Brasil
25/05/2008 - 10h00

Conflitos por posse de terra atingem 10 reservas indígenas

Publicidade

FELIPE BÄCHTOLD
JOSÉ EDUARDO RONDON
da Agência Folha
FERNANDO BARROS DE MELLO
da Folha de S.Paulo

Conflitos envolvendo povos indígenas não são especificidade da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, ou dos índios caiapós do Pará, que na semana passada agrediram o engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende. Ele sofreu um corte profundo no braço direito.

Atividades irregulares de agronegócio, extração ilegal de madeira, garimpos, grilagem e cooptação de índios por fazendeiros são alguns dos problemas em pelo menos dez reservas.

Os conflitos ocorrem na maioria em terras já homologadas pelo governo federal e que constam nos registros da Funai (Fundação Nacional do Índio) como regularizadas. A regularização é a última etapa legal do processo envolvendo uma área indígena. Esse é o caso de Raposa/Serra do Sol. Mas a Folha localizou denúncias em outras reservas na mesma situação legal, como as terras Maraiwatsede, Parque do Araguaia, Apyterewa e Ianomâmi.

Na terra Maraiwatsede, em Mato Grosso, índios xavantes enfrentam grilagem feita por fazendeiros, segundo o Ministério Público Federal. A Procuradoria diz que criminosos, ligados a políticos e produtores rurais, fraudam documentos que dão posse a terrenos da área, já homologada.

A presença de produtores do agronegócio em terra indígena também é o problema para cerca de 3.500 índios do Parque do Araguaia, na ilha do Bananal, no Tocantins. A exemplo do que ocorre na Raposa/Serra do Sol, os produtores rurais vivem no local desde antes da homologação, feita em 1998.

A extração ilegal de madeira atinge a terra indígena Apyterewa, no Pará. Segundo relatos de índios da etnia paracanã ao Ministério Público Federal, há ameaças de invasores.

Paulo Santilli, coordenador de identificação de terras indígenas da Funai, diz que, quando as autoridades efetivam a retirada de invasores, os índios recebem terras já "degradadas" após anos de exploração. "Há um grande passivo ambiental."

Ele declara que os recursos do órgão acabam direcionados para indenizações, enfraquecendo outros setores.

Na terra Ianomâmi, que ocupa no Amazonas e em Roraima área equivalente à do Estado de Santa Catarina, líderes indígenas dizem que há cerca de 800 garimpeiros invasores no local. Na terra vivem 16 mil índios.

"A gente pede para a Funai tomar providência, mas eles não têm coragem. Semprem falam que não têm recurso para pagar avião", diz o líder Davi Ianomâmi. Na área do Ajarani, na fronteira leste de Roraima, antropólogos apontam a presença irregular de fazendeiros.

Na reserva Roosevelt (RO), cintas-largas enfrentam o garimpo ilegal e o tráfico de diamantes. Em 2005, 23 índios foram indiciados pela morte de 29 garimpeiros na reserva.

Os conflitos ocorrem independentemente da situação legal da região. De mais de 107 milhões de hectares destinados a terras indígenas, mais de 97 milhões (90,6%) já foram homologados. Nem todas as terras, entretanto, foram regularizadas. Segundo a Funai, de 615 terras indígenas, 401 estão homologadas e regularizadas.

Na sexta, missionários do Conselho Indigenista Missionário relataram que foram baleados dois índios guajajaras da reserva Araribóia, próxima aos municípios de Arame e Grajaú, do Maranhão. Situação semelhante ocorre na reserva da etnia truká, em Cabrobó (PE). Os índios estão na região conhecida como polígono da maconha.

Comentários dos leitores
Adei Louzada de Moura (45) 27/06/2009 08h31
Adei Louzada de Moura (45) 27/06/2009 08h31
Como a entidade SODIUR, "reivindicava que os não índios, como os rizicultores, permanecessem na área" da RSS, postura que lhe confere a condição de mais brasileira e responsável do que as autoridades de Brasília; esperamos que agora, por ocasião da reunião mencionada, seus integrantes tenham uma participação ativa, não se deixando serem expulsos pela ONG "CIR" e propondo que, através de convênios, possam retornar à RSS, tanto os operosos rizicultores quanto quaisquer brasileiros de outras profissões que lá antes habitavam. Que trabalhem para viabilizar juridicamente esse retorno, de modo que, com sua presença, atrapalhem e impeçam a retirada sem controle de elementos da biodiversidade e dos minerais (nióbio, etc.). Esta retirada sem controle, e a futura formal separação do Brasil, no meu ver e sentir, é a razão última da feição atual do Art. 231 da CF/88, em função do qual a FUNAI esta a demarcar áreas enormes como "terras indígenas", designação que não deveria ser aceita pelos brasileiros, por se contrapor ao conceito de terra brasileira. Imagino que existam pessoas das cinco etnias que se sintam brasileiros e que se neguem a serem instrumentos dóceis de ONGs internacionalistas; que sintam motivação pelo retorno dos outros brasileiros injustamente expulsos. Se tal ocorrer, surgirão empregos, geração de renda e receita tributária, reintegrando ao Brasil a RSS. sem opinião
avalie fechar
Adei Louzada de Moura (45) 27/06/2009 08h18
Adei Louzada de Moura (45) 27/06/2009 08h18
Foi um desfecho lamentável esse que culminou na atribuição do território continuo de 1,7 milhão de ha. na área chamada Raposa / Serra do Sol (RSS). Esta região, de fato e a despeito de nossa superestrutura jurídica, deixou de ser Brasil, visto que vedada aos brasileiros em geral, onde lhes é negado o direito de ir e vir. Assim como já não era mais Brasil a reserva situada mais a oeste da RSS, algumas vezes maior que esta, a chamada Ianomâmi, designação espertamente empregada para designar todas as etnias que lá habitam, certamente em grupos esparsos e muito distantes uns dos outros; realidade que deixa liberada a exploração da biodiversidade e minerais (nióbio, etc.) pelos países desenvolvidos do hemisfério norte, sem que brasileiros atrapalhem. sem opinião
avalie fechar
Armando Malato (164) 26/06/2009 15h52
Armando Malato (164) 26/06/2009 15h52
Se as etnias indigenas estão se reunindo somente agora, para decidir o que fazer da área conquistada, chamada Rapõsa Serra do Sol, éporque de antemão, não tinham nenhum projeto visando a utilização deste território que vinha sendo ocupando em altas benfeitorias, por produtores de arroz e pecuaristas. Ninguem me convence que os silvicolas irão ter a mesma estrutura e tecnologia para aproveitar estas terras com a mesma desenvotura que vinha sendo feita pelos não indios. Agora começam a aparecer os impasses quanto a utilização da terra, por falta de entendimento entre eles mesmos. Tomara que daqui há alguns anos, esta região não vire morada, somente dominio de animais silvestres e terras incultas, para tristeza dos brasileiros e prejuizo de nossa produção. 2 opiniões
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (1225)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca