Lula rebate crítica à política indigenista e diz que índios defendem fronteira
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
Alvo de críticas e polêmicas, a política indigenista brasileira foi defendida nesta quinta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista condenou quem coloca os indígenas de um lado e os não-índios de outro numa referência aos conflitos na reserva Raposa/Serra do Sol (RR) e também aos que condenam as ações federais. Segundo ele, é um "antagonismo" desnecessário.
Comparando índios desprotegidos com favelados, o presidente apelou para que se entenda a "rebeldia" dos indígenas que vivem sem a proteção do Estado. Também lembrou que são indígenas que cumprem tarefas como militares que guardam áreas fronteiriças no Brasil.
"Quem alguém um dia ousou dizer que os nossos índios faziam o nosso país correr riscos de perder sua soberania porque estão em lugares [estratégicos para o país]? É só ir a São Gabriel da Cachoeira [AM], que nós vamos perceber que grande parte militares que estão lá, são índios, que estão lá vestidos com a roupa verde-amarela das Forças Armadas. Muitas vezes foram os índios que defenderam as nossas fronteiras", disse o presidente, em cerimônia no Palácio do Planalto.
A reação de Lula foi uma resposta aos recentes comentários do comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, que criticou a política indigenista do governo federal, e dos conflitos na reserva Raposa/Serra do Sol --que coloca indígenas e arrozeiros na disputa por terras na região, o caso aguarda julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal).
"O confronto muita vezes se dá pela ignorância, pela falta de informação, porque muitas vezes a gente é contra ou favor, até sem saber muito o porquê. Muitas vezes a gente é contra simplesmente pelo ouvi dizer, alguém me disse, sem aprofundar a discussão com aqueles que realmente conhecem, estudam e vivem o problema, disse, numa menção aos últimos episódios.
Relacionando o desamparo de índios, sem proteção do Estado, com a situação em que vivem os que moram em favelas, Lula pediu a compreensão pela rebeldia de algumas etnias.
"Obviamente que um índio que vive no meio da Amazônia, sendo brasileiro, cidadão brasileiro, eleitor brasileiro, não recebendo as funções que o Estado tem que ter para com ele e com seu povo vai ser tão rebelde contra o Estado quanto um companheiro, que mora numa favela no Rio de Janeiro, a 100 metros de Copacabana, não tem água nem escola nem nada para fazer", afirmou o presidente.
Lula apelou ainda para que as pessoas fujam ao clima de disputa incitada pela politização dos temas que envolvem a política indigenista. "Por que há esse antagonismo desnecessário? Por que tentar despolitizar a sociedade em debates que não dizem nada em comparação à realidade que vivemos a cada dia?", questionou.
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