Engenheiro agredido no PA diz que não vê culpa de índios, mostra TV
da Folha Online
O engenheiro Paulo Fernando Rezende, que foi ferido depois de participar em um debate sobre a construção de barragens na bacia do rio Xingu na última terça-feira, afirmou que espera que "não aconteça nada com os índios" que o atacaram.
Em entrevista ao "Fantástico", da Rede Globo, Rezende afirmou que não "vê culpa dos índios no incidente". "Sinceramente espero que não aconteça nada com os índios. Não vejo nenhuma culpabilidade direta deles nesse assunto", afirmou.
Rezende, coordenador dos estudos de inventário da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, foi ferido durante Encontro Xingu Vivo para Sempre, realizado em Altamira (PA). Ele falava a uma platéia de aproximadamente mil pessoas, no ginásio poliesportivo da cidade.
Desde o início da sua fala, com argumentos favoráveis à construção da usina, foi muito vaiado pela platéia. Os índios permaneciam calados. Não se sabe quantos estavam no local, mas há aproximadamente 600 em Altamira acompanhando o encontro.
Violência
Para ele, a manifestação foi uma reação de grupos contrários à construção de barragens. "Na minha apresentação, eu acho que não aconteceu nada, simplesmente a reação da platéia. Há movimentos que são contrários à usina e eles aproveitaram para se manifestar me vaiando", disse.
Rezende afirmou que o impacto ambiental da usina seria menor do que os ambientalistas davam a entender. Depois que ele terminou de falar, Roquivam Alves da Silva, do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), disse à platéia: "Nós iremos à guerra para defender o Xingu se for preciso".
Então, índios de diversas etnias, sobretudo caiapós, levantaram-se e começaram a gritar, cantar, dançar em círculos e se aproximar lentamente de onde estavam os palestrantes. Armados de facões e bordunas, eles cercaram o grupo e não deixaram ninguém sair. A confusão era acompanhada por policiais militares, que não intervieram.
"Uma índia veio na minha direção, passou o facão no ar e voltou para o lugar dela. Aí todos os índios começaram a cantar e dançar e vieram para cima de mim", disse o engenheiro, que levou seis pontos no braço.
"É verdade que aconteceu logo depois de eu falar, mas não acho que eu o tenha causado. O clima já estava muito tenso", disse, à Associated Press após o incidente.
"Eles me puxaram pela camisa e eu caí no chão. Tratei de me proteger levantando as pernas e protegendo a cabeça. Eu não vi que tinham acertado o facão, nem senti dor. Só depois foi que vi que tinha um corte."
Providências
Em nota divulgada após o incidente, a Eletrobrás disse que tomaria as providências necessárias para que os responsáveis sejam punidos. "A diretoria executiva da Eletrobrás manifesta sua indignação diante do ocorrido e afirma que tomará todas as providências necessárias para que os responsáveis pela agressão sejam punidos."
Ao "Fantástico", o engenheiro disse acreditar que haverá justiça para o caso. "Eu penso que há justiça para isso. Não sou juiz nem advogado, sou engenheiro. O que a Justiça decidir, deverá ser feito."
Parte da tensão se devia ao fato de a Justiça Federal ter derrubado a liminar que impedia o início dos estudos de viabilidade de Belo Monte. Os caiapós, designação que abrange várias tribos aparentadas de língua jê da bacia do Xingu, são contrários à hidrelétrica.
Em 1989, num encontro semelhante em Altamira para debater a mesma usina (então chamada de Cararaô), uma índia caiapó mostrou sua indignação com a obra ao encostar o facão no rosto do presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes. Depois do episódio, o Banco Mundial suspendeu o financiamento para a usina.
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