Ex-dirigente da UNE, Manuela D'Ávila quer ser prefeita; leia entrevista
WANDERLEY PREITE SOBRINHO
Colaboração para a Folha Online
A deputada federal Manuela D'Ávila (PC do B-RS), 26, engrossa a lista de ex-dirigentes da UNE (União Nacional dos Estudantes) que entraram na política. Eleita vereadora de Porto Alegre em 2004, Manuela deixou o cargo para disputar uma vaga de deputada federal em 2006. Ela pretende disputar a Prefeitura de Porto Alegre, em outubro deste ano.
| 07.out.2006/Folha Imagem |
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| Depois de ser eleita vereadora e deputada federal, Manuela D'Avila quer ser prefeita |
Manuela disse à Folha Online que deixou a UNE porque o movimento estudantil não pode ser partidarizado. Questionada sobre seu início na política, entretanto, ela admite que foi influenciada pela decisão do seu partido. "Não foi decisão minha. A idéia do partido era eleger alguém que pudesse levar adiante uma política para a juventude. Meu nome acabou sendo indicado somente para marcar posição porque não sabíamos se a candidatura era viável."
Para Manuela, a UNE não sofre a influência de um único partido: o PC do B. "O diálogo é motivado exatamente porque a entidade é formada por todos os partidos. Na UNE, todos são estudantes, não há uma briga entre classes sociais."
Leia abaixo a íntegra da entrevista com Manuela D'Ávila:
Folha Online - Por que você saiu da UNE quando se elegeu vereadora em 2004?
Manuela D'Ávila - Deixei o movimento porque ele deve ser autônomo. A causa estudantil ficaria partidarizada, e isso vai contra os princípios da UNE.
Folha Online - Por que começou na política pelo movimento estudantil?
Manuela - Mais do que as causas estudantis, a UNE tem um projeto de país. Uma de nossas bandeiras, por exemplo, era o combate ao neoliberalismo. Foi a partir daí que eu me identifiquei com a política partidária e entrei no PC do B, em 2000.
Folha Online - Quando percebeu que era hora de deixar o movimento estudantil e disputar uma cadeira na Câmara?
Manuela - Não foi decisão minha. A idéia do partido era eleger alguém que pudesse levar adiante uma política para a juventude. Meu nome acabou sendo indicado somente para marcar posição porque não sabíamos se a candidatura era viável, mas acabei eleita. Não houve isso de 'eu quero ser parlamentar'. Isso eu aprendi na UNE, que convive com a opinião de diferentes correntes políticas porque é a única entidade universitária do país. É diferente das decisões tomadas por quem saiu dos sindicatos. Não sou autoritária graças ao movimento estudantil.
Folha Online - A existência da UNE como única representação dos estudantes não prejudica o diálogo sobre as necessidades do setor?
Manuela - Muito pelo contrário. O diálogo é motivado exatamente porque a entidade é formada por todos os partidos. Na UNE, todos são estudantes, não há uma briga entre classes sociais. Alguns partidos políticos não conversam com ninguém porque saíram do movimento sindical. Respeitar a autonomia político-partidária dos estudantes nos fortalece.
Folha Online - Há uma espécie de saudosismo do movimento em relação ao seu passado ligado ao combate ao regime militar?
Manuela - Tenho uma admiração profunda pelos presidentes da UNE que viveram na clandestinidade, mas não acho poético ser preso e torturado.
Folha Online - Muita gente do movimento estudantil pegou em armas naquela época. Foi uma resistência legítima?
Manuela - Estávamos em uma ditadura armada, portanto era. O regime torturava e matava pessoas. É a soma de diversos esforços, inclusive a luta armada, que fez possível a redemocratização do Brasil.
Folha Online - A senhora não acha que o movimento só ganhou importância porque a luta pela redemocratização extrapolou o campo estudantil?
Manuela - É evidente. Naquele momento, os estudantes não podiam debater as necessidades da universidade. O problema da educação passava pela necessidade de mudar o país. Então é natural que os estudantes resistissem à ditadura e lutassem pela democracia.
Folha Online - Por que o movimento estudantil não tem o mesmo brilho daqueles anos?
Manuela - É impossível comparar os momentos. Além de estarmos num regime democrático, o perfil do universitário é diferente. Hoje o jovem precisa trabalhar para pagar os estudos. Nos anos 70, eles só se preocupavam em estudar. É natural que eles se envolvessem em causas políticas. Só enxerga mais brilho no passado do movimento quem acha romântico o regime militar.
Folha Online - Não há menos engajamento hoje em dia?
Manuela - Não militei naquele período. Eu não tenho a dimensão. Mas, hoje, a juventude enfrenta a dificuldade de permanecer estudando e trabalhando.
Folha Online - Como o movimento deve atuar para atrair mais jovens?
Manuela - É preciso que o movimento invista em projetos envolvendo cultura, ciência e esporte porque, além de atrair os jovens, trata-se de uma política pública. A universidade e a escola têm a cara do projeto de desenvolvimento que foi escolhido para o país.
Folha Online - Será que também não é preciso modernizar o discurso? O movimento não ficou parado no tempo?
Manuela - Acabamos de protestar contra a presença da secretária de Estado americana Condolezza Rice, que representa o belicismo norte-americano. Acho moderno lutar contra a guerra. Se avaliarmos a política americana, veremos que é preciso lutar mais pela paz hoje do que há 15 anos.
Folha Online - Qual a sua opinião sobre a política estudantil do governo Lula?
Manuela - Ela tem alguns avanços e limites. O principal avanço é o ProUni, que vem democratizando o ensino superior ao incluir 300 mil universitários nos últimos anos. Mas o governo Lula não enfrentou o problema do transporte coletivo, por exemplo, que é um dos principais motivos da evasão escolar. Aumentamos o acesso à educação, mas não conseguimos criar condições para os que estudantes permaneçam na escola e na universidade.
Folha Online - E como a senhora, na Câmara, vem atuando pelo movimento estudantil?
Manuela - Neste primeiro ano de mandato, sugerimos o pagamento de mensalidade com a utilização do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e devemos aprovar ainda no primeiro semestre a lei de estágios, que eu relatei.
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