Leia íntegra das respostas de Jilmar Tatto
da Folha Online
O PT realiza no domingo o primeiro turno das eleições para direções nacional, estaduais e municipais da legenda. A Folha Online enviou por e-mail um questionário com 15 perguntas para os sete candidatos à presidência do PT: Ricardo Berzoini, Valter Pomar, Jilmar Tatto, José Eduardo Cardozo, Markus Sokol, Gilney Viana e José Carlos Miranda.
Ao contatar os candidatos ou seus assessores, a reportagem informou que as respostas seriam publicadas na íntegra e que não havia um limite de espaço --ressaltando que respostas muito longas deveriam ser evitadas.
| 26.nov.2007/Folha |
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| Jilmar Tatto, do grupo de Marta Suplicy, defende união de forçar contra o continuísmo |
Leia abaixo as respostas dadas por Jilmar Tatto, da chapa Partido é Pra Lutar, para as perguntadas da Folha Online.
Folha Online - Na sua opinião, o PT deve ter candidato próprio nas eleições presidenciais de 2010?
Jilmar Tatto - Com certeza. Nosso partido tem 972 mil filiadas e filiados em todo o país, tivemos uma enorme votação para nossos deputados federais nas eleições de 2006, só não somos a maior bancada em função de distorções da legislação eleitoral, possuímos a maior inserção no movimento social e o presidente Lula é de nosso partido. Somos a principal agremiação que dá sustentação ao governo e precisamos garantir o que vem ocorrendo nos últimos cinco anos: a continuidade da melhoria da qualidade de vida para a maioria população. Teremos, sim, uma candidatura e ela será apresentada aos partidos aliados.
Folha Online - Se eleito, o senhor aceitaria defender em 2010 um nome da coalizão, mesmo que ele não seja do PT?
Tatto - A nossa prioridade é termos uma candidatura do PT, pelos motivos já expostos. Se, por ventura, este nome petista não evoluir, teremos de debater a questão em nosso partido e, posteriormente, com nossos aliados.
Folha Online - O senhor aceita colocar como debate interno do PT a discussão sobre a realização de um terceiro mandato presidencial?
Tatto - Esse tema não está na agenda do PT. Nem agora, nem depois. Vivemos em um sistema democrático e, pelo bem das instituições, vamos respeitar as regras já colocadas.
Folha Online - Na sua opinião, o mandato presidencial deveria ser ampliado para cinco anos?
Tatto - Devemos fazer uma reforma política global, que envolva todas as questões pertinentes, como o financiamento público exclusivo de campanha e outras, as quais tratarei mais adiante. Somente dentro desse amplo contexto, e não isoladamente, poderemos, eventualmente, discutir essa mudança para o mandato de cinco anos.
Folha Online - O senhor defende a inclusão da Venezuela como membro pleno do Mercosul?
Tatto - Sim. O governo Lula, além de estar colocando a casa em ordem, especialmente quanto à distribuição de renda e desenvolvimento sustentado, tem dado aula a muito doutor honoris causa sobre como inserir o Brasil no mundo. Ele tem conquistado novos parceiros no Oriente e África, saindo do domínio dos Estados Unidos e da Europa, e contribuído para a formação de um amplo campo de atuação na América Latina. Temos relações extremamente positivas com a Venezuela. A sua inclusão no Mercosul só trará benefícios e fortalecerá a identidade latino-americana na região.
Folha Online - O senhor aprova as decisões recentes dos presidentes Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chávez (Venezuela) de realizarem mudanças nas Constituições de seus países?
Tatto - A garantia da autodeterminação dos povos é um fundamento que tem de ser preservado. Quando isso se dá no campo democrático e republicano é a vontade própria da população que está externada. Com as ações acontecendo nesse contexto não há nenhuma questão a ser levantada.
Folha Online - Como o senhor vê a presença do Brasil no Haiti?
Tatto - A partir do momento que um país tenha a necessidade de contar com o apoio de nações amigas para resolver alguma questão, não vejo nenhum problema. O Haiti passa por uma séria crise institucional e o Brasil não pode se omitir nesta questão.
Folha Online - Qual a sua opinião sobre a relação entre o PT e a mídia? Numa situação ideal, como ela deveria ser?
Tatto - A mídia tem um papel importante na sociedade brasileira do ponto de vista da divulgação da informação. Em todo regime democrático ela tem de ser livre. Ao mesmo tempo, defendo a democratização dos meios de comunicação visto que há uma concentração muito grande para determinados grupos econômicos. Isto tem de ser debatido pela sociedade brasileira. Neste quadro, sou a favor do incentivo à criação de rádios e TVs comunitárias no Brasil todo.
Folha Online - Qual é o PT que ficou depois do partido ser acusado de envolvimento com várias denúncias, como a do mensalão?
