Leia íntegra das respostas de Ricardo Berzoini
da Folha Online
O PT realiza no domingo o primeiro turno das eleições para direções nacional, estaduais e municipais da legenda. A Folha Online enviou por e-mail um questionário com 15 perguntas para os sete candidatos à presidência do PT: Ricardo Berzoini, Valter Pomar, Jilmar Tatto, José Eduardo Cardozo, Markus Sokol, Gilney Viana e José Carlos Miranda.
Ao contatar os candidatos ou seus assessores, a reportagem informou que as respostas seriam publicadas na íntegra e que não havia um limite de espaço --ressaltando que respostas muito longas deveriam ser evitadas.
| Leo Caobelli/Folha |
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| Apontado como favorito, Berzoini tenta se reeleger presidente do PT neste domingo |
Leia abaixo as respostas dadas por Ricardo Berzoini, da chapa Construindo um Novo Brasil, para as perguntadas da Folha Online.
Folha Online - Na sua opinião, o PT deve ter candidato próprio nas eleições presidenciais de 2010?
Ricardo Berzoini - O PT é o partido do presidente Lula e o principal responsável pela estratégia que construiu as condições para deslocar à esquerda o cenário político nacional. Nossa responsabilidade, além de apoiar o governo Lula e apresentar propostas políticas que possam acelerar e aprofundar as mudanças econômicas e sociais, é construir um programa e uma candidatura que possam liderar o processo sucessório em 2010. Precisamos dar continuidade às conquistas atuais, buscando ampliá-las. O PT deve se preparar para disputar e vencer as eleições numa grande frente de partidos. A próxima direção do partido terá a tarefa de coesionar o partido e dialogar com outros partidos para isso. Respeitamos o direito de outros partidos postularem a mesma condição, mas entendemos que o PT pela sua capilaridade nacional, relação com os movimentos organizados e simbolismo político tem as melhores condições para liderar esse projeto.
Folha Online - Se eleito, o senhor aceitaria defender em 2010 um nome da coalizão, mesmo que ele não seja do PT?
Berzoini - Quem vai definir a candidatura do PT em 2010 é a militância do PT, nos seus fóruns estatutários, como é nossa tradição. Para isso, vamos realizar o 14º Encontro Nacional do partido em 2009, renovar as direções no 4º PED [processo de eleição direta] e definir nossa tática eleitoral. Mas a minha opinião é que o PT dever preparar sua candidatura e seu programa de governo.
Folha Online - O senhor aceita colocar como debate interno do PT a discussão sobre a realização de um terceiro mandato presidencial?
Berzoini - Essa é uma pauta artificial. Não há proposta nesse sentido no PT, e o presidente Lula já declarou inúmeras vezes que não aceita essa hipótese, que se transformou em neurose obsessiva para parcela da oposição. Realizamos recentemente nosso 3º Congresso, com quase mil delegados e ninguém formulou tal proposta. Entendemos que faria bem ao país fazer uma ampla reforma política, não para aprofundar o que temos hoje, mas para corrigir. Devemos aumentar o controle social sobre o sistema político, exigir fidelidade partidária, financiamento público e voto em lista. É preciso rever o papel do senado e suas suplências automáticas e, quem sabe, adotar um processo eleitoral com mandatos de cinco ou seis anos e eleições coincidentes.
Folha Online - Na sua opinião, o mandato presidencial deveria ser ampliado para cinco anos?
Berzoini - Eu entendo que sim. O sistema eleitoral atual é muito perverso para quem quer governar bem. Com quatro anos de mandato, eleições bienais, orçamento comprometido no primeiro ano e as restrições legais para repasse de recursos das esferas superiores para as inferiores no período eleitoral, o governante fica com pouco tempo para cumprir o programa de governo apresentado em campanha. A ampliação dos mandatos para cinco anos, associada ao fim da reeleição, dá mais tempo para obter bons resultados e a qualidade dos governos deve melhorar.
Folha Online - O senhor defende a inclusão da Venezuela como membro pleno do Mercosul?
