Brasil
03/06/2008 - 00h42

Presidente da Funai defende demarcação de terras e critica conflitos com índios

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da Folha Online

O presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Márcio Meira, defendeu a demarcação de terras para reservas indígenas e criticou os conflitos com produtores rurais em regiões de preservação ambiental. Em entrevista ao "Roda Viva", da TV Cultura, Meira também rechaçou a agressão sofrida pelo engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende por um grupo de índios na região de Altamira (PA).

Para o presidente da fundação, encarregada de estabelecer e executar a política indígena no Brasil, deve haver punição pelo ataque contra o engenheiro durante encontro para discussão da construção de barragens na bacia do rio Xingu e a hidrelétrica de Belo Monte.

"Temos que trabalhar sobretudo em soluções pacíficas sobre o conflito. Cabe à Justiça avaliar o que deve ser feito e em cada caso, decidir o que deve ser feito. Índios que descumprem a lei devem ser punidos, se for o caso."

A agressão é mais um episódio envolvendo a demarcação de terras indígenas e as demandas de produtores rurais e de projetos voltados ao meio ambiente. "Acreditamos que a demarcação é correta. É um processo de administração correta que precisa ser reconhecido e consagrado", afirmou, se referindo à reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima.

A reserva foi palco de conflitos entre índios e funcionários do produtor e prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero (DEM). O confronto ocorreu no início do mês, e nove indígenas ficaram feridos. Quartiero, o filho dele e seis funcionários ficaram oito dias presos por conta da ação.

O ataque ocorreu com a iminência de julgamento pelo STF (Supremo Tribunal Federal) do mérito das ações sobre a demarcação da reserva, homologada pelo governo federal em 2005. A reserva, de 1,7 milhão de hectares, engloba seis fazendas de cinco proprietários (Quartiero é dono de duas), além de 53 pequenas propriedades agrícolas.

"Aguardamos a decisão do STF sobre a demarcação [remarcada para julho]. Lá vivem cinco povos. [A demarcação da terra] é necessária para a sobrevivência física e cultural deles. Nós queremos que ela seja reconhecida", ressaltou o presidente da Funai. A decisão do STF prevê a retirada dos produtores e da população de não-índios da reserva.

Das 616 terras indígenas registradas no país, 401 já passaram por todo o processo para reconhecimento e estão regulares. As demais seguem no processo de reconhecimento, que passa pelo trabalho da Funai.

Meira defende o controle da entrada de não-índios em reservas."A Funai tem o controle sobre quem ingressa em terra indígena. Óbvio que tem que haver esse controle para que possamos saber quem tem acesso e quem não tem legitimidade a entrar nessas terras."

Para Meira, "não há nenhum impedimento" para que um não-índio possa viver em uma comunidade indígena. "não há impeditivo [para anexação desse cidadão], desde que ele conheça aquela comunidade, respeite as regras, seja aceito por ela."

"O importante é que haja o respeito pela coesão social estabelecida ali. É diferente de produtores, proprietários de plantações de arroz e latifundiários, que desrespeitam o estabelecimento daquela terra indígena como terra da União, portanto estão lá de forma ilegal e não respeitam as formas de relacionamento tradicional", disse.

Meira é historiador e antropólogo e está na presidência da Funai desde março de 2007. Estudioso das questões indígenas, ele participou da elaboração dos laudos antropológicos e da demarcação das terras indígenas no Rio Negro, além de ser autor de várias publicações sobre povos indígenas.

A bancada de entrevistadores foi formada por Claudio Angelo, editor de ciência da Folha; Demétrio Weber, repórter do jornal "O Globo"; Washington Novaes, jornalista e supervisor do quadro biodiversidade do programa "Repórter Eco", da TV Cultura; Carlos Marchi, repórter e analista de política do jornal "O Estado de S. Paulo"; e Ricardo Noblat, jornalista, Blog do Noblat.

Comentários dos leitores
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h50
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h50
Índios vivem no Brasil em locais onde o sol é intenso e precisam se banhar várias vezes nos rios para se refrescar. Se eles desempenhassem trabalho em indústrias que o governo levasse para suas aldeias, eles receberiam em contra-partida um salário e poderiam ter casas de alvenaria com ar condicionado e ventilador. Com o tempo iriam diminuindo a prática de ir tantas vezes se banhar nos rios. Dizer que índios não gostam de trabalhar e que nunca irão gostar de trabalhar é enganação, porque existem profissionais competentes que poderiam fazê-los acostumar com as tarefas de trabalhos diversos. O governo deveria ser bom de verdade para os índios e ajudá-los de verdade, para que eles se desenvolvam com dignidade que todos seres humanos merecem e por serem brasileiros igual eu sou, eu penso que merecem mesmo a conquista da dignidade de viverem com mais conforto. Más, não é desapropriando terras produtivas para doar muita terra para eles que eles irão ter dignidade de viverem com mais conforto algum dia. Muito menos será isolando eles nas florestas e deixando-os ignorantes para viverem como selvagens. sem opinião
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HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h31
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h31
O governo deveria pensar que, em breve os índios que talvez sejam hoje uns 400 mil, serão milhões, e que causarão um enorme impacto ambiental, principalmente afetando muito a fauna porque eles irão caçar mais. Também o fato de representarem uma enorme massa populacional de "desocupados", porque não são a maioria que exerce atividade de plantação de lavouras de subsistência, ou que praticam algum trabalho além de caçar ou pescar. Já aconteceram muitos conflitos em contatos com índios de tribos isoladas e que nunca tiveram contato antes com a civilização, em construções de estradas no interior, em construção de estrada de ferro na região norte, em vilarejos que foram atacados por índios de tribos que não tinham feito contato antes e o governo deveria imaginar que com o aumento das populações indígenas, muitos índios irão sair de suas aldeias e se instalarem em locais onde nascerão outras gerações que viverão isoladas e sujeitos a primeiros contatos com consequências trágicas, e que poderiam ser evitados. Índios precisam receber educação, o governo deve levar para os índios em suas aldeias, indústrias ou fábricas, atividade de criação de animais e de produção de alimentos diversos. Dizem que índios não gostam de trabalhar, más, profissionais competentes existem nesse país e poderiam prestar serviços de assistência aos índios se trabalharem na FUNAI ou para o governo, educanto e treinando os índios para desempenharem tarefas em indústrias e na produção de alimentos. sem opinião
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Leonardo Afonso (2) 04/11/2009 18h44
Leonardo Afonso (2) 04/11/2009 18h44
Há mais que a questão dos índios do Xingu, Belo Monte alagaria uma formação geológica única no mundo; e não há demanda humana na área, a energia seria destinada a empresas estrangeiras de alumínio (como a Alcoa), no Maranhão. Tal indústria é intensiva em energia; e é estratégica de fato, mas não está acima de todos outros vetores socio-econômico-ambientais! Mas com Minc e Dilma, colega... sem opinião
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