Brasil
28/04/2008 - 17h15

"Heróis" de Lula viram alvo prioritário de fiscalização contra trabalho escravo

THIAGO REIS
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
da Agência Folha

Se para o presidente Lula os usineiros "estão virando heróis mundiais", para Ruth Vilela, secretária de Inspeção do Trabalho, eles já viraram o "foco prioritário" de ações de combate ao trabalho análogo à escravidão no país.

Só nos três primeiros meses deste ano, foram resgatadas 1.094 pessoas do setor sucroalcooleiro (81% do total registrado pelos grupos móveis). Em todo o ano passado, foram 3.117 (53% do total).

"Desde o ano passado, foi colocado no planejamento geral da fiscalização o setor de cana como prioritário. Isso é justificável não pelo crescimento do setor, mas pelas notícias de problemas relacionados à exaustão, doenças profissionais e eventualmente mortes dos trabalhadores", afirmou Vilela à Folha.

Segundo ela, a fiscalização nas usinas está sendo feita "independentemente de denúncias", diferentemente da atuação rotineira dos grupos móveis que atuam pelo país.

Vilela disse que o Ministério Público do Trabalho, a Procuradoria da República e a Polícia Federal foram avisadas da nova prioridade, assim como as empresas do setor.

"Em janeiro, enviei a todas as usinas e fornecedoras uma notificação preventiva, já chamando a atenção para os pontos fundamentais de condições de trabalho, para, quando a fiscalização chegar, os empregadores já estarem previamente avisados do tipo de cobrança que será feita."

Apesar de, em discursos recentes, Lula ter minimizado o trabalho escravo no país, ao comparar o trabalho dos cortadores de cana com o de operários de carvoarias do século 18, Vilela disse tomar as declarações em um contexto "macropolítico", "de defesa do produto nacional". E afirmou que elas não impactam nas operações. "As ações [de combate ao trabalho escravo] são de Estado, não de governo."

O usineiro Maurílio Biaggi Filho, conselheiro da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), considera o aumento da fiscalização positivo, desde que seja "construtivo", o que, para ele, é atualmente raro no país.

"Hoje, [as fiscalizações] só acontecem sob holofotes. Isso é extremamente negativo para o Brasil lá fora", afirmou ele, para quem há exageros nas ações dos fiscais.

Biaggi disse que as recentes notícias sobre irregularidades trabalhistas nas usinas brasileiras já causaram um prejuízo real à imagem do setor no exterior. Ele teme que esse dano seja ainda maior. "O grande problema é a generalização. Atrapalha a idéia sobre o Brasil como um todo", afirmou. "E, hoje, uma das coisas que nos diferenciam é o biocombustível."

Pressão externa

Vilela disse que "não encara com nenhuma ingenuidade" os interesses econômicos envolvidos, mas afirmou que o órgão "não faz segredo das ações nem dos resultados para a imprensa, inclusive a estrangeira, por uma questão de princípios".

"Não há o que esconder. Vários outros países da América Latina que não divulgam tanto os seus problemas internos em princípio até podem ser beneficiados com o silêncio, mas o Brasil decidiu enfrentar o problema e não varrer a sujeira para debaixo do tapete."

Francisco Alves, professor de engenharia de produção na Universidade Federal de São Carlos, vê o aumento da fiscalização como um resultado direto da degradação das condições de trabalho dos canavieiros. "Os usineiros reclamam demais e reformulam de menos as relações trabalhistas, que ainda são arcaicas."

Quatro grandes empresas do setor foram procuradas pela reportagem, mas nenhuma comentou o direcionamento da fiscalização.

