Oposição derrota governo e Senado rejeita prorrogação da CPMF
GABRIELA GUERREIRO
RENATA GIRALDI
ANA PAULA RIBEIRO
da Folha Online, em Brasília
O plenário do Senado rejeitou nesta quinta-feira, por 45 votos a 34 e nenhuma abstenção, a proposta de prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) até 2011. Após fracassarem as tentativas do governo de convencer os senadores da oposição a votarem a favor da PEC (proposta de emenda constitucional) da CPMF, a oposição conseguiu o apoio de parlamentares da base aliada para derrotar a matéria no plenário.
Para passar, a proposta precisaria ser aprovada, em dois turnos, com ao menos 49 votos favoráveis em cada um. A vigência da CPMF termina no dia 31.
O governo calculava arrecadar cerca de R$ 40 bilhões em 2008 com o chamado "imposto do cheque".
O governo tentou até o último minuto convencer os senadores de oposição a votar a favor da proposta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros José Múcio Monteiro (Relações Institucionais) e Guido Mantega (Fazenda) entraram pessoalmente na negociação e enviaram ao plenário do Senado uma carta-compromisso do Planalto.
No documento, eles se comprometem a repassar 100% dos recursos arrecadados com a CPMF para a saúde. Hoje, só uma parcela de 0,20 da alíquota de 0,38% é destinada ao setor.
Líderes governistas disseram que essa era a última cartada do governo para garantir a manutenção do "imposto do cheque" --que acabou fracassada. "Ninguém pode perder essa proposta. Será muito bom para todos. O presidente Lula está comandando diretamente as negociações", afirmou o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), antes da votação.
Fontana foi acionado para negociar pessoalmente com os senadores a prorrogação da CPMF. Ele passou o dia no plenário do Senado em conversas com parlamentares, assim como outros deputados governistas que articulavam a manutenção do "imposto do cheque".
Nova proposta
A nova proposta previa o aumento de gastos para a saúde em R$ 8 bilhões em 2008; R$ 12 bilhões em 2009 e R$ 16 bilhões em 2010 --e mais a correção dos repasses pelo PIB (Produto Interno Bruto) nominal.
Segundo Fontana, a alteração deve ser incorporada à emenda 29 --que destina recursos da União para a saúde, o que permitiria agregar mais verbas para o setor.
Corpo-a-corpo
Para tentar aprovar a proposta, os líderes governistas partiram para o corpo-a-corpo com senadores da base aliada que resistiam em votar a favor da CPMF. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), intensificou hoje as visitas aos gabinetes dos chamados "dissidentes" em busca de votos pró-CPMF.
Um dos alvos do governista foi o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que declarou o voto contrário ao "imposto do cheque".
Simon disse ter simpatia pela proposta do governo e não descartou a possibilidade de mudar de idéia. Mas cobrou, em troca, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assine um documento oficializando a proposta --para evitar recuos do governo no futuro.
"Eu vejo com simpatia, é uma proposta nova e interessante. Eu perguntei para o Jucá: se o Lula não acredita em mim, por que eu vou acreditar em ti, Jucá?", questionou Simon.
Adiamento
Sem os votos necessários para aprovar a prorrogação da CPMF, líderes governistas chegaram a sugerir o adiamento da votação para esta quinta-feira. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez um apelo para que os senadores adiassem a sessão para que tivessem mais tempo para analisar as propostas do governo --oferecidas em contrapartida à prorrogação do "imposto do cheque".
"O governo mandou propostas na última hora, mas mandou. Já estamos a um minuto da quinta-feira, podemos remarcar a sessão para ler e reler os documentos do governo. Faço esse apelo como um irmão mais velho de todos", afirmou.
Irritado com a proposta, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) bateu boca com Simon no plenário. Após ser provocado pelo peemedebista, Virgílio disse que Simon "talvez não falasse tanto se trabalhasse como devia". O tucano disse que o peemedebista deveria se assumir como uma pessoa "que se acha acima do bem e do mal".
Em resposta, Simon disse que Virgílio era um "gurizinho de calças curtas" quando já estava na vida política brasileira. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), teve que intervir para que os ânimos se acalmassem na Casa. Após o mal estar, Virgílio recuou ao afirmar sua admiração e respeito por Simon. Os dois parlamentares trocaram um abraço no plenário para dar fim ao debate antes do início da votação.
DRU
Para amenizar a derrota da CPMF, o Senado aprovou, por 60 votos a 18, a prorrogação da DRU (Desvinculação das Receitas da União), medida que permite ao governo federal a livre transferência de 20% das receitas da União.
Atrelada à prorrogação da CPMF, a medida só foi aprovada porque foi desmembrada da Emenda Constitucional que tratava do tributo.
A DRU, com vigência estendida até 2011, permite a livre destinação de verbas oriundas de impostos, contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico.
Leia mais
- Governo dá última cartada e oferece 100% da CPMF para saúde até 2010
- Na reta final, governo intensifica corpo-a-corpo na busca de votos pró-CPMF
- Virgílio ameaça deixar liderança do PSDB se bancada votar pró-CPMF
- Governo já admite possibilidade de CPMF ser derrotada, mas mantém negociação
- Livros abordam temas políticos, sociais e históricos e ajudam a entender o Brasil
Especial


avalie fechar
avalie fechar
No Brasil não existem tributos. Todos sabemos que aqui existe, sim impostos. Impostos são cobranças coercitivas impostas pelos governos de plantão, como o atual (des)governo, por exemplo. E em troca dos impostos a sociedade não recebe nada, absolutamente nada. Nada de segurança, educação, saneamento, estradas e infra-estrutura, saúde absolutamente nada.
Já os tributos segundo se sabe são taxas que a sociedade paga ao governo em troca de beneficios coletivos, como saneamento, transportes coletivos infra-estrutura, segurança, educação, saúde, etc.
Acho que essa diferença deve ser sempre evidenciada, quando o assunto for abordado.
avalie fechar