Tatto - Somos o maior e mais bem estruturado partido do Brasil e um exemplo internacional. Isto é devido à nossa origem nos movimentos sociais, de massa, que são nosso oxigênio, e à militância de milhões de mulheres e homens. Estamos num processo de transição para nos reafirmarmos como o principal partido de esquerda da América Latina e uma referência mundial. Estamos readquirindo nosso vigor, atuação e nos encontramos muito mais maduros. Um exemplo foi a reeleição do governo do presidente Lula, em 2006, ainda no rastro da crise de 2005. É justamente esta grandeza, nunca descartando a necessária autocrítica, que está nos permitindo dar continuidade ao projeto de construção de uma sociedade socialista.
Folha Online - Como o partido deve se posicionar para retomar as bandeiras da ética e se aproximar da militância de rua e dos movimentos sociais?
Tatto - A ética não é um patrimônio de propriedade privada, mas é uma postura que nasceu, está e estará sempre conosco. Tanto é assim que, quando foi preciso, fizemos as correções necessárias e cortamos na própria carne. Faremos o nosso código de ética, conforme definido em nosso 3º Congresso, que teve uma excepcional participação de filiadas e filiados. Estamos atentos para evitar desvios e daremos toda garantia de defesa àqueles que, por ventura, não sigam nossas regras. Estamos firmes e motivados para este processo de eleições diretas justamente porque a militância está retomando o orgulho e a ousadia. Mas este tema da ética não deve servir como elemento de disputa política interna. Ele será fruto de uma construção coletiva em nosso partido.
Folha Online - O senhor apóia as estratégias utilizadas pelos movimentos de trabalhadores rurais de ocupações e invasões para chamar a atenção para o problema da reforma agrária?*
Tatto - O Partido dos Trabalhadores tem a responsabilidade de organizar, apoiar e intermediar as manifestações populares que buscam a distribuição de renda e riqueza em nosso país. A forma como isso se dá é de escolha de cada movimento social. Mas o que não pode existir é o latifúndio improdutivo. Apesar de tudo o que foi posto em prática pelo Governo Lula, muito ainda precisa ser feito como, por exemplo, a mudança do índice de produtividade da terra. Não conheço nenhuma conquista das populações excluídas que não tenha se dado com organização e pressão sobre os agentes sociais constituídos, sejam eles públicos ou privados.
Folha Online - O senhor apóia a realização de um plebiscito para rediscutir a privatização da Companhia Vale do Rio Doce?
Tatto - Apóio. Esta é, também, uma decisão do nosso 3º Congresso. Aprovamos a realização de um plebiscito sobre a validade dessa privatização. Ela configurou a entrega de um dos mais importantes patrimônios públicos por meio de um leilão de R$ 3,34 bilhões, em maio de 1997, durante o governo de FHC. Se a população, após os esclarecimentos que serão dados, optar pela investigação do negócio, que ela seja feita.
Folha Online - Na sua opinião, a Vale é um exemplo de privatização bem-sucedida?
Tatto - Não. Com todos os números que possam ser apresentados a favor da entrega de patrimônios públicos estratégicos, nada a justifica. E a Vale representava isto. Só que os governos de FHC e anteriores deixaram que ela se degradasse e fosse vendida a um preço muito menor do que deveria. Essa é a lógica e a prática neoliberal, representada no Brasil pelo PSDB e DEM, que vem dilapidando tudo o que a trabalhadora e o trabalhador brasileiro vêm construindo por décadas.
Folha Online - O senhor aprova a política econômica do atual governo que prioriza a estabilidade econômica e o controle da inflação? O senhor defende uma aceleração na política de redução dos juros?
Tatto - Para um primeiro momento, é correta a política econômica. O que sempre defendemos foi justamente a estabilidade para que, no momento seguinte, pudéssemos partir para o desenvolvimento sustentado. Isto está ocorrendo. Agora, precisamos partir para mais outro patamar: o do aumento dos investimentos nas áreas sociais. É hora de aplicarmos essa riqueza, que está voltando a ser produzida, na intensificação do combate à miséria e à pobreza e na geração de emprego e renda. Quanto à política de juros, ela vem sendo conduzida de maneira responsável, porém conservadora. O país precisa acelerar a diminuição da taxa de juros.
Folha Online - O senhor defende a realização de novas reformas tributária, previdenciária e política?
Tatto - São fundamentais que se realizem e o PT terá de apresentar suas propostas para a sociedade. A reforma tributária precisa ser executada por meio de um pacto federativo e ter o Estado como indutor das ações de desenvolvimento. Também devem ser tratadas nesse âmbito a taxação das grandes riquezas e heranças, de maneira que diminua a desigualdade social no Brasil. Na questão previdenciária, um aspecto básico é que sejam garantidos os direitos já adquiridos. A Reforma Política vem sendo adiada há anos. Nós vamos propor à sociedade formas de financiamento público exclusivo de campanha, fidelidade partidária, discutiremos o papel do Senado e a utilização da lista pré-ordenada de votação, entre outras iniciativas, em que o fórum de discussão seja em uma Constituinte Exclusiva.
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