Berzoini - É claro que sim. Precisamos investir na integração da América do Sul e com o diálogo entre os países periféricos do mundo. O Mercosul é estratégico para que a América Latina sedimente sua identidade cultural e assuma papel determinante nas relações econômicas mundiais e, para isso, o ingresso da Venezuela e de outros países no bloco será fundamental.
Folha Online - O senhor aprova as decisões recentes dos presidentes Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chávez (Venezuela) de realizarem mudanças nas Constituições de seus países?
Berzoini - Eu defendo a autodeterminação dos povos e a soberania das nações. A Bolívia e a Venezuela não são o Brasil e não nos cabe ler o que acontece por lá com os nossos óculos. Isso poderia ser um erro e evidenciaria algum preconceito. Para o Brasil eu defendo, por exemplo, mudanças constitucionais para várias áreas e entendo, inclusive, que adotemos com mais freqüência consultas populares por meio de plebiscitos e referendos. A democracia brasileira, para estar ainda mais sedimentada, precisa de mais povo, e não o contrário. Essa minha opinião, porém, não pode ser confundida com apoio ou crítica aos nossos vizinhos, que devem decidir os seus caminhos democrática e autonomamente.
Folha Online - Como o senhor vê a presença do Brasil no Haiti?
Berzoini - A presença do Brasil no Haiti demonstra nosso comportamento solidário com outras nações e com o respeito aos Direitos Humanos. É óbvio que esse tema provoca reações e polêmicas, mas julgo que a presença do Brasil no Haiti, numa missão de paz da ONU, tem contribuído para a construção da paz interna e a melhoria das condições sociais por lá. Nosso papel, porém, é contribuir para o estabelecimento pleno da democracia no Haiti, sem interferirmos na sua soberania.
Folha Online - Qual a sua opinião sobre a relação entre o PT e a mídia? Numa situação ideal, como ela deveria ser?
Berzoini - É uma relação conflituosa, com altos e baixos. O PT sempre foi acusado liminarmente, de maneira claramente preconceituosa, desde o caso de Leme nos anos 80 até a recente matéria da Folha que distorceu informações vazadas ilegalmente no caso Cisco. É necessário democratizar a estrutura da comunicação no país, abrindo espaço maior para a comunicação comunitária e para que os diferentes interesses da sociedade possam participar efetivamente de um sistema de comunicação. Isso passa pela legislação de concessões e também por um esforço da sociedade para organizar meios de comunicação vinculados aos interesses da maioria do povo.
Folha Online - Qual é o PT que ficou depois do partido ser acusado de envolvimento com várias denúncias, como a do mensalão?
Berzoini - Um partido mais experiente e mais consciente, inclusive em relação aos riscos do atual sistema político brasileiro. Ficou evidente que devemos nos empenhar pela reforma política, por exemplo. O financiamento público de campanha e o voto em listas são dois dos instrumentos para reduzir o personalismo e o poder econômico nas campanhas políticas. O PT sempre lutou para que a política fosse uma experiência coletiva e pública e com a crise de 2005 percebemos que é necessário reforçar esse caminho. O mesmo raciocínio vale para a organização partidária. É preciso ampliar a participação dos militantes petistas nos movimentos sociais, o que será ainda mais eficiente se acontecer pelo fortalecimento de nossos setoriais e da organização de juventude. Mais importante que isso, porém, é que todos os que participem da vida partidária estejam dispostos a fortalecer o PT, e não uma de suas partes em detrimento do conjunto. Creio que esse é o aprendizado mais importante.
Folha Online - Como o partido deve se posicionar para retomar as bandeiras da ética e se aproximar da militância de rua e dos movimentos sociais?
Berzoini - O PT nunca abandonou as bandeiras da ética e essa pergunta denuncia um grave preconceito com o PT. Entendo que é papel do PT defender que a ética pública contamine a política, ou seja, que haja em nosso país, de fato, uma ética da política, contrariando, assim, a lógica individualista, que parece preferir que a ética privada seja balizadora do comportamento dos atores políticos. A nossa defesa da ética da política localiza-se exatamente na defesa da radicalização da democracia, com a garantia de que os aparelhos de Estado atuem em favor do interesse público, que só é garantido com a ampla participação da sociedade na gestão pública e a democratização da vida política do país.
