Perfil do movimento estudantil muda com multiplicação das universidades particulares
WANDRLEY PREITE SOBRINHO
Colaboração para a Folha Online
Em 1968 os estudantes universitários brasileiros foram fundamentais na resistência contra a ditadura militar. Após 40 anos, o perfil dos alunos de nível superior mudou. O número de instituições particulares aumentou e a quantidade de estudantes de baixa renda nas universidades cresceu. Mas o interesse por temas políticos diminuiu.
O Brasil contava em 2006 com 4,6 milhões de universitários, segundo o último levantamento do Censo da Educação Superior feito pelo MEC (Ministério da Educação). A maior parte deles, ou 74%, estava matriculada em unidades privadas.
Em 2000, 1,8 milhão de alunos estudavam em universidade ou faculdade privada, contra 3,4 milhões em 2006 --um salto de 92,6%. No mesmo período, o número de estudantes matriculados em instituições públicas cresceu 34,7%, de 890 mil alunos para 1,2 milhão.
Das 2.270 instituições superiores que existiam em 2006, 2.022 eram particulares. Seis anos antes, as faculdades e universidades particulares representavam metade disso: 1.004 unidades.
Segundo dados do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), a popularização das instituições privadas aumentou o acesso dos estudantes de baixa renda ao ensino superior.
Em 2004, 21% dos universitários ganhavam entre três e dez salários mínimos. Esse percentual subiu para 26% em 2006. No mesmo período, o percentual de estudantes que se declarava negro ou pardo passou de 24,4% para 28%.
Segundo o Enade, de cada 100 alunos que freqüentavam a universidade em 2004, 40 tinham concluído o ensino médio em escola pública. Dois anos depois, e essa proporção era de 50 alunos para cada 100.
Segundo especialistas, o perfil dos universitários mudou muito quando comparado aos que fizeram história 40 anos atrás, quando as instituições superiores contavam com cerca de 1 milhão de estudantes.
Segundo a deputada federal Manuela D'Ávila (PC do B-RS), que foi líder da UNE (União Nacional dos Estudantes) até 2004, os alunos de baixa renda são menos engajados politicamente.
"Hoje a maioria dos jovens precisa trabalhar para pagar os estudos. Como nos anos 70 eles só se preocupavam em estudar, era natural um maior envolvimento em causas políticas", diz.
Para a presidente da UNE, Lúcia Stumpf, o perfil desses alunos também é moldado pelo momento histórico. "Eles estão desinteressados por bandeiras políticas porque o mundo está muito individualista. Nossas lutas sociais enfrentam uma séria dificuldade em dialogar com a juventude, sempre atraída por outros valores."
Apesar do aumento de pobres na universidade nos últimos anos, eles ainda são pouco representados na UNE. "Os pobres ainda são minoria. É por isso a UNE acaba refletindo as decisões da classe média, que participa mais ativamente", afirma a deputada. "Mas essa é justamente uma das lutas do movimento estudantil: a partir da democratização da universidade, os setores populares participarão mais."
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