Brasil
11/02/2008 - 11h02

Agências de turismo agora aliciam trabalhador rural

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JOÃO CARLOS MAGALHÃES
THIAGO REIS
da Agência Folha

Figura típica do trabalho análogo à escravidão, o "gato" (agenciador de mão-de-obra) ganhou uma nova versão. Agora, são agências de turismo comuns que têm aliciado trabalhadores, vendido para eles "pacotes" e os levado até frentes de trabalho rural em outros Estados, onde, por vezes, se submetem a condições degradantes para pagar a passagem.

Segundo o Ministério Público do Trabalho, a participação das empresas na cadeia escravagista é uma conseqüência do aumento da fiscalização, que reprimiu o aliciamento, crime punido com até três anos de detenção, e levou o típico "gato" --pessoa que recruta trabalhadores-- a entrar em extinção.

A idéia é dificultar a configuração do recrutamento irregular, já que, uma vez travestido de turista, o "passageiro" não precisa apresentar documento de registro profissional, no caso de o ônibus sofrer uma blitz.

Empresas de turismo não podem se destinar a outro fim, sob pena de multa e até da suspensão das atividades.

Algumas operadoras já sabem em que épocas e regiões haverá colheita, quando as vagas aumentam. Em algumas culturas, como a da cana, elas chegam a se comunicar com os fazendeiros, para saber quantas pessoas serão necessárias.

Para recrutar a mão-de-obra, as empresas focam os anúncios em cidades do interior de Estados nordestinos, como Maranhão e Piauí, onde há oferta.

A prática foi verificada há cerca de duas semanas em uma propriedade de Tapurah (MT), arrendada pelo grupo Bom Futuro, de Eraí Maggi, primo do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), onde foi flagrado trabalho degradante.

Boa parte dos 41 libertados saiu da região de Presidente Dutra (MA), em ônibus da empresa Brasil Turismo, que atua tanto na cidade maranhense quanto em Sorriso (MT), onde os trabalhadores foram deixados antes de seguir à fazenda.

Na fazenda arrendada por Eraí, os trabalhadores ouviram, em suas cidades, promessas de vagas em carros com alto-falantes e propagandas nas rádios. Pela viagem, disseram ter gasto valores entre R$ 200 e R$ 350. Não sabiam o que iriam fazer nem em que propriedade. Nenhum contrato foi assinado.

Aos que não tinham o dinheiro, a Brasil Turismo permitiu que pagassem após conseguir vaga. José Pedro dos Reis, procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, diz que a dívida era quitada com a dona de uma pousada de Sorriso, que os acolhia.

Segundo o auditor-fiscal Valdinei Arruda, da Superintendência Regional do Trabalho de Mato Grosso, a atuação de agências para aliciar trabalhadores é "rotineira". "Os veículos são registrados como sendo de turismo, e fica difícil fazer o vínculo [da ilegalidade]."

Regisvan Soares de Andrade, chefe da divisão de combate ao crime da Polícia Rodoviária Federal, afirma que a prática é uma "evolução" do "gato". "Quando a gente aperta de um lado, a criminalidade evolui."

Comentários dos leitores
Renato Vieira (5) 26/11/2008 15h53
Renato Vieira (5) 26/11/2008 15h53
A novidade nessa história é o papel do governo cumprindo com sua obrigação. Os alicerces políticos, econômicos e sociais desse país é a escravidão. Então não me surpreende mais um caso. A nossa história não foi passada à limpo. Tentamos não reconhecer um crime cometido contras os índios, inicilamente, e os negros posteriormente. Então a escravidão é quase como uma cultura entre as elites que são os que detêm a empregabilidade. Por outro lado vemos que os trabalhadores aceitam a situação como forma de tentativa de melhorar sua vida, o que representa um contra senso. Eles só se dão conta da situação com o passar do tempo, dos dias, dos meses.
Enquanto as elites não assumirem publicamente com ações, a sua história escravocrata, esses casos irão se repetir e se perpetuar.
Esperamso também que os próximos governos dêem continuidade ao processo de fiscalização.
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É simplesmente um absurdo em pleno século 21, vermos estas ações no cotidiano brasileiro, mas não parará por aí, pois as autoridades são coniventes na maioria dos casos, e quando alguém é punido, não são os senhores donos da terra e sim seus capatazes, que ficam a frente da pusilanimidade. Portanto, não basta a atuação do governo em fiscalização, as pessoas que ali trabalham, desenvolve atividades subumanas, se não trabalharem neste tipo de atividade não terá condições de sobreviverem. Então pensam elas: melhor viver mal do que não viver. Quantas vezes já assistimos a este filme? Não é de hoje que existem ações não governamentais envolvidos com a questão premente. Dá a luz, a solução, mas não é seguido pelos órgãos do governo. Que simplesmente ignoram o obvio. Muitos destes seres humanos que são desprezados, maltratados pelos senhores donos de terras, mesmo quando conseguem sair desta situação degradante, voltam, por não terem outros meios de subsidência. Ou é viver desta forma sem a luz do governo, sem apoio da sociedade em cobrança Estatal, ou escolham viver a margem da sociedade em sustentação e contrariedade às leis. Somando ao já alto índice de criminalidade e as mazelas brasileiras. 5 opiniões
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JOSE PAULO VIEIRA (17) 30/09/2008 07h42
JOSE PAULO VIEIRA (17) 30/09/2008 07h42
Respondendo ao me parece que José Alberto. Ele afirma que nunca viu tantos casos como no governo Lula e o acusa. Não votei no Lula, mas a forma que ele chegou a 80 por cento de aprovação está ai o respaldo. A respeito da escravidão, caso do Para que a policia encontrou 150 em regime de escravidão, e este ano foram libertados mais que nos ultimos 10 anos de nossa historia.
No Governo anterior da elite, foi pego no Para, uma fazenda com quase 300 trabalhadores em regime pior que a escravidão do passado. Viu no que que deu? O dono da Fazenda era amigo do FHC, e pior, na hora de punir ainda descobriu que a fazenda estava em nome de outros. Estes outros eram os verdadeiros donos das terras que tinham morrido de mortes estranhas, e ali eram os posseiros. Posseiros que na hora de tirar emprestimos vultuosos são os donos, administradores e tudo mais. Quem denunciava morria. Sumiam com o dinheiro porque eles não eram donos de nada. E ainda veio o Alckimim querendo revitalizar o projeto SUDAN, que sabia de tudo mesmo assim dava didim pra eles, na ideia ficticia que ia desenvolver a |Amazonia.
Abre os olhos só porque não viamos tanta gente presa neste pais, não significa que estava certo.
A coisa corria frouxa, e agora ainda tem muitas irregularidades, e se houver participação de todos ainda podemos melhorar porque neste governo estamos encontrando apoio para ao menos reclamar por justiça.
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