política. Quando numa área há um ministro que não é do PT, às vezes ele faz uma política mais conservadora, ou tímida, ou que não privilegia assuntos que gostaríamos. Um exemplo é a reforma política. O Lula falou que seria vital para o país a reforma. A Câmara tentou fazer. Quando começamos a fazer aqui, a opinião do governo é que o governo não tinha opinião. Talvez se nós tivéssemos pelo menos um coordenador político do PT entre os quatro [Walfrido dos Mares Guia e os líderes Roseana Sarney, Romero Jucá e José Múcio, nenhum do PT] ajudasse. O PT precisa estar forte no governo para ajudar o Lula, não para atrapalhar nem ocupar espaço. Na eleição do Arlindo Chinaglia [à presidência da Câmara], o governo defendia outra posição, o Aldo Rebelo (PC do B). A bancada se unificou, fez a aliança com o PMDB. Era um erro político o governo não apoiar o Chinaglia. Naquele momento o PT se posicionou de forma firme, com opinião diferente do governo. Isso ajuda. A gente gostaria que o governo Lula fosse mais agressivo nas reformas estruturais. Talvez se houvesse um partido que empurrasse e ajudasse o movimento social a se organizar e a pressionar, isso ajudaria o próprio governo, pela história do Lula. São exemplos de que um PT não acuado, que se posiciona enquanto partido, ajuda o governo.
Folha - O PT viveu duas crises sérias em 2005 e 2006, com o mensalão e o caso dossiê. Como o sr. vê hoje o debate ético no PT? Esses problemas foram equacionados?
Tatto - Tem um companheiro nosso do PT, cristão, que cita Santo Agostinho. O cristão, quando comete algum pecado, primeiro tem que pedir perdão. Segundo, a penitência. É como se fosse um castigo. A penitência para um alto dirigente que comete um erro é voltar para a base, para a militância. E o terceiro ponto é não repetir o erro, prometer que não fará de novo. O que precisamos fazer no PT é criar mecanismos para que esses erros não sejam mais cometidos. Por isso temos que radicalizar a democracia no PT. Fazer com que as decisões sejam do coletivo, e não de um grupo. O PT precisa ter total transparência de seus atos, fazer o orçamento participativo do PT, com transparência nas finanças, transparência nas decisões políticas, nas movimentações de seus dirigentes, na relação com o presidente. O PT tem que fazer um código de ética, que não pode ser um elemento de disputa política. Tem que ser um pacto partidário que todos têm de cumprir. Pagamos um alto preço em função desses erros. O nosso tesoureiro foi expulso do PT, nosso secretário-geral também. Perdemos os segundo e terceiro homens. Não dá para dizer que não aconteceu nada. Foram atitudes gravíssimas de colocar operadores de campanha, com origem no PSDB, quase dentro da nossa estrutura partidária. Além da irregularidade, do caixa 2. É um grupo político do PT que se movimentou de forma inadequada, colocando o partido em risco. E quem salvou isso foi a militância. Os nossos dirigentes, deputados, senadores, que gostavam e gostam de usar o microfone, fugiram. Não defenderam o PT.
Folha - Na tríade de Santo Agostinho, o PT pediu perdão?
Tatto - Tem que pedir perdão quem erra. Na esquerda, a gente chama isso de fazer autocrítica. É um processo de construção coletiva. É um processo histórico, um momento histórico. Isso, na prática, está começando a acontecer. O deslocamento de setores que pertenciam ao ex-Campo Majoritário tem a ver com isso. No processo político você não pode colocar 500 pessoas lá na frente, o cara falando 'eu errei, eu errei' e você fuzila. É um processo complexo. O PT tem um forte elemento cristão, uma espécie de cristianismo primitivo. Acho que a militância aceitou o perdão.
Folha - O PT está preparado para 2010 sem Lula?
Tatto - A função da direção é exatamente essa, preparar o PT. O fato de estarmos discutindo isso agora já é bom. Aprovamos a candidatura própria no 3º Congresso em função disso. Não podemos deixar para 2010. Vai ter uma coisa boa no Brasil: pela primeira vez, o programa de governo vai ter um papel muito importante. Como o candidato (a) não vai ter o carisma do Lula, a força que vai mover a eleição vai ser o programa. Evidente que aí vem o partido, por isso tem que ser o PT, que é o maior partido. Tem uma lógica nisso, percebeu?
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