Folha Online - O senhor apóia as estratégias utilizadas pelos movimentos de trabalhadores rurais de ocupações e invasões para chamar a atenção para o problema da reforma agrária?*
Berzoini - O PT, desde sua fundação, defende a livre organização da classe trabalhadora. É papel do PT, portanto, respeitar suas demandas e autonomia. Eu fui dirigente sindical e sei como é importante o apoio do PT aos movimentos sociais, respeitada a autonomia dos mesmos. No caso específico dos movimentos que lutam pela terra, eles contam com a nossa solidariedade, dentre outros motivos, por considerarmos justo e inalienável o direito à moradia e ao trabalho digno. O contrário também é válido. O PT é irmão dos movimentos sociais brasileiros e a parceria com eles em 2006 foi fundamental para a vitória de Lula. Que saibamos manter esse vínculo sólido daqui pra frente.
Folha Online - O senhor apóia a realização de um plebiscito para rediscutir a privatização da Companhia Vale do Rio Doce?
Berzoini - O PT já deliberou sobre esse assunto e decidiu pelo apoio ao plebiscito organizado pelos movimentos sociais, que já foi realizado.
Folha Online - Na sua opinião, a Vale é um exemplo de privatização bem-sucedida?
Berzoini - A Vale foi vendida por um preço vil. Se usarmos a metodologia do fluxo de caixa e verificarmos o retorno para os investidores, é óbvio que foi um absurdo o preço, sem falar na privatização de grande parte do patrimônio mineral do Brasil e do fluxo de caixa decorrente dele, que poderia ser revertido para o interesse público. No governo FHC, o Brasil perdeu grande parte de seu patrimônio e ampliou suas dívidas interna, externa e social. Por isso, embora a Vale seja uma grande empresa bem sucedida, sua privatização não é a razão do sucesso. A Petrobras não foi privatizada, graças à resistência popular, e teve uma trajetória tão vitoriosa quanto a Vale.
Folha Online - O senhor aprova a política econômica do atual governo que prioriza a estabilidade econômica e o controle da inflação? O senhor defende uma aceleração na política de redução dos juros?
Berzoini - Eu aprovo a política econômica que tirou o Brasil do impasse econômico do governo FHC e reduziu a dívida interna, a externa e mais que duplicou as exportações. Por isso, não concordo que ela seja reduzida, na sua pergunta, à busca da estabilidade econômica e o controle da inflação. Embora eu sempre tenha dito, mesmo quando ministro, que deveríamos ser mais ousados na redução dos juros e do superávit primário, o que me coloca entre aqueles que tinham divergências pontuais, eu entendo que o presidente Lula acertou desde o começo, o que fica bastante claro pelo resultado atual da economia, que pode ser analisado, inclusive, pela redução desigualdade e crescimento sem precedentes do emprego, da renda e do crédito.
Folha Online - O senhor defende a realização de novas reformas tributária, previdenciária e política?
Berzoini - Vamos por partes. A reforma política é urgente para o país e minha opinião é bastante clara: devemos lutar por uma ampla reforma do sistema político, visando o fortalecimento dos partidos, a adoção de financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais, o voto para o parlamento em listas pré-ordenadas, o fim da reeleição, o fim das coligações nas eleições proporcionais, a revisão do papel do Senado, a garantia da fidelidade partidária e rigoroso combate à corrupção. A existência de instituições republicanas fortes é a principal garantia de que os interesses privados não subjuguem os interesses públicos.
Sobre a reforma tributária, nosso governo já realizou uma parte, e o desafio agora é unificar o ICMS, requalificar o IPI, e ampliar a progressividade do sistema. Em relação à previdência social, creio que o melhor é dar prosseguimento à atual política de combate às fraudes e sonegação, melhorar o controle tecnológico do sistema e ampliar a arrecadação, pelo aumento do emprego e dos salários. Essa conjunção de fatores já resultou em eliminação do desequilíbrio do sistema urbano e poderá reduzir a necessidade de financiamento na aposentadoria rural, bem ao contrário dos anos 90, quando a recessão induzida por políticas econômicas recessivas e indutoras do desemprego levaram à quase falência do regime geral de Previdência Social.
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