Brasil
17/03/2008 - 02h35

Confira entrevistas com o deputado federal Fernando Gabeira e com o senador Marcelo Crivella

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PLÍNIO FRAGA
da sucursal do Rio da Folha de S.Paulo

O deputado federal Fernando Gabeira (PV) diz que aceitaria dialogar com o presidente Lula e o governo Sérgio Cabral em nome de seu projeto de recuperação do Rio. Admite que lhe falta experiência administrativa. "Essa crítica é procedente e deve ser considerada. Nunca administrei nada, mas tenho uma enorme curiosidade para aprender e estou aprendendo. Quando chegar lá, terei a visão de como trabalharam todos os prefeitos com que converso e quais são suas falhas e virtudes."

FOLHA - O sr. diz que não será candidato de oposição nem de situação e tem entre seus apoiadores ex-administradores muito criticados. Não é pertinente cobrar coerência do sr. com os discursos que faz no Congresso?

FERNANDO GABEIRA - A coerência vai ser cobrada e deve ser cobrada. Nossas relações políticas foram muito degradadas. Estamos tentando fazer no Rio uma alteração desse processo. Reforma política não através do Congresso, mas de um movimento político-cultural. Não são as pessoas que vão me cobrar coerência: eu me cobro a cada instante. Meu projeto é avançar onde o PT capitulou, nas relações políticas, sem fisiologismo.

FOLHA - Mas não é um discurso ambíguo este de não ser situação nem oposição?

GABEIRA - Considerando as condições do Rio, você só pode trabalhar num processo de recuperação da cidade em sintonia com os governos estadual e federal. Essa conjugação de políticas e recursos municipais, estaduais e federais é fundamental para dar eficácia, mas não significa que eu vá mudar minhas idéias. Significa que eu, como prefeito, vou buscar articular as três instâncias para buscar o máximo de eficácia.

FOLHA - O sr. aceitaria discutir o apoio de Lula e/ou Cabral?

GABEIRA - Eu aceitaria. Uma vez aceitas as condições que coloco [de dar um passo à frente nas relações políticas] de nós balizarmos o caminho de 2010. Nossa intenção, além de trabalhar pela recuperação do Rio, é balizar o caminho de 2010. A política chegou a um nível de degradação em que a própria democracia está ameaçada.

FOLHA - Ou seja, em nome desse projeto o sr. se permite dar uma espécie de anistia ao mensalão e a governos passados que tiveram a gestão questionada?

GABEIRA - Não sou a instância que concede ou não anistia. Sou a instância que tenta articular com todas as forças um processo de recuperação do Rio e um novo momento. Quem vai trabalhar a anistia ou não é a Polícia Federal, o Supremo, a procuradoria, a população. Uma coisa é condenar a corrupção, atacar a corrupção; outra é, num processo em que se busca um novo caminho, dizer: quem pecou não entra... Não é isso. Quem pecou vai ter de responder por seus pecados, mas, entrando, aceita as regras do jogo de uma reforma nas relações políticas.

O convite que faço é para esquecermos o século passado. As políticas necessárias para a recuperação da cidade são abrangentes, atravessam classes sociais, concepções partidárias e ideológicas. O confronto que vai haver é o de propostas de revitalizações da cidade diferentes. Se alguém me disser que tem uma proposta de crescimento e revitalização da cidade que não passe pela utilização maciça de capitais que a prefeitura não tem, até aceito. Mas não vejo no horizonte outro caminho

FOLHA - O sr. é um defensor do aborto, da descriminalização das drogas, da legalização da prostituição, das minorias homossexuais. Teme que isso se volte contra o sr. na campanha?

GABEIRA - Se transformamos a campanha do Rio num debate sobre homofobia, drogas e prostituição, vamos perder o ponto central e é possível que um outro candidato ganhe as eleições. O ponto central é a recuperação do Rio e como resolvê-la. Posso até dedicar um tempo marginal para discutir essas questões, o que para mim é simples porque posso discuti-las até no piloto automático. Essas não são as principais questões.

