Conselho indígena condena declaração de general e diz que ficará contra o Exército
ANDREZZA TRAJANO
Colaboração para a Agência Folha, em Boa Vista
A declaração de que a política indigenista brasileira é "lamentável" e "caótica", feita pelo comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, foi criticada pelo CIR (Conselho Indígena de Roraima), principal entidade favorável à retirada dos não-índios da Raposa/Serra do Sol.
"Se o Exército é contra nós, seremos contra eles também", disse o índio macuxi Dionito Souza, coordenador do CIR. "A homologação de forma contínua [da Raposa] não vai acabar com o Brasil", afirmou.
Para ele, não existe perigo de ocorrer alguma "internacionalização da Amazônia", já que o Exército possui cinco pelotões de fronteira em Roraima. "Nunca impedimos o Exército de realizar o seu trabalho de segurança nas fronteiras. Temos, inclusive, índios militares trabalhando nesses pelotões."
Dionito disse ainda que não entende a "implicância" do general Heleno em relação à terra indígena Raposa/Serra do Sol.
"Se essa fosse a primeira terra indígena a ser homologada, eu até entenderia esse posicionamento preocupado e receoso. Mas existem outras terras indígenas no Estado, onde militares e índios vivem em plena harmonia", disse Souza.
Mas as declarações do comandante da Amazônia foram bem recebidas pelo presidente da Associação dos Rizicultores de Roraima, Paulo César Quartiero, líder das manifestações contrárias à retirada de não-índios da Raposa/Serra do Sol.
"Não só concordo com o que ele [Heleno] falou como apóio. Finalmente apareceu alguém de coragem para falar sobre o descaso que o governo federal tem com as nossas fronteiras", disse Quartiero.
Com o mesmo entendimento, o presidente da Sodiur (Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima), o índio macuxi Lauro Barbosa, acredita que as declarações do militar mostraram "a todo o Brasil" as fragilidades das fronteiras amazônicas.
"O que ele está falando é verdade. Estamos a beira de uma invasão estrangeira, só não vê quem não quer. Não existe ninguém melhor que o Exército para avaliar os riscos que corremos entregando as nossas terras a ONGs internacionais."
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