Indústria no Brasil comemora 200 anos
WANDERLEY PREITE SOBRINHO
Colaboração para a Folha Online
O bicentenário da indústria nacional está diretamente ligado à chegada da família real portuguesa ao Brasil. O príncipe regente dom João revogou em 1º abril de 1808 um alvará de 1785, que proibia a fabricação de produtos manufaturados na então colônia de Portugal.
A autorização para criação de indústrias no Brasil foi a segunda decisão importante de dom João na área econômica. A primeira foi a assinatura da Carta Régia, em 28 de janeiro de 1808, que permitiu a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, como a Inglaterra.
"Dom João precisava permitir a instalação das manufaturas porque a corte estava no Brasil", diz o professor da USP (Universidade de São Paulo) João Garrido Pimenta.
A liberação para produção de manufaturados no Brasil deu início ao surgimento dos primeiros moinhos de trigo, fábricas de móveis, de tecidos e de pólvora. "O Brasil chegou a exportar sabão de coco", diz o historiador Milton Teixeira.
Segundo Pimenta, "o príncipe regente queria aproveitar a disputa comercial entre França e Inglaterra para formar sua própria indústria e disputar mercado".
No entanto, os historiadores dizem que o plano de dom João de criar a sua própria indústria a partir da colônia brasileira não deu certo. "A idéia não vingou", afirmou Pimenta. "A indústria foi o grande fracasso de d. João", diz Teixeira. "A única coisa que ele fez foi assinar a Carta Régia. Depois, foi uma seqüência de erros."
Entre os problemas atribuídos pelos historiadores para o fracasso das fábricas brasileiras está a falta de uma política industrial --reivindicação que persiste até hoje entre os empresários. "Dom João tentou trazer um grupo de serralheiros, pintores e mecânicos para treinar a mão-de-obra, mas a idéia não teve continuidade", afirma Teixeira. "Mesmo em Portugal, o setor industrial era muito atrasado naquela época."
Outro problema eram os baixos índices de produtividade. Naquele tempo, o Brasil não abria mão do trabalho escravo, "Um assalariado produzia o equivalente a 20 escravos, o que prejudicava a produtividade brasileira", diz Teixeira.
O que enterrou de vez a expansão industrial do Brasil nos tempos da corte foi o acordo comercial fechado com a Inglaterra, em 1810.
Como as taxas de exportação cobradas do Brasil pela Inglaterra eram muito baixas, houve uma enxurrada de produtos ingleses entrando pelos portos brasileiros. "Era mais barato comprar um produto britânico do que um fabricado no Brasil", afirma Teixeira.
Segundo ele, a indústria só começou a prosperar no Segundo Reinado, com os investimentos feitos na área por dois grandes empresários: Visconde de Mauá e Mariano Procópio. "Mauá investiu em banco, siderurgia, ferrovia", diz Teixeira.
200 anos depois
A indústria brasileira completa 200 anos comemorando uma série de resultados positivos. Em 2007, a produção industrial subiu 6% em 2007, na comparação com o resultado verificado no ano anterior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Foi o melhor resultado desde 2004, quando atingiu 8,3%. Em 2006, a produção industrial havia crescido 2,8%.
"A indústria brasileira segue o ritmo de crescimento verificado no final de 2007. A turbulência internacional não deverá trazer significativas perdas para a indústria", afirma Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)
"Neste ano o desempenho da indústria será mais modesto", discorda o economista Fábio Gallo, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Ele diz que a crise internacional e o real muito valorizado devem prejudicar as exportações e a produtividade. "Os industriais já suportaram um ano todo de real valorizado e margem de lucro apertada, mas logo terão de reajustar preços, o que pode significar perda de mercado", diz o economista.
Mas a grande incerteza do setor para o ano é bem parecida com a de 200 anos atrás. "Falta política industrial no Brasil", afirma Gallo. "Mesmo nesse cenário internacional conturbado não há regras estabelecidas. Não sabemos quais setores serão incentivados nem onde o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) vai investir."
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