Comentários dos leitores
Diógenes Pereira da Silva (40) 30/09/2008 14h23
Diógenes Pereira da Silva (40) 30/09/2008 14h23
É simplesmente um absurdo em pleno século 21, vermos estas ações no cotidiano brasileiro, mas não parará por aí, pois as autoridades são coniventes na maioria dos casos, e quando alguém é punido, não são os senhores donos da terra e sim seus capatazes, que ficam a frente da pusilanimidade. Portanto, não basta a atuação do governo em fiscalização, as pessoas que ali trabalham, desenvolve atividades subumanas, se não trabalharem neste tipo de atividade não terá condições de sobreviverem. Então pensam elas: melhor viver mal do que não viver. Quantas vezes já assistimos a este filme? Não é de hoje que existem ações não governamentais envolvidos com a questão premente. Dá a luz, a solução, mas não é seguido pelos órgãos do governo. Que simplesmente ignoram o obvio. Muitos destes seres humanos que são desprezados, maltratados pelos senhores donos de terras, mesmo quando conseguem sair desta situação degradante, voltam, por não terem outros meios de subsidência. Ou é viver desta forma sem a luz do governo, sem apoio da sociedade em cobrança Estatal, ou escolham viver a margem da sociedade em sustentação e contrariedade às leis. Somando ao já alto índice de criminalidade e as mazelas brasileiras. sem opinião
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JOSE PAULO VIEIRA (12) 30/09/2008 07h42
JOSE PAULO VIEIRA (12) 30/09/2008 07h42
Respondendo ao me parece que José Alberto. Ele afirma que nunca viu tantos casos como no governo Lula e o acusa. Não votei no Lula, mas a forma que ele chegou a 80 por cento de aprovação está ai o respaldo. A respeito da escravidão, caso do Para que a policia encontrou 150 em regime de escravidão, e este ano foram libertados mais que nos ultimos 10 anos de nossa historia.
No Governo anterior da elite, foi pego no Para, uma fazenda com quase 300 trabalhadores em regime pior que a escravidão do passado. Viu no que que deu? O dono da Fazenda era amigo do FHC, e pior, na hora de punir ainda descobriu que a fazenda estava em nome de outros. Estes outros eram os verdadeiros donos das terras que tinham morrido de mortes estranhas, e ali eram os posseiros. Posseiros que na hora de tirar emprestimos vultuosos são os donos, administradores e tudo mais. Quem denunciava morria. Sumiam com o dinheiro porque eles não eram donos de nada. E ainda veio o Alckimim querendo revitalizar o projeto SUDAN, que sabia de tudo mesmo assim dava didim pra eles, na ideia ficticia que ia desenvolver a |Amazonia.
Abre os olhos só porque não viamos tanta gente presa neste pais, não significa que estava certo.
A coisa corria frouxa, e agora ainda tem muitas irregularidades, e se houver participação de todos ainda podemos melhorar porque neste governo estamos encontrando apoio para ao menos reclamar por justiça.
sem opinião
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samuel haddad carvalho (13) 10/09/2008 11h48
samuel haddad carvalho (13) 10/09/2008 11h48
Vou repetir: E ainda existe uma elite tupiniquim querendo colocar o país no conselho de segurança da Onu. Para se pleitar algo dessa envergadura, ao menos a lição de casa deveria estar feita: reforma agrária, instituições fortes, distribuição de renda, educação, habitação e saúde, apenas para citar alguns, que acredito, muito importantes. Somos uma das economias mais fortes do mundo! E daí? De que adianta isso se direitos básicos sequer são conseguidos por uma parcela grande da população? Quando vejo notícias desse tipo, além, é lógico, de ficar indignado, fico pensando o que será que estão pensando de nós lá fora. Cadê a punição exemplar para os Senhores do Engenho? Pois, se existem escravos, existem seus proprietários. E mais espertalhões continuarão a não resistir e fazer seus custos menores possível para assim, aumentar mais ainda seus lucros. Pois se a fiscalização vier, é só pagar aquilo que já deveria ter sido pago e tudo continua igual. Houve um comentário aqui de que os escravocratas deveriam perder suas propriedades e se fazer com elas reforma agrária, achei a sugestão muito boa. Acredito que a pressão continuará vindo de fora - os países desenvolvidos não deveriam comprar produtos provenientes de áreas onde se adotam práticas deste tipo, embora, infelizmente os bons empresários também corram o risco de serem punidos. Vamos acrescentar mais uma sugestão: Os bons empresários deveriam pressionar ou expulsar de suas associações os que utilizarem desse artifício. sem opinião
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