Não se pode transformar a eleição no Rio numa disputa religiosa. Meu princípio é a liberdade de religião, fora daí não tenho o que me meter. Na questão da homofobia, ninguém mais do que a Prefeitura do Rio avançou nessa questão: já reconhece a união civil de pessoas do mesmo sexo, tem um programa pioneiro de integração de travestis e transexuais. Não vou fazer nada mais do que ele está fazendo.

A legalização da prostituição não estará a meu alcance. Até respeito a posição das pessoas que dizem que vão acabar com a prostituição. Dou um sursis para elas porque não dizem quando.

FOLHA - E as drogas?

GABEIRA - Tenho condições de formular uma política antidrogas, que não é a legalização porque não está no meu âmbito, que seja positiva para a cidade. Vamos parar de discutir drogas assim: sou contra ou sou a favor da legalização. É o mesmo caso do aborto. Vamos achar uma ponte entre as posições. As posições políticas não são feitas para afirmar superioridade moral sobre o outro e voltar para casa limpando as mãos.

FOLHA - Teme enfrentar a Igreja Católica por ser a favor do aborto?

GABEIRA - Será que vale a pena ficar discutindo se sou a favor ou contra o aborto? Não, vamos encontrar um ponto em comum. Os adolescentes precisam de informação. Interessa tanto a pessoa que é favorável como a que é contra a legalização do aborto que haja um processo de informação mais adequado. A Igreja Católica, no âmbito municipal, não vai avaliar um candidato pelas posições dele nesse caso.

FOLHA - O sr. tem um histórico eleitoral melhor na zona sul do que na zonas norte/oeste [menos abastadas], ao contrário do senador Crivella, que vai melhor na zonas norte/oeste do que na sul. Como vê esse confronto?

GABEIRA - Essa caracterização é muito simplificadora. As forças que me apóiam têm penetração também nesses setores. Sou um candidato da zona sul pronto para entrar nos morros, como fiz em 1986 [na candidatura ao governo do Estado]. Hoje,mudou um pouco a concepção do que se tem como zona norte e favela. Existem 5.000 lan houses no Rio, gente com acesso a internet. Essa divisão rígida da cidade entre ricos e pobres, interessa só a algumas pessoas. Podemos buscar uma visão unificadora para superar a idéia de uma cidade partida. Essa divisão rígida é conservadora porque quer tornar perene a divisão da cidade.

FOLHA - Segurança é um tema para o prefeito?

GABEIRA - É preciso reconhecer que a prefeitura tem responsabilidade e que esta é uma das tarefas principais do prefeito do Rio. O que pode fazer? Ela tem muita informação. Câmeras, relatos das regiões administrativas, dos guardas municipais. Se você criar um sistema de inteligência que processe todos esses dados e passe para a polícia, já é importante. Outra coisa são políticas sociais preventivas e pedagógicas. Pretendo também criar um centro de alto nível de assistência às vítimas da violência, com psicólogos, médicos, assistente social e gente documentando também. E mudar um pouco a guarda municipal, que foi criada no molde da PM. Ela vai ter cumprir um papel pedagógico na ordem urbana.

FOLHA - Numa discussão sobre contenção do crescimento das favelas, o sr. disse: "Quem está dentro não sai, quem está fora não entra". Pode explicar?

GABEIRA - É o princípio da gafieira quando está muito cheia. Quem está dentro do salão não sai, quem está fora não entra. Discutir com as comunidades e fixar os ecolimites. Vamos melhorar a situação aqui, mas vocês não vão deixar a favela crescer. Processo de reflorestamento do morro, usando mão-de-obra local, teria financiamento. Podemos melhorar os morros, impedir que eles cresçam e, com uma política de habitação popular.

FOLHA - O Rio tem trauma com gestões administrativas ruins, pelo menos desde quando, em 1988, o então prefeito Saturnino Braga decretou a falência da cidade. Sua falta de experiência administrativa não é problema?

GABEIRA - Essa crítica é procedente e deve ser considerada. Nunca administrei nada, mas tenho enorme curiosidade para aprender e estou aprendendo. Quando chegar lá, terei a visão de como trabalharam todos e quais suas falhas e virtudes.

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Entrevista com o senador Marcelo Crivella

O senador Marcelo Crivella (PRB) está entre os dez parlamentares com mais verbas de emendas liberadas pelo governo federal e aposta na associação de seu nome ao do presidente Lula na campanha pela Prefeitura. Bispo licenciado da Igreja Universal e integrante da base de apoio ao governo, apresentou projetos polêmicos, como o que permite isenção fiscal na reforma de templos religiosos e o que aumenta em um terço as penas a jornalistas em razão de crimes de calúnia e difamação. "Não sou contra a imprensa, sou contra a infâmia", declara.

FOLHA - Como senador do PRB, conseguiu liberar mais verbas de suas emendas do Rio do que a maioria dos parlamentares petistas do Estado. O sr. é o candidato do Lula no Rio?

MARCELO CRIVELLA - Espero poder ser, mas consegui liberar recursos para minhas emendas em razão da sintonia que mantenho com os projetos do governo.

FOLHA - Nas suas duas últimas derrotas eleitorais, em 2004 na disputa pela prefeitura e em 2006 pelo governo do Estado, o senhor foi rejeitado pelas áreas mais ricas e informadas da cidade. Como mudar isso?

CRIVELLA - Grandes líderes nacionais e mundiais foram derrotados. E os derrotados aprendem com o suplício que o povo lhes impõe. Minha candidatura será da paz, para distensionar a cidade. Meu discurso para a zona sul será que a melhoria da sua qualidade de vida depende da melhoria nas comunidades carentes. Por exemplo, o programa Cimento Social no morro da Providência, primeira favela do Rio, que consegui aprovar para que o Exército ajude na reforma das casas de mais de 700 famílias, ajuda a conter crescimento vertical e a proliferação da dengue.

Vou criar a zona franca social com redução de impostos (municipais, estaduais e federais) para criar empregos a partir das demandas da prefeitura. Temos milhares de placas de sinalização para ser cortadas, dobradas, pintadas e acabadas nessas comunidades. Podemos dar emprego na fabricação de uniformes de 750 mil crianças das escolas municipais e nas roupas de camas para unidades hospitalares. O governo do Estado cuida da violência de hoje, o prefeito cuida da violência de amanhã.

FOLHA - O sr. vai contratar o publicitário Duda Mendonça para comandar sua campanha?

CRIVELLA - Gostaria muito. Conversei com ele várias vezes. Depende de proposta.

FOLHA - Não há constrangimento por ele ter admitido que recebeu dinheiro no caixa dois por campanhas para o PT?

CRIVELLA - O PT é um grande partido, o PRB é o mais jovem do país. A contratação vai depender dos custos e será paga legalmente.

FOLHA - As obras do PAC, que serão bandeiras de sua campanha, não podem ser vistas mais como marketing eleitoral do que como solução para comunidades carentes?

CRIVELLA - O que as obras prevêem é levar para o morro o que existe no asfalto: biblioteca, acesso aos transportes, à saúde.

FOLHA - Qual seu posicionamento sobre pesquisas com células-tronco, aborto, descriminalização das drogas, legalização da prostituição e união de pessoas do mesmo sexo?

CRIVELLA - Sou a favor das pesquisas com células-tronco. Não há na Bíblia qualquer proibição. O aborto é do ponto de vista da criança um fim sem começo, do ponto de vista da mulher o começo de uma dor sem fim. Droga tem de ser combatida; sou a favor do esporte, do ambiente familiar saudável. Prostituição é uma das profissões mais antigas, mas que espero que seja erradicada um dia. Na acho que a homossexualidade seja natural.

FOLHA - O sr. é um aguerrido opositor da lei contra a homofobia.

CRIVELLA - A lei cria uma censura porque não permite uma opinião contrária ao homossexualismo. Torna crime por supostamente incitar a violência o pai que pretende ensinar ao filho que isso não é natural. Fere frontalmente as garantias individuais que está na Constituição. É a instalação da ditadura gay.

FOLHA - O sr apresentou projeto que aumenta a pena contra jornalistas em eventuais casos de calúnia e difamação. Vou propor ao sr. o dilema a que se refere Thomas Jefferson, um dos pais da democracia americana: é melhor um governo sem imprensa ou a imprensa sem governo?

CRIVELLA - Qualquer poder é arrogante. Imprensa é fundamental. Não sou contra a imprensa, sou contra a infâmia. O projeto pune quem publicar documentos sem autenticidade, as pessoas citadas têm de ser previamente ouvidas. Não é para intimidação, mas para preservar o que a imprensa tem de mais sagrado, que é a credibilidade. Sofri campanhas contra mim e encontrei na humildade cristã a força da honra para suplantar as maquinações dos adversários.

FOLHA - Mais de 70 fiéis da Igreja Universal, de cidades do Acre ao Rio Grande do Sul, entraram com ações judiciais contra a Folha* [em razão de reportagem sobre a expansão empresarial da igreja] repetindo expressões literais em documentos, em tese, elaborados a milhares de quilômetros de distância um do outro. Não é um sinal claro de orquestração e de tentativa de intimidação, porque o jornal tem de enviar representantes a cada uma das cidades em que foi arrolado?

CRIVELLA - Posso garantir que não houve orquestração. Você não vai acreditar, mas não houve. Os evangélicos são pessoas muito caseiras e ficam muito tempo no computador. Quando um faz uma ação, ela circula. As petições são copiadas como foram as que fizemos para tirar dinheiro bloqueado no Plano Collor. Fiz um apelo público para que todas as ações sejam reunidas numa só, permitindo um julgamento único. Compreendo o direito de os fiéis entrarem com as ações, mas acho que elas têm de ser reunidas. Não há interesse paralelo na Igreja Universal. Os pastores e bispos são devotados como os padres nas causas dos evangelhos.

FOLHA - O sr. busca se dissociar da Universal, mas...

CRIVELLA - [interrompendo] Sou senador, freqüento a Universal todo domingo, fui missionário na África dez anos. Quem me associa à Universal é a Folha, que não me chama de senador Crivella e sim de bispo Crivella. Não acho que política se mistura com religião.

FOLHA - Mas quando o sr. apresenta um projeto que permite isenção fiscal para a reforma de igrejas não é o sr. que mistura Estado e religião?

CRIVELLA - A lei já permite isenção para bibliotecas, arquivos, teatros e cinemas. Quando acrescento templos históricos me refiro aos católicos, batistas, metodistas e presbiterianos. Prédios tombados, com mais de 100 anos. Os artistas foram corporativistas porque acham que vão ter de dividir R$ 900 milhões em incentivos da Lei Rouanet. Mas não há conflito com o empresário que reserva 4% do imposto a pagar para reformar um templo. E a Universal não é beneficiada porque tem 30 anos e seus tempos são novos. Nem precisa disso.

FOLHA - Na separação igreja e Estado, não seria justo que as igrejas pagassem imposto?

CRIVELLA - No mundo inteiro não paga. Dízimo e ofertas não são tributáveis em nenhuma parte do mundo.

FOLHA - Mas, quando a Universal pega o dinheiro do dízimo e compra horários de programação na Rede Record, da qual o Edir Macedo [fundador da igreja] é proprietário, acaba se beneficiando do dinheiro que arrecadou e não pagou impostos.

CRIVELLA - A igreja compra também na Bandeirantes, na CNT. Objetivo da igreja é divulgar o evangelho. A igreja vai pagar impostos quando paga aluguéis, salários, compra coisas. Paga impostos com as despesas que tem para divulgar suas idéias.

FOLHA - Empreiteiras que constroem igrejas para a Universal pagas com o dinheiro dos dizemos são as principais contribuidoras de dinheiro para o seu partido, o PRB. Não é um duto questionável de dinheiro?

CRIVELLA - Não há nenhum vício no caminho. Elas financiam outros partidos também. O que importa é se elas são doadoras por fora ou por dentro da lei. Se declarou ao tribunal, como no caso, não há nada demais. As empreiteiras querem agradar a igreja. Há empresas com muita participação de evangélicos. Só os evangélicos não podem se organizar? Esse é o preconceito religioso que falo